quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ih! Sei não. Acho que essa seleção vai matar gente do coração - Luiz Alberto Machado

Pronto, entrei em campo com meus bacorejos. E quando vou pro jogo é sem medo de perder. Empate é derrota pros dois.



De Era Dunga II



A distância entre ganhar ou perder é como o fio da navalha ou um cabelinho de sapo: qual? Quem estiver mais preparado, motivado, com a sorte em dia e a vontade pro que der e vier, não dá outra. Quem tem medo de cagar, não come. E morre de fome.

Quando o Brasil começou a jogar pros lados, de banda, meio que sem graça, saquei logo o aguado. Desliguei e resolvi arrumar uma lavagem de roupa. Pra falta de garra, de raça e de mostrar pro que veio, melhor assobiar qualquer outra cantiga. Parece mais o ditado popular: quem tem furico, tem medo.

Como qualquer melepeiro entende mais essa seleção que eu, encontrei uma curiosidade: uma pesquisa feita por analistas do banco inglês Standard Chatered (ah, esses entendem mesmo do riscado!), baseada nos critérios das análises de Monte Carlo, nos spreads dos swaps para default de crédito e na taxa de cambio real efetiva (como é que é?!?!), publica um relatório reunido num catatau de 73 páginas, que o Brasil não será campeão nessa Copa de 2010 de jeito nenhum. Novidade!

Os 18 analistas de crédito e câmbio do Departamento de Análise de Risco da instituição financeira mencionada, chegaram nessa conclusão cientifica por meio de metodologias estatísticas que comprovam tintim por tintim, noves fora e prova dos nove. Negócio sério mesmo! Babau!

Para eles os campeões serão ou Espanha (que emperrou hoje), ou Alemanha, ou Inglaterra ou Argentina. E é?

Se eu tivesse no meio deles acrescentaria além desses qualquer um, debochando com uma risada boa.

Outros que presumo serem raçudos especialistas no assunto são os videntes que flagrantemente sabem, além do futebol, toda obviedade da besteirada nunca vista. Pois é, eles tambem adivinham que o Brasil não ganhará. E lá vai a vidente Maca que aposta na Alemanha derrotando o Brasil na final. A Miss Knock diz que dá Gana. O feiticeiro Zulu Sebenzile Nsukwini sapeca na África do Sul (que levou um chocolate do Uruguai). A Bete Strauss apostou na Espanha (de novo!?), Inglaterra, Italia, Alemanha ou França (só?). A cartomante Cinara Mattos diz que vai de França. O bruxo mexicano Antonio Vásquez acha que o Brasil perderá na final para um selecionado europeu, indicando a Holanda. A numeróloga Fatima Cald vai de Espanha ou Itália. O espírita Ubirajara Pinheiro diz que a final será entre Itália e Alemanha. Somente o nigeriano John Adatiri e o Pai Paulo de Oxalá apostaram que dará Brasil. Eita!

Nessa penca de pitacos, também o adivinho presidenciável sempre preterido Doro, botou as mangas de fora e água na moringa vociferando seu borborigmo intelectual: dá Brasil. Isso, entre flatulências e coprólitos, batia o pé dizendo que não adianta olho gordo, secagem, macumba, vudu, urucubaca braba e esconjurada geral! E pra imunizar a nossa seleção o apadeguado tomou a providência de fazer um arrumado com pena de bacurau, patuá, carranca, sino-salomão e cocar para enfunar o peito, saçaricando que o Brasil não vai voltar da África do Sul com os beiços com que mamou.

Sei não. Gostaria muito de queimar minha língua – feito fiz com Felipão: meti o pau até o jogo da Inglaterra. Depois, fiquei na minha. Peru que não se emenda, melhor piar baixinho ou cair no mutismo.

Mas digo lá: ih, acho que essa seleção vai matar muita gente do coração.


Nota do Blog: Luiz Alberto Machado é poeta, músico, escritor, compositor pernambucano com um pé na antiga província, Alagoas. Mais informações podem ser colhidas no seu site http://www.luizalbertomachado.com.br/

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Vuvuzelas Silenciosas - Macléim Damasceno

De Era Dunga


Escrever obviedades remoídas sobre a seleção brasileira, seu técnico e jogadores, seria o mesmo que murmurar um sinal de alerta anunciando um enxame de abelhas no meio das vuvuzelas a todo vapor. Dizer que estranho a nossa seleção, pentacampeã mundial, ter o seu ponto forte na defesa e abrir mão do talento em prol de uma seriedade que descaracteriza o nosso futebol, além de óbvio, é frustrante como uma retranca. Seja de qual era for. No entanto, o interessante é que o meu ponto de vista camicase também não passa de obviedades. Sobretudo, aquelas que, paradoxalmente, estão camufladas pelo silêncio dos interesses econômicos, pela conivência vantajosa da grande mídia, pelo óbvio escondido sob os tapetes, os quais torcedor nenhum admite sequer conjeturar.

