domingo, 6 de setembro de 2020

Independência ou morte

Um dia o infante acreditou
Que todos os problemas da nação
Se resolveriam sem maiores delongas
Com baioneta e fuzil à mão.
Baioneta mais cega
Do que a fé do povo
Fuzil sem munição,
Embornal furado e oco.
- Quando o inimigo chegar
O que faremos, sargento?
- Ora! Atirem-lhe ovo!

domingo, 30 de agosto de 2020

Seis anos sem Ariano Suassuna

 Na bienal do Livro de Brasília, em abril de 2014, Iara Maria Ramires Melo, Marcelo Torres, Maurício Melo - pai do Maurício Melo Júnior  - e eu, paramos numa birosca pra fazer um lanche. Lamentávamos não haver mais convites para a palestra do Ariano Suassuna, um dos homenageados da bienal. De repente parou uma senhora, nos olhou e perguntou:

- Vocês querem dois convites pra palestra do Ariano Suassuna?

Como não querer?

- Claro que queremos!!!

Ela nos entregou dois convites. Iara explicou a Marcelo como me entregar a domicílio - eu era hóspede do casal Melo  - nos despedimos e saímos correndo. Estava em cima da hora.

Atravessamos uma daquelas pistas imensas e movimentadas (segundo Marcelo é a maior do mundo, mas tive minhas desconfianças porque esse meu primo já chegou achar que o Junco era a melhor cidade do mundo pra se viver) nos arriscando a sermos atropelados e chegamos a tempo de sermos os últimos da fila.

Lá dentro, uma multidão. Faltava chão para sentar. Descemos as escadas - pisa daqui, empurra dali - e paramos na segunda fileira das cadeiras. A primeira estava bloqueada. Sentei no colo duma dona e Marcelo escolheu o colo de um paraibano que disse matar e morrer por Ariano. Mas foi coisa rápida, não deu nem pro meu primo esquentar o colo do cidadão: dois caras sentados na segunda fila eram ôtoridades do governo e foram chamados para fazer parte da mesa. Assim, antes que alguém tomasse a dianteira, Marcelo e eu invadimos a ala vip e ouvimos a palestra de primeira classe. Ou melhor: de segunda fileira.

E foi mais de uma hora de êxtase pleno. Pena que não haverá mais Ariano para alegrar a monotonia de palestras de bienais e feiras de livros.


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O despertar do poder feminino

A escola estava em revolução. Alunos e alunas em passeata gritavam palavras de ordem contra o regulamento interno que ia de encontro ao estatuto da criança e do adolescente. Os professores entraram em pânico, a coordenadora pedagógica descabelava a peruca, a vice-diretora lembrou-se mui oportunamente que tinha uma consulta médica marcada trezentos anos atrás e, antes da imprensa local ser avisada, chegou, com todas as honras e pompas de negociadora, a autoridade maior, sua excelência, a diretora. Sem maior delonga, reuniu sua equipe. 

- O que está acontecendo aqui? 
- Os alunos estão revoltados porque não podem trazer brinquedos de casa – disse a coordenadora pedagógica. 
- E os brinquedos da escola? 
- Eles querem brincar com os seus próprios brinquedos. 
- E quem organizou esse protesto? 
- A Gil. 
- Gil? Mas ela só tem oito anos! 
- E já é comunista! – meteu-se na conversa a professora de Religião que já não aguentava as contestações religiosas da líder mirim. 
- Levem a Gil para a sala da diretoria para a gente negociar! 

Depois que a orientadora e a professora de História garantiram que não haveria retaliação, e sim, negociação, a líder dirigiu-se à sala da diretora seguida por outros estudantes que gritavam o velho bordão “criança unida, jamais será vencida!” 

Gil era uma garota delicada, usava óculos de intelectual, cabelos meio punk, magra, mas nada frágil. Entrou de cabeça erguida na sala da diretora. 

