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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Quero meu Natal de volta!

A Covid também acabou com o que existia de mais cristão no Nascimento de Jesus Cristo: os parques de diversões nas praças, com vendedores de maçã do amor, roletas, tiro ao alvo, Monga, a mulher macaca, e a paquera no serviço de alto-falante anunciando páginas musicais:

- Alô, dona Maria, ouça essa música e quem manda é O-X!... Quem goitana é O-X? - perguntou o locutor, em off.
- Sou eu, seu criado! - respondeu o paquerador.
- E o que é "O-X"?
- As iniciais do meu nome: Ontonho Xofé.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Então é Natal


Não gosto de Papai Noel. Nem do jingolbéu. Os sinos da minha infância faziam ding-dong. Ding era o repique, dizia o sineiro aos meninos amarelos de pés descalços. Na véspera do Natal o galo cantava e o sino fazia bléim, bléim e o padre chegava na porta da igreja e anunciava:

- Cristo nasceu!
- Aonde?
- Em Belém.
- E onde fica isso?
- No Pará.
- E onde fica o Pará?
- No cu da sua mãe!
- No seu! E perdeu o dízimo!

E o povo seguia em procissão para ver a lapinha de tia Pureza, tão pura quanto o nome, e a todos recebia com um largo sorriso no rosto. Era a única lapinha que merecia ser visitada. Não porque as outras não prestassem, não era nada disso. É porque não havia outras. O povo não era chegado a certas tradições consumistas. O Natal era só um motivo para se ir à missa do galo. Enquanto isso, os solteiros se divertiam na paquera num parque mambembe que sempre aparecia.

Quando o sino tocava três vezes era hora de se ir à missa. O padre aproveitava o momento fraterno para contar o nascimento de Jesus numa manjedoura e a matança que Herodes promoveu. O povo chorava penalizado das criancinhas passadas a facão, mas logo esquecia quando os Reis Magos chegavam com presentes. Presente é presente, mesmo não servindo para nada, como era o caso da mirra e do incenso.  Essa era a parte que o padre mais gostava de contar porque comovia os fiéis e eles não mediam sacrifícios na hora de colaborar com o enxoval do menino santo. E foi num momento assim que o padre se empolgou e revelou um dos mistérios de Deus:

- Imaginem que castigo para uma criança ter que nascer num coxo de se colocar comida pra cavalo.
- Coxo?
- Sim. Coxo. Manjedoura é coxo.
- Que padre mentiroso da gota serena! O rei dos reis ia nascer num coxo?! O senhor é um herege, um comunista! Quem nasceu num coxo foi a sua mãe! E me dê meu dinheiro de volta que não vou ficar num conluio com comunista numa noite de Natal!

Estava formada a confusão. O sacristão, que tinha a mesma cara do padre, não gostou da ofensa à mãe do sacerdote e meteu o castiçal na cabeça da ovelha rebelde, que caiu desacordada e jorrando sangue. O delegado, que estava na missa, deu voz de prisão ao sacristão, o padre não gostou e chamou o delegado de “chumbeta de Belzebu”. Sem alternativa, o delegado levou o padre também preso, por desacato à autoridade. A minha mãe, que a tudo assistia horrorizada, fez pelo-sinal, me pegou nos braços, me fez entrar na Rural da Prefeitura e me levou para a emergência médica antes que eu tivesse uma hemorragia.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A primeira vez que esperei Noel


Seu irmão mais velho, em visita de filho pródigo aos pais, lhe prometera um velocípede de presente de Natal ao subir no ônibus no dia do ir embora. Nas quebradas do Sertão daqueles tempos não era comum se presentear as pessoas, muito menos os irmãos, em tempo de Natal. A data era comemorada apenas pelas visitas aos presépios enquanto se aguardava a Missa do Galo. Papai Noel era uma palavra desconhecida das crianças.

O garoto não sabia se faltava muito ou se faltava pouco, mas sentia haver uma eternidade entre a promessa e o dia prometido. Sonhava diuturnamente com a chegada do irmão trazendo na bagagem o seu presente.

Um dia acordou sobressaltado mal o galo cantou e correu em busca da folhinha. Então, finalmente, o Natal havia chegado. Passou o dia sentado à beira do caminho esperando ver a figura do irmão se descortinar na distância. A noite chegou, os pirilampos acenderam suas lanternas, e o seu pai o encontrou atento aos vultos passantes. 