Descarto o maniqueísmo intelectualoide que permeia, sobretudo, os pernas-de-pau sem barriga de chopinho. Porém, se o Brasil é o país do futebol, causa e efeitos lhes são inerentes. Se não, vejamos alguns fundamentos, não necessariamente técnicos e táticos, e suas implicações sócio-culturais. Tudo, claro, a partir do meu ponto de vista camicase. Antes, porém, uma historinha interessante: dizem que quando nem sonhava existir Charles Miller, por volta de 3000 anos antes de Cristo, o futebol deu o seu pontapé inicial com os soldados chineses – eles estão em todas mesmo – que, depois das guerras, usavam como bola as cabeças decepadas dos adversários derrotados. A partir daí, cabeças de técnicos e jogadores de futebol têm rolado diariamente. Porém, são apenas essas as que rolam. As que comandam permanecem chutando.

Mas, vamos aos tais fundamentos do meu ponto de vista camicase, sem qualquer pretensão de arranhar os alicerces da devoção brasileira pelo futebol e, tão pouco, da minha vocação para torcedor sazonal. Pois bem, no Brasil tudo começa com a criação de ídolos que naturalmente deixam de estudar, sem qualquer intervenção do Estado, e formatam no imaginário coletivo - principalmente das crianças - a legitimidade desse desinteresse. Depois, dentro das quatro linhas, para delírio dos torcedores, a violência faltosa e desleal se justifica sob a perspectiva da garra, da raça e da torcida a favor. A dissimulação, no intuito de ludibriar, de enganar, de auferir vantagens, é algo corriqueiro e plenamente aceito pela massa e pelos atores de uma partida de futebol. A desmoralização da autoridade em campo (o árbitro) parece ser uma tentativa constante e, talvez, o único fator de irmandade entre as torcidas. Tudo isso, que doravante chamarei de ingredientes, é cozinhado durante noventa minutos num caldeirão efervescente. Frio ou quente, não é consumido apenas ali, direto do caldeirão. O caldo forte também é servido para viagem.

Portanto, é óbvio que os tais ingredientes serão, no mínimo, arrotados no dia a dia do “torcedor-cidadão” de todos os níveis e classes sociais.

Nota do Blog: Macléim Damasceno é jornalista, cantor, compositor, programador da Rádio Educativa de Maceió e cronista nas horas vagas.
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terça-feira, 15 de junho de 2010

O Brinde

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De Alagoinhas Atlético Clube - 1973



Lourival Andrade acumulava as funções de diretor, comentarista e narrador esportivo da Rádio Emissora de Alagoinhas nos anos 1970, cuja importância aumentou depois da inauguração do Estádio Antonio Carneiro e a consequente fundação do Alagoinhas Atlético Clube, ou simplesmente “Atlético”.

Lourival, na sua vida de artista do microfone, perseguia dois sonhos: um, era ser como Djalma Costa Lino, à época, o maior narrador esportivo do rádio do Norte-Nordeste. Para tanto, se esmerava no microfone, principalmente em jogos de grande audiência, como Atlético versus Bahia ou Vitória.

O outro sonho era narrar uma final do campeonato baiano de futebol diretamente do Estádio da Fonte Nove, quando o Atlético fosse um dos protagonistas. Em 1973 aconteceu o milagre e Lourival me procurou no Armazém União, do meu tio Edgard, onde eu exercia a função clandestina de gerente:

– Meu querido, preciso falar com você.
– Pode falar, Lourival.
– Queria que seu armazém patrocinasse a transmissão diretamente da Fonte Nova da final do campeonato baiano no próximo domingo. Vamos ser campeão de audiência no interior. Mais ainda se o Atlético sair vencedor.
– Sem problemas, Lourival, mas há um porém. Aliás, dois.
– Quais?
– Primeiro: o armazém não é meu. Segundo: na hora de você dar o prefixo da rádio, terá que dizer assim: “Rádio Emissora de Alagoinhas, quatro bocas de alto-falantes falando baixinho, baixinho para todo o mundo”...
– Ora, vá...
– Calma! Calma! Calma. Tô brincando.

O Armazém União não só patrocinou a transmissão como pagou a passagem desse escriba que vos fala para ver o Atlético de Alagoinhas ser garfado em dois gols irregulares do Bahia e voltar para casa com a inconformidade à flor da pele. Em terra de campeões, ser vice e último lugar não há diferença.

Lourival Andrade dividiu seus noventa minutos de fama com seu fiel repórter de campo Belchior, um jovem estudante que também exercia a função de cobrador de ônibus. O primeiro gol do Bahia, ele descreveu assim:

– Douglas recebeu a bola em impedimento e chutou para o gol, sem a menor chance de defesa para o goleiro Gato. E agora tá o maior cu de boi na área do Atlético...
– Olha o Português, Belchior! – advertiu Lourival.
– Esse tal de Português vai entrar no lugar de quem, Lourival?