- Sente-se, Gil, por favor! 
- Não. Estou bem de pé. 
- Qual é a reivindicação de vocês? 
- Por que só alunos do primeiro ano podem trazer brinquedos de casa? Por que essa preferência desleal, só eles podem e nós não? Só porque temos oito anos deixamos de ser criança? Qual é a ideia que a senhora faz do que é ser criança e poder brincar com seus próprios brinquedos? O que é ser criança para vocês da escola? 

A diretora ficou atônita, muda, estupefata com os argumentos daquele pingo de gente que já se anunciava empoderada e dizia coisas que ninguém havia pensado antes. 

A partir de então todas as crianças puderam exercer seus direitos universais de ser crianças dentro dos muros da escola.


domingo, 16 de agosto de 2020

Fatalidade

 Nem só de Covid 19 se morre hoje em dia:

- Coitado do nosso amigo Alceu, morreu de catarata!
- E catarata mata?
- A do Iguaçu, sim. Despencou lá de cima.

Uma short history de uma short history

 Quando eu fiz quinze anos a minha mãe me perguntou:

- Ô, menino malino, o que você prefere como presente de aniversário: uma viagem pra Disney ou uma noite no brega?
- Ôxente, maínha, que pergunta mais besta! Que goitana vou fazer na Disney?

A difícil missão de se ser coroinha

 

Caminhar pelas ruas de Alagoinhas é transitar na minha memória de infância e adolescência. Nessa igreja eu fui expulso da ordem dos coroinhas por um motivo banal: fui flagrado pulando o muro do convento para roubar laranja no pomar. E o padre franciscano ainda me disse:

- Roubar laranja não é um pecado tão grave assim que não possa ser perdoado com uns cascudos. Beber o vinho canônico escondido também não. Agora, beber o vinho e comer a hóstia consagrada como tira-gosto, isso é imperdoável!

E o sacrista ainda me encanou para a minha mãe e como castigo passei seis meses proibido de ir pro brega.

O mar em nós

Um dia ele me levou pra ver o mar. Saído de um lugar que não tinha água, meu deslumbramento foi tão grande que pedi a ele:

- Irmão, me ajuda a ver o mar!
Muito tempo depois ele virou ermitão e então num dia de milagre eu o levei para ver o mar que ele não se lembrava mais.

Não se faz mais cavalheiro como antigamente

Ele vê uma mulher perfeita desfilando pela calçada: corpo escultural, sensualidade de ninfa e quando ela deixa cair o lenço dois passos adiante, ele diz:

- Ei... fofinha!

Ela se abaixa bruscamente, recolhe o lenço à bolsa, vira para trás e explode:

- Fofinha é a puta que lhe pariu!

E segue em frente com seu andar provocante em busca de uma alma que saiba a diferença entre um corpo de mulher e uma almofada.

Ato de confissão

"Eu pecador, me confesso ao padre..."

Como confessar ao padre certas iniquidades que fazia trancado no banheiro e não confessava nem sob tortura de minha mãe? Como confessar a um estranho, mesmo se dizendo representante de Deus, que havia segundas intenções quando levava a jega para comer milho no barranco? Ora, se Deus é onisciente e onipresente, então para que confessar a um dito Seu representante tudo aquilo que Ele já sabia?

E foi com esses pensamentos que me ajoelhei no confessionário no ato da primeira comunhão. E falei daquilo que devia falar: da minha mãe que solava meu lombo com o cinto do meu pai por causa do arengueiro do meu irmão mais novo; dos cascudos que levava do meu irmão mais velho porque não me submetia a ser seu escravo; do pão que o Diabo amassou que eu tinha que comer todo santo dia.

Se segurava vela, apanhava do namorado da minha irmã; se relaxava, apanhava da minha mãe. Era uma vida sem muitas opções. Não sei se o padre entendeu, não sei se Deus me perdoou. Sei apenas que levei uma surra memorável da minha mãe para não desdenhar das coisas sagradas e mastigar a hóstia consagrada como se estivesse comendo um sanduíche da McDonald’s. Não sei de onde ela tirou essa ideia se naqueles tempos não havia McDonald's.

