Ontem, quarenta e cinco dias depois da cirurgia, retornei ao médico para revisão. Depois de muitos apalpamentos, veio o diagnóstico:
- Você está ótimo! Está recuperado.
- Já posso fazer minha caminhada na praia?
- Pode.
- Posso marcar a cirurgia dos olhos?
- Pode.
- Posso comer carne sem gordura?
- Pode.
- Posso fazer sexo?
- Bom... sou médico e não santo pra fazer milagre.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
sábado, 30 de novembro de 2013
Cineas Santos - Um passo rumo ao nada
Há 73 anos, Drummond escreveu: “Há máquinas terrivelmente
complicadas para as necessidades mais simples./Se quer fumar, aperte um
botão./Paletós abotoam-se por eletricidade./O amor se faz pelo sem-fio./Não
precisa estômago para a digestão” (“O Sobrevivente” -1930). O poeta viveu o
bastante para ver o sem-fio ser substituído pelo internet e o estômago perder
sua função específica. Não viveu, contudo, o suficiente para acompanhar a mais
ousada de todas as aventuras humanas: o projeto Mars One, que pretende iniciar a “colonização” do planeta Marte em
2023.
Até onde se sabe, Marte não tem água em estado líquido nem
oxigênio, elementos indispensáveis à vida, como a conhecemos. A viagem, se tudo
correr bem, terá a duração de sete meses, com um agravante: só tem passagem de
ida. Diante de tantos desafios, uma pergunta se impõe: alguém já se habilitou a
fazê-la? Segundo a Revista Planeta (Nov.2013), “O projeto Mars One já seduziu
202.586 de todo mundo que, de abril a agosto, se candidataram a integrar a
primeira expedição para colonizar Marte”.
Por oportuno, vale lembrar que, entre os “sortudos” figuram alguns brasileiros.
Concebido por Bas Lansdorp, engenheiro mecânico holandês, o
projeto custará a bagatela de seis bilhões de dólares e não será financiado por
nenhum país especificamente. Para levantar a grana capaz de garantir a execução
do Mars One, o engenheiro pretende
transformá-lo num imenso reality show
a ser exibido por televisões de todo mundo. Não por acaso, o “embaixador” do
projeto é o também holandês Paul Roner,criador do Big
Brother, que se tornou um dos homens mais ricos do mundo, alimentando a
curiosidade malsã da humanidade. A dupla acredita que “a missão
a Marte pode ser o maior evento midiático do mundo”. Curiosamente,
nenhum dos dois pretende ir ao planeta gelado: preferem comandar a aventura da
velha e sofrida Terra. Quanto aos colonizadores pioneiros, além de pagaram a
inscrição, não há previsão de nenhum ganho material, a não ser a “fama”. Se, porventura, encontrarem alguma
coisa “preciosa” em Marte, não terão direito a nada. Negócio de urso.
Como tudo parece peça de ficção científica, vamos imaginar
uma situação absurda: dois terráqueos, abandonados em Marte, vagueiam famintos pela
vastidão do planeta gelado. De repente, encontram uma patrulha de marcianos. O
comandante os interpela:
- Quem são vocês e de onde vieram?
- Severino e Slanowa, lá da Terra.
- Da Terra? Vocês acham pouco os estragos que já fizeram por lá?
O que querem aqui? – Severino adianta-se:
- Pra mim, basta um taco de rapadura e uma
mancheinha de farinha. Pra ela, uma talagadinha
de vodka, a bichinha é viciada...
O comandante dirige-se ao subcomandante e dispara:
- KPTA, eu não te disse que aquela
ideia maluca de colonizar a Terra ia dar em merda!
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Ignácio de Loyola Brandão - Carta a um amigo que realizou o sonho
Caro Antônio Torres. Você
não imagina o que vi há poucos dias na periferia de São Paulo, em São Miguel
Paulista. Ali há uma grande praça chamada Morumbizinho. Cheia de árvores.
Dessas árvores pendiam cordões, e na extremidade de cada um, um livro. E na extremidade
de cada livro uma pessoa. Como se fosse um fio terra. As árvores, símbolos da
vida, mantinham os livros, igualmente símbolos de vida à sua maneira.
Intrigou-me a cena. Inácio Neto, um dos coordenadores da Semana Literária de
São Miguel explicou: pela manhã, em um ritual, os livros são pendurados nas
árvores. Cedo as pessoas se juntam à espera, correm e tomam "posse"
de seu livro. Às vezes, ficam ali por horas, com breves momentos de repouso,
vigilantes. A certa altura, vem a liberação, cada qual puxa seu livro e parte,
amanhã haverá outro ritual. E depois, e depois.