- Vamos, filho! Talvez seu irmão tenha perdido o ônibus de Zé do Padre. Não veio hoje, talvez venha amanhã ou depois de amanhã. 

O Natal foi embora e ele continuou a esperar sentado à beira do caminho. Um dia o seu irmão apareceu sem que ninguém esperasse e o garoto sentiu o coração subir à goela. Finalmente realizaria o sonho de possuir um velocípede.

- Você cresceu um bocado, garoto. Não adiantava trazer um velocípede. No Natal vou lhe trazer uma bicicleta. Aguarde.

Os sonhos não se acabam nunca. Apenas se renovam. Uma bicicleta seria o suprassumo de um sonho de uma criança, principalmente em um lugar onde não existia nenhuma. O Infinito seria nada, perto de sua ansiedade sentado à beira do caminho ao longo dos dias à espera de um irmão que tardava em chegar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Primeira Vez Que Vi Noel




Viera da roça, fugindo da seca e da precisão. Chegara à véspera do Natal e no dia seguinte crianças brincavam na rua exibindo seus presentes: bolas de futebol, carros, bonecas, bicicletas. Ele observava todo o movimento de sua janela. Um garoto o viu e se aproximou:

– Oi! Sou Mário. Pegue seu presente e venha brincar conosco!

Ele desviou o olhar para o chão. Envergonhado, procurou a mãe.

– Mãe, quem é esse Papai Noel que deu brinquedo a todos os meninos da rua e a mim não?

 
A mãe não soube responder. De onde vieram, papai noel se chamava cesta básica e carro-pipa.

sábado, 6 de dezembro de 2008

MINI-CONTO DE NATAL

De menino

Viera da roça, fugindo da seca e da precisão. Chegara na véspera do Natal e no dia seguinte crianças brincavam na rua, exibindo seus presentes: bolas de futebol, carros, bonecas, bicicletas. Ele observava todo o movimento de sua janela. Um garoto o viu e se aproximou:

– Oi! Sou Mário. Pegue seu presente e venha brincar conosco!

Ele desviou o olhar para o chão. Envergonhado, procurou a mãe.

– Mãe, quem é papai-noel que deu brinquedo a todos os meninos da rua e a mim não?

A mãe não soube responder. De onde vieram, papai-noel se chamava cesta básica e carro-pipa.

sábado, 29 de novembro de 2008

CONTO DE NATAL

De Noel

É difícil dizer qual festa era a melhor em Alagoinhas: micareta, São João ou Natal, cada uma com sua peculiaridade, mas posso assegurar que o Natal era uma festa alegre, de participação popular e de muita animação.

O Clube dos Dirigentes Lojistas espalhava vários alto-falantes pelo circuito comercial e o povo era bombardeado ininterruptamente com mensagens e músicas natalinas. Quem ficava em casa, com o rádio ligado, sofria o mesmo bombardeio da emissora de rádio AM, única modalidade de radiodifusão de então; a freqüência modulada (FM) surgiu muitos anos depois.

Impossível não se envolver com o clima e o espírito natalino. Era uma afronta passar a véspera ou o dia do Natal sem provar da simplicidade da ceia dos parentes e amigos. Simples, porém farta. Bebidas a escolher. Comida a enjoar. Nada de nozes, panetone, castanha do Pará, iguarias que nada tinham a ver com a cultura e tradições da terra. Para azar do galináceo gigante, o peru era essencial.

O ápice da festa era o parque de diversões. Ocupando uma imensa área com seus brinquedos endiabrados, divertia mais do que o trio elétrico na micareta. Trem-fantasma, montanha-russa, autorama, roda-gigante, jogos eletrônicos, tiro ao alvo, caça ao pato e a bizarra Monga, a mulher-macaco, a surrealidade fantástica do jogo de espelho. Todo mundo sabia que era mentira, mas não ficava um valente sem correr quando Monga, uma gostosona em trajes sumários, se transformava em gorila e ameaçava abrir a jaula.

Do mesmo jeito assustador era o trem-fantasma. Mesmo sendo aconselhado a não descer do trenzinho sob qualquer circunstância por causa do trilho eletrizado, um infeliz não suportou o medo e pulou fora, na escuridão, vindo a morrer eletrocutado. Deixou um natal triste para a família e o parque com um brinquedo a menos, interditado pela polícia técnica.