Ai se ela descobre que o catecismo que eu lia era o do Zéfiro!

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Perdidos e achados em Brasília I

Em uma noite de Primavera de 1985 três perseguidos políticos do polo petroquímico de Camaçari vagavam pelos bares das cidades satélites de Brasília. No último que entramos, perguntamos se havia "folha podre". Um moço que bebia ao pé do balcão nos olhou curioso e disse:

- Esse negócio de folha podre é coisa de baiano.

- E somos - respondi.

Travamos conversa até a madrugada. Ele era caminhoneiro e estava indo para Vitória da Conquista. Nós estávamos acampados na Fetag, no Núcleo Bandeirantes, com mais oitenta companheiros em busca de reparação política. A ordem era pressionar os deputados. Afinal, o sindicato representava mais de sessenta mil trabalhadores e era a menina dos olhos dos políticos em tempo de eleição. 

- Eu deixo vocês na Fetag.

Aceitamos. O dinheiro era escasso. A ditadura assaltou nossos direitos. Entrei na cabine com o companheiro Marins. O outro subiu na carroceria e se meteu debaixo de uma lona para se proteger do frio.

Chegamos ao nosso destino, descemos e agradecemos a carona. No outro dia, na fila do café, outro colega nos perguntou:

- Sales não saiu com vocês ontem?

Olhei espantado para Marins. Esquecemos de acordar Sales e pelo andar da carruagem ele já devia estar bem longe.

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Medo ou respeito?

O medo na simplicidade ou a simplicidade do medo. Ou, como dizia o meu pai, quem não deve, não treme.
O meu irmão Nininho era supervisor do Censo lá pras bandas do Junco. Um dia ele resolveu passear nas roças para saber se os recenseadores estavam fazendo o trabalho direito. Na primeira casa que bateu, atendeu uma senhora, cigarro de palha nos lábios:
- Bom dia, minha senhora. Seu marido está?
- Quem deseja falá cum ele?
- Diga que é Nininho, sou supervisor do Censo do IBGE e queria fazer umas perguntas a ele.

A mulher jogou o cigarro no chão, entrou apressada, pulou pela janela da cozinha e saiu correndo para roça, gritando:
- Se esconde, Bié, que o ôme do governo veio lhe prendê!


Uma escolha difícil

Quando eu fiz quinze anos a minha mãe me perguntou:
- Ô, menino malino, o que você prefere como presente de aniversário: uma viagem pra Disney ou uma noite no brega?
- Ôxente, maínha, que pergunta mais besta! Que goitana vou fazer na Disney?

Sem sinal

A pandemia, além de consumir a nossa saúde, engoliu o sinal de celular. Em alguns lugares nem subindo em coqueiro a gente consegue uns traços. Precisando fazer uma ligação urgente no centro da cidade, perguntei a um guarda onde havia sinal forte de celular. Ele me olhou incrédulo e respondeu:
- No presídio!