Numa semana em que tivemos
imagens repulsivas, aterradoras, melancólicas, como a da criança catando
latinhas num lixão fedorento ou a reportagem de total perplexidade sobre o
"rei do camarote", a cena das pessoas agarradas aos livros que
desciam das árvores me emocionou. Há um Brasil diferente. Há um país
desconhecido e há pessoas trabalhando para mudá-lo, caríssimo Torres. Esse
Brasil você conheceu em centenas de viagens. Pena que a mídia ignore a
existência da Semana Literária de São Miguel Paulista. Numa região de 400 mil
habitantes, acontecem centenas de encontros, palestras, oficinas, exposições,
teatro, canto. São Miguel é o lado oculto da periferia, ansiosa, criativa,
querendo e oferecendo coisas. A gerir isso uma organização como a Fundação Tide
Setubal. Esta imagem do ritual da colheita dos livros é que deveria ser
expandida pela rede social, para as primeira páginas dos jornais: os livros
tirados das árvores.
Você, Torres, eleito para a
Academia Brasileira de Letras com votação quase unânime, ficaria feliz ao ver o
que vi. Aos 73 anos e com 18 livros publicados, você, nascido no Junco, Bahia,
chegou lá. O Junco mudou de nome, agora é Sátiro Dias. A Academia era um sonho
e você conseguiu. Perdeu duas vezes, foi paciente. Perder faz parte do jogo, de
todos os jogos. Agora está lá ao lado de Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon,
João Ubaldo Ribeiro com quem viajou muito por esse Brasil, de bibocas remotas
às capitais. Pena, Moacyr Scliar se foi, era de nossa geração. Estivesse vivo,
João Antonio estaria feliz, ainda que, na sua encarnação limabarretiana,
virasse a cara.
Falei em João Antonio porque
ele, você e eu sempre fomos unidos, fizemos infindáveis viagens por este
Brasil. Os três vindos de famílias humildes. Gostaria de ver João se meter em
um smoking para ir à sua posse, o que é de praxe. Ou ele chegaria de chinelão à
Academia e seria impedido de entrar? Fiquei feliz por você, companheiro do
jornal Última Hora nos anos 60. Quantos daquela época estão vivos para
comemorar?
Garotões, escondíamos nossas
ambições, desejos secretos, tínhamos medo de ser ridicularizados. Por inibição,
medo de sermos gozados, ficávamos em silêncio. Você foi para a publicidade,
mudou-se para o Rio. Anos mais tarde, em 1972, espantei-me, quando nos
encontramos no Center Três, em São Paulo, e você que me mostrou um livro, Um
Cão Uivando Para a Lua. Não vi o autor, perguntei:
- É bom? Acabou de comprar?
- Não, acabei de escrever e
publicar.
Surpresa, então você tinha
se calado todos aqueles anos? Logo depois, nos juntaríamos a João Antonio,
formando o trio que percorreu o País após a polêmica Semana Contra a Censura
realizada no Teatro Casa Grande no Rio de Janeiro em 1975. Numa dessas viagens,
passamos por Araraquara e meu pai te elegeu amigo. "Um grande
escritor," dizia o velho Brandão. "Tem cheiro de terra." Ele
prenunciava o Essa Terra, enorme sucesso? Comovido, meu pai ouviu a história de
como você, dos raros alfabetizados do Junco, escrevia cartas para os que não
sabiam ler nem escrever. E como lia as respostas que chegavam. "Assim ele
aprendeu, assim se aprende." Meu pai, estivesse vivo, teria me ligado para
comemorar a sua eleição. Você, meu amigo, tinha muita ternura por ele, assim
como teve para com o próprio pai, retratado em um livro, Adeus, Velho.
Publicado em dezenas de
países, agora você é acadêmico. Na cadeira de Machado de Assis e de Jorge
Amado. E o que me vem neste momento é uma fala sua no encontro do Paiol
Literário de Curitiba, promovido pelo jornal Rascunho: "Por que é que a
gente escreve? Deve haver uma falha dentro de nós. Por que o homem cria?
Primeiro, porque ele não é capaz de carregar um ser humano dentro dele. De
gerar um ser humano dentro dele. As mulheres não, elas não deixam de criar por
causa disso, mas acho que, no homem, há esse componente, essa diferença, essa
falta. Ele não gera uma criação dentro dele, então cria outras coisas. Tem um
buraco dentro dele que é preciso preencher. Tem que criar, inventar coisas e se
entreter com isso. E, de outra parte, você vê o seguinte: a literatura serve
muito, muito mesmo, para a gente se centrar. Enquanto você a está fazendo, está
filtrando, sendo a esponja de uma atmosfera que não é necessariamente saudável.