Nessa época a urbe alagoinhense girava em torno dos cem mil habitantes. Desse total, metade ficava em casa recebendo os amigos e a outra metade se divertia no parque, normalmente os casais de namorados ou os solteiros em busca de acasalamento. Estes últimos preferiam sentar à mesa dos vários bares improvisados que circundavam os brinquedos. Paquera, bebidas e tira-gostos, pois ninguém era de ferro.

Eu ajudava um tio em um armazém de secos e molhados, um dos maiores da cidade, e, para compensar o tamanho da loja, ganhava um salário de fome. Ele dizia que se fosse para pagar mais, contratava um estranho. Isso me obrigava a fazer malabarismo com o salário, apenas o mínimo do necessário para ter sempre uma reserva para gastar com a namorada, principalmente em época de festa natalina. Além de pagar os bilhetes dos brinquedos da donzela, tinha também que bancar o pirralho do cunhado, o segurador de vela, o atrapalha-amasso. Não sei se era azar ou trabalho feito, mas toda namorada que arranjava tinha um irmão menor a nos acompanhar.

O Juizado de Menores marcava cerrado nas barracas de bebidas alcoólicas. Quando era flagrado menor de idade bebendo, a barraca era fechada e o dono levado para a Delegacia, onde passava a noite no xilindró. A reincidência valia prisão por mais dias e pesadas multas. Ao menor infrator nada acontecia a não ser o constrangimento de ter que sair da mesa sem pagar a conta.

Havia dois amigos maiores de idade: Luiz de Tenô, vindo do arraial do Junco, e Valdevino, companheiro de outros bares. Havia os menores: meu primo Paulo, meu irmão Décio e eu. A gente ia para o parque junto, exceto Valdevino, e, quando chegávamos lá, parávamos na barraca mais movimentada porque chamava menos a atenção para a presença de menor na turma. Barba e bigode despontando, Paulo e eu passávamos despercebidos, dava para enganar a torcida; Décio, o mais novo, bebia apenas refrigerante. Depois que a gente se instalava, fazia a festa: whisky, tira-gosto e cerveja. Muita cerveja. Às vezes juntava mais gente na nossa mesa e o dono alargava o sorriso, sem desconfiar que quase todo mundo estava abaixo da idade das responsabilidades. Queria vender; queria lucrar.

Por volta da meia-noite aparecia Valdevino, trajando um colete do Juizado de Menores. Policiais militares faziam sua segurança. Dirigia-se à nossa mesa, sem demonstrar a menor intimidade conosco. Pedia nossos documentos. Ameaçava prender o dono da barraca por vender bebida alcoólica à menor de idade. Mandava a gente ir embora sem pagar a conta nem olhar para trás. Obedecíamos como cordeirinhos. Antes de sairmos, na maior desfaçatez, aplicava um sermão em Luiz de Tenô, chamando-o de irresponsável e ameaçando prendê-lo também caso reincidisse na infração. No outro dia nos instalávamos em outra barraca e o processo se repetia, inclusive o sermão.

Essa farra durou por alguns natais, até uma noite que Valdevino não compareceu. Ficamos sem saber o que fazer, especulando motivos para a ausência do salvador da pátria. Esperamos até três horas da manhã, o parque foi esvaziando, a barraca também, e colocamos o plano B em operação. Retirada estratégica. Saía um de cada vez para não dar na vista; o último fingia que ia tirar água do joelho e se mandava no meio do povo. O dono da barraca desconfiou e segurou Luiz de Tenô, o último a ficar. Como a conta estava alta e ele com pouco dinheiro, penhorou sua corrente de prata e o relógio banhado a ouro.

No outro dia fizemos uma vaquinha e resgatamos os objetos do Luiz. Passamos na casa de Valdevino para saber do acontecido. Ele estava no hospital, com algumas costelas fraturadas. Segundo seu irmão, fora atropelado quando se dirigia ao parque e o motorista evadira-se do sinistro. Ninguém anotara a placa do carro. Coitado do Valdevino: passaria duas semanas internado, o que nos obrigou a bebermos a conta-gota, pois ainda havia dez dias de festa e diversão pela frente.

No Natal seguinte eu já morava em Salvador. Apesar de haver festa no Largo na Lapinha, parque de diversão em Água de Menino, e amigo comissário do Juizado de Menores, não foi mais possível aplicar o golpe. A cidade era outra, os amigos eram outros e o Tempo havia devorado a minha inocência.