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sexta-feira, 31 de maio de 2024

Daniel foi ao brega comigo e perdeu o avião


Houve um tempo que o doutor José Décio Guedes foi morar umas décadas no Rio de Janeiro e São Paulo e, quando ia passar as férias em Alagoinhas, me botava de castigo até cantar Elton John de cor e salteado e com os olhos fechados. "Daniel" era a sua preferida. E se eu não obedecesse, o couro comia no lombo do aluno rebelde. Não por ele, claro, que é meu irmão mais novo e eu podia lhe dar uns cascudos, mas pela minha mãe que ficava ao seu lado, chinelo na mão, falando palavras incentivadoras:

- Ou obedece ao seu irmão ou o couro come!

E não saía de perto enquanto o professor não dissesse que    era hora de parar. No final das férias, ele retornava para o Rio de Janeiro ou São Paulo e eu ia gastar o meu Inglês com as meninas do Alecrim, o brega de Alagoinhas, mas me sentia o próprio João Batista pregando no deserto: elas mal falavam o Português e então eu desaprendia tudo, para desespero da minha mãe, que, de tanto ouvir "Daniel is traveling tonight on a plane", ela aprendeu no grito e me botava para cantar na base da chinela, mas não na casa da Gabriela. O couro comia, o cacete descia, os cascudos rangiam,  até ficar desplaneado do juízo. Quando meu irmão retornou nas férias, achou que meus grunhidos eram Grego. Então, pegou o disco de Demis Roussos e banda Aphrodite's Child e me botou para cantar Mary Jolie.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Conversa ao pé do fogão

Depois do almoço, falei para a diarista:

- Cleide, será que não tem nenhum doce escondido por aí?
- Não.
- Nem leite condensado?
- Tem um na cesta de Natal que dona Edna ganhou.
- Então distraia a atenção dela que eu vou roubar o leite.
- E ela reclama?
- Claro! Diz que é pra fazer pudim, mas, se eu não usar, perde a validade.
- E o senhor gosta tanto assim?
- Mais que Bolsonaro. O povo reclama que ele gastou cinco milhões com leite condensado, mas se eu tivesse um cartão corporativo, gastava dez.
- Vixe!
- Carência de infância. Lá no Junco não tinha dessas coisas. Eu estava com sete anos quando nos mudamos para Alagoinhas. Fomos em janeiro e, em fevereiro, voltamos para a festa da padroeira. Não tínhamos mais casa e tivemos que nos arranchar na casa da minha avó paterna, e ela não tinha gado, portanto, não tinha leite, pois naquele tempo as vacas ainda não davam leite em caixa. Então, de noite, a minha mãe apareceu com a novidade. Que delícia! Depois do café fiquei de butuca pra ver onde ela ia guardar.
- Descobriu?
- Sim. De madrugada, os galos cantando, caminhei sorrateiro para a cozinha, igual à Pantera Cor de Rosa, e me deliciei. Entornei três latas.
- Três latas?! E não ficou com dor de barriga?
- Não. Fiquei com dor na bunda da surra que levei.
- E como ela descobriu?
- Quando eu acordei, ela olhou pra mim e disse: “Você tá com a cara muito da sonsa, sinal de que fez alguma coisa errada!” Correu para a cozinha e não precisa dizer o que ela viu, né?
- E a sua avó não fez nada para lhe defender?
- A minha avó? Ela foi a primeira da fila pra me bater, pois também tinha gostado do leite condensado. Depois a minha mãe, meus tios, meus primos e meus irmãos. Só sobrevivi de teimoso que sou.