E aí é que entra o escritor como alguém incomodado, alguém desconfortável
dentro do seu tempo. Todo escritor mostrou o desconforto que sente durante seu
tempo. Vá ver Proust e Dostoievski, e tantos outros. Há um desconforto ali,
terrível. Diante da sociedade, diante de tudo".
Publicado no ESTADÃO, em 15 de novembro de 2013.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Luís Pimentel - Monsueto
Alma do samba e do espírito carioca, o
homenageado desse crônica (faria aniversário no dia 4) é o cantor, compositor,
instrumentista e “figuraça” Monsueto Campos de Menezes (1924-1973). Contam que
autor dos clássicos Mora na filosofia
(“Eu vou lhe dar a decisão:/Botei na balança, você não pesou/Botei na peneira,
você não passou”) e A fonte secou
(“Eu não sou água, para me tratares assim/Só na hora da sede é que procuras por
mim”) foi procurar o humorista, comediante e escritor Chico Anysio, que sempre
teve fama de não medir esforços para ajudar os amigos em dificuldades.
– Chico, preciso de ajuda. Estou há um
tempão sem gravar nem fazer shows. Numa dureza de dar dó. Veja aí o que você
pode fazer por mim.
Logo, logo Chico Anysio criou um
personagem para ser interpretado por Monsueto, em seu programa humorístico de
televisão. Conseguiu aprovar o personagem junto à direção da emissora e o procurou:
– Agora é só ir lá, Negão, e negociar o
salário para a gente começar a gravar.
Monsueto ficou eufórico:
– E quanto eu peço, Chico? Quanto eu peço
de grana?
Chico Anysio disse que não interferia nas
negociações salariais entre os artistas e a Globo, que ele fosse lá e visse o
quanto poderia conseguir. Imediatamente Monsueto fez uma pesquisa junto a
vários colegas, ouvindo de todas a “informação” de que a TV Globo pagava rios
de dinheiro. Já foi falar com o responsável pela parte financeira imbuído desse
espírito, quando se deu o seguinte diálogo:
– O senhor está pensando em pedir quanto
de salário? – perguntou o executivo.
– Oitocentos! – respondeu Monsueto, na
bucha.
Depois de folhear alguns papéis e fazer
alguns cálculos, usando uma maquininha, o representante da grana e da empresa
informou:
– O máximo a que podemos chegar é a 20.
E o grande Monsueto, sem pestanejar:
– Topo!
O primeiro sucesso de Monsueto como
compositor foi Me deixa em paz,
gravado por Linda Batista. Foi ainda ator de cinema, show-man, cômico de
televisão e diretor de bateria e harmonia de várias escolas de samba. Compôs
umas 150 músicas e foi gravado por grandes intérpretes da MPB. Viveu e morou na
filosofia, na melhor delas.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Associação criminosa para cometer crimes, segundo os visionários novelísticos
O Ouro, a Prata, o Cobre e o Níquel se associaram ao crime organizado, sequestraram o Oxigênio e ameaçaram destruir a família Ferroso lançando bombas letais de O2. Desbaratada a quadrilha metaleira numa fantástica ação batizada de “Operação Ferrugem” pela PF, sob o comando da delegada federal Helô e investigação conduzida pelos repórteres do Fantástico, o único elemento a ser preso sem direito a sursis nem à Lei Fleury foi o famigerado Carbono, que não fazia parte do Grupo e tampouco se inseria na história. Motivo alegado para a prisão: foi o único preto que a diligente delegada encontrou na Tabela Periódica.
sábado, 12 de outubro de 2013
Cineas Santos - Das sutilezas semânticas
Para
o meu gosto, das árvores floríferas da Chapada do Corisco, o ipê-branco (Tabebuia roseo-alba) é a mais nobre e a mais bela. Infelizmente, apesar dos
esforços do João Freitas Filho, ainda é inexpressiva a quantidade dessa espécie
em Teresina. Como não existem árvores velhas, tudo faz crer que este variedade
de ipê ainda está em fase de adaptação. Ao contrário do amarelo, perfeitamente
aclimatado à aridez da Chapada, o ipê-branco tem se revelado frágil e
vulnerável. No ano passado, pelos menos cinco ipês morreram sem que se saiba
exatamente a causa. Dos que plantei, dois não vingaram. Um “especialista”
explicou que ocorreu um “estresse climático”. Falta-me autoridade para confirmar ou contestar.