No ano seguinte Lourival foi à forra das brincadeiras que eu fazia a ele. Copa do Mundo de 1974. Ele anunciava brindes e mais brindes em sua resenha esportiva, ao meio-dia, para o primeiro que ligasse e dissesse o placar da final da Copa de 1970, com os devidos artilheiros. Metade e meia da população de Alagoinhas sabia, mas eu tive a sorte de estar perto do telefone naquele momento. Ávido para ganhar um prêmio, liguei para o programa. Ia ser de lambuja.

– Alô, Lourival, suspenda a promoção que o prêmio já é meu. A final de 70 foi Brasil 4, Itália 1. Com os gols de Pelé, Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto, para o Brasil, e Roberto Boninsegna para a Itália.
– Ok., você ganhou. Venha buscar seu brinde até as 14 horas de hoje.

O armazém ficava perto da Rádio Emissora e em menos de cinco minutos estava lá, ansioso para receber o tal brinde. Depois de passar um tempo falando abobrinhas, no ar, me entregaram um envelope com timbre da emissora contendo minha prenda. Feliz, abri na saída do estúdio e contive um palavrão ante a surpresa: simplesmente eram tabelas dos jogos da Copa fornecidas pelo Armazém União.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Um Sequestro Inesquecível - Luís Pimentel



De Ou casa ou morrre!


Já que o momento é inteiramente futebolístico, vai uma sobre tema:

O acontecido aconteceu na cidade de Nazaré das Farinhas, faz muito tempo. O time era o Misererenóbis Futebol Clube. A escalação: Capenga, Tonho Doido, Bilau e Coceira. Zé Sapateiro e Alecrim. Nenga, Cabeça-de-Nêgo, Desvairado e Timbu. O esquema de jogo era o 4-2-4, como nos velhos tempos. Lateral não era ala. Não tinha um líbero, todo mundo corria. E tinha beque, ponta-de-lança, essas coisas.

O Miserê – assim carinhosamente chamado pela torcida – era o terror interiorano. Líder do campeonato intermunicipal de equipes, derrotara, naquele ano, todos os adversários, inclusive o glorioso Esporte Clube Berimbau, de Feira de Santana.
Os onze – não havia reserva; se alguém se machucasse, o time jogava no prejuízo – guerreiros de Nazaré embarcaram no sábado pela manhã para Cruz das Almas. A decisão do título seria na tarde do dia seguinte, com o vigoroso Cruzmaltense. A viagem de ônibus durava pouco mais de uma hora, mas era melhor embarcar na véspera, para no dia estarem todos bem descansados.

O sequestro inesquecível foi perpetrado na sexta-feira, depois da meia-noite. Letícia era filha de Seu Joaquim, português que esbarrou em terras baianas por engano e acabou importante proprietário da única mercearia da cidade e com status de quase prefeito.

O atleta miserenobense Zé Sapateiro cultivava um olho grande para cima da menina, há muito tempo. E era correspondido: o olhar de Letícia formava, com o dele, uma linha de passe bem legal.

Zé combinou com os demais companheiros de equipe se juntar ao time em Cruz das Almas, pois precisava embarcar mais cedo. Então passou a mão em Letícia e se mandaram, escondendo a moça em casa de um correligionário, lá mesmo em Cruz. No sábado ao meio dia já estava com os companheiros, com cara de sonso, fazendo gestos diante das notícias:

– Sequestraram Letícia, filha de Seu Joaquim.
– Não diga!
– O português garante que vai matar o seqüestrador.
– Ele está certo.
– Mas diz que antes vai capar o infeliz.
– Nossa Senhora!

Alguém denunciou, como era de se esperar. Seu Joaquim manteve a polícia longe do caso, encheu a espingarda de chumbo e viajou no domingo para a cidade da grande decisão. Foi direto para o estádio e pulou a cerca que separava os craques da torcida, atirando feito um doido.

Letícia também pulou a cerca e se ajoelhou diante do pai, chamando o velho à razão com essa pérola:

– Faz isso não, pai. O Miserê tá perdendo o jogo e Zé Sapateiro, jogando um bolão, é a nossa única esperança de empate e, depois, de vitória!

Seu Joaquim resolveu, em nome do espírito esportivo, pensar duas vezes, adiar a contenda, deixando a vingança para depois do jogo. Sentou-se em um banquinho de madeira na arquibancada improvisada e começou a torcer também.

Zé meteu um golaço e deu outro de bandeja para Alecrim marcar e virar o jogo, garantindo o título e conquistando, também, o coração do sogro.

Voltaram todos para Nazaré festejando, dando tiros de comemorações para o alto, com a espingarda do português e anunciando o fim do seqüestro: sem sangue, sem resgate, sem uma linha sequer nos jornais.