Este ano, para
alegria dos olhos mais atentos, no final de setembro, um ipê-branco, plantado
pelo Dr. Anfrísio Neto no jardim do edifício onde mora, explodiu em flores. Um dilúvio de beleza, diria um poeta medíocre. Uma senhora que
passava pelo local, não se conteve: “Meu Deus, um pé de árvore de Natal!”. Sem
uma folha, o ipê vestiu-se de branco durante uns três dias. Avisado por uma
amiga, fiz uma dezena de fotos e publiquei-as onde pude.
Finda a
florada, tentei falar com o jardineiro do edifício para saber como garantir
alguma das preciosas sementes. Não consegui. Só me restou uma opção: “botar
sentido” na árvore à espera das sementes. Por oportuno, vale lembrar: os
ipês-brancos são meio sovinas. Para minha surpresa, houve também uma explosão
de sementes que foram lançadas prodigamente ao vento. Munido de um saco plástico,
plantei-me na calçada e comecei a garimpagem das sementes que o vento levava
para longe. Em cada semente colhida, eu vislumbrava um ipê embelezando uma nesga
da nossa sofrida cidade. As pessoas passavam, olhavam para se certificar e,
como naquela música do Chico, uns
sorrindo faziam pouco, outros me tomavam
por louco... Indiferente ao rugir dos automóveis, eu catava as sementes com
uma indescritível alegria.
Lá pelas
tantas, passou um conhecido, cidadão de fino trato. Ao me ver agachado na calçada, parou o
automóvel e disparou: “Procurando o quê, professor?”. Sementes
de ipê, respondi. A resposta não lhe pareceu satisfatória: “O que o senhor
vai fazer com elas?”, quis saber. Vou
plantá-las. O cidadão voltou à carga: “Professor, me desculpe a curiosidade,
mas o que o senhor ganha com isso?”. Resolvi bancar o sabido: eu e a cidade ganharemos a possibilidade de
fruir,anualmente, a nossa efêmera ração de beleza. O cidadão sorriu, balançou a
cabeça negativamente e afirmou: “O senhor é um poeta, professor”. Levantou o
vidro do carro e seguiu em frente. Sei não, mas pela forma como ele pronunciou
a palavra “poeta”, tive a impressão de
que não era exatamente um elogio...
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Luís Pimentel - O gandula que comeu a bola
Mais
de meia hora de jogo, e a bola não saíra, uma vez sequer, pela linha de fundos.
Tinha escapado inúmeras vezes pelas laterais, o que já estava irritando aquele
gandula que trabalhava atrás do gol. Logo naquele dia, coitado, que o irmão
mais velho assistia ao jogo da geral, só para vê-lo atuar mais de perto.
Por
isso o menino gritava com os atacantes que chutavam daquele lado, toda vez que
a bola rondava a área:
– Chuta aqui, seu pereba! Chuta logo essa porcaria!
Esbravejava
com os zagueiros quando evitavam as finalizações do adversário, e xingava o
goleiro, toda vez que este fazia uma defesa:
– Bota
pra escanteio! Bota pra escanteio!
Finalmente a bola desviou em alguém
e escapuliu pela linha de fundos, quase no final do primeiro tempo. O menino
correu até o fosso em volta do campo, pegou a bola com as duas mãos, abraçou,
alisou e rolou com ela pela grama.
O gandula estava
visivelmente se exibindo para o irmão, alheio aos gritos dos torcedores, dos
jogadores e até do juiz. Todos esperavam apenas que o gandula fizesse o seu
trabalho, para que o jogo pudesse recomeçar.
– Devolve
essa bola, moleque insolente! – berrou o dirigente do time que estava
perdendo o jogo.
– Vem até aqui pegar! –
desafiou o menino, correndo de um lado para o outro com a bola debaixo do
braço.
O dirigente chamou os
auxiliares e os seguranças. Veio também a polícia, para engrossar a
perseguição, diante dos gritos da torcida que, a essa altura, torcia pelo
gandula, rindo e aplaudindo a sua aventura.
Quando se viu finalmente
acuado em um canto, espremido entre o pau da bandeira e o muro do fosso de
proteção, o gandula tirou um pequeno canivete do bolso e começou a cortar a
bola, gomo após gomo, colocando de um em um na boca como se fossem bifes bem
finos.
Mastigando, engolindo e
dando boas gargalhadas diante de seus perseguidores.
Do
livro de contos “O gandula que comeu a bola”, no prelo da Editora Dimensão
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