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Dos nomes que a gente tem


Aqueles que nunca tiveram um apelido na infância, jamais terão uma boa história para contar. Se batizar João, se crismar João, se formar João e morrer João ou outro nome qualquer, que graça tem? Êta vida besta, meu Deus! A verdadeira felicidade consiste em se ter um nome para cada ocasião. Quem não tem, trate de inventar um.
Jorge Silva Pacoa, o dileto sobrinho de Maricas Coxeba, empacou ao ler um livro meu e descobrir que a sua tia, uma Guimarães de rocha, tinha esse apelido. Ao contrário do povo do Junco que todo mundo foi, é ou será Cruz e o que diferencia uns dos outros são só os apelidos, o povo de Inhambupe tem essa mania de grandeza com o nome e sobrenome, apesar de agora abundar os “dos Santos” e “da Silva”. Vou lhe processar! disse-me ele com todos os sinais gráficos do mundo. Desafiei-o: vamos ao Junco saber se lá existiu alguma Maria José Guimarães. Ele foi. Andamos de boteco em boteco entrevistando o povo, pagando cachaça a uns, tira-gosto a outros, e ninguém nunca ouvira falar nesse nome. Nem os mais velhos, nem os mais moços, nem os que ainda iam nascer. Mas quando a pergunta era sobre Maricas Coxeba, ah! todo mundo abria um largo sorriso: foi uma grande mulher! Até os fedelhos diziam que sabiam quem era. Ou melhor, quem foi.
Maricas Coxeba foi a mulher mais importante do Junco, depois da primeira-dama e da esposa de Zé do Padre, o motorista do ônibus que acordava o povo às cinco da manhã para conduzi-lo até Alagoinhas. Escrivã da terra, aquela que escrevia “é verdade e dou fé”, se se candidatasse a prefeita ganhava de lavagem. Mas como a política é machista, nunca lhe deram essa chance.
Devo a ela a minha sobrevivência. Sem ela, seria um moço mais triste do que sou hoje. Ou melhor, já teria morrido de tristeza. O que ela fez por mim é digno de entrar nos anais da história.
Era um dia de sol, como todos os dias eram, e o meu irmão mais velho, famoso no lugar por ser jornalista em São Paulo, chegou na surdina para tomar um copo de umbuzada, coisa que em São Paulo não tem, disse ele. Quer dizer, acho que disse, pois eu era pequeno e não me lembro bem. Foi uma festança. Meu pai mandou matar um carneiro e as mulheres da redondeza ocuparam o terreiro. Era mulher que não acabava mais, cada uma carregando uma cesta de umbu.

No auge da festa, ele prestou atenção em mim. Era a primeira vez que eu o via. Perguntou à minha mãe:
- Mamãe, como é o nome desse moleque?

- Moleque – respondeu ela, carinhosamente sentido asco.
- Não. Falo do nome de registro.
- Tonho de Lisboa.
- Tonho de Lisboa?! A senhora não sabe que isso não é nome de gente?
- Olhe pra ele: vê se isso é gente!
Ele me olhou penalizado, me deu um cascudo que afundou a minha moleira e retomou a conversa.
- A senhora não sabe que maltratar animal é crime?
- Mas ele não é um animal. É só um coisa. E Tonho de Lisboa é só um nome.
A maioria dos Tonhos de Lisboa se suicida antes de completar os quinze anos.
- Sei disso. Foi por isso mesmo que dei esse nome a ele.
- E papai, o que diz?
- Toda vez que olha pro moleque, ele diz: “Se tivesse nascido mais feio podia matar que era monstro”. Satisfeito?
- Não. O moleque ainda tem jeito. Vou falar com Maricas Coxeba.
Assim falou Zaratustra. Não sei o que ele fez para convencer a escrivã a mudar o meu nome, só sei que, graças a ela, consegui me livrar de ser um Tonho de Lisboa e transpor a adolescência sem a vontade de me matar.


De pai pra filho


Um momento de ternura entre pai e filho que não se repetirá mais. Certa vez perguntei ao meu pai o que ele falava nesse instante. Ele me disse:
- Falei ao seu irmão: "Meu filho, que bom que você se tornou alguém na vida!"
- E o que ele respondeu? - perguntei.
- Ele me respondeu: "Devo tudo isso ao meu irmão Toninho. Se não fosse ele, eu não seria ninguém". Como assim?, perguntei, surpreso. E ele me disse: "Papai, toda vez que olhava para aquele moleque correndo atrás das cabras, eu dizia a mim mesmo: quero ser qualquer coisa na vida, menos igual a esse coisa ruim!"

De pai pra filho.

Ele dizia:
"Um homem sem seu chapéu
É um homem sem cabeça.
Um homem com seu chapéu,
É simplesmente um homem."

Não necessariamente assim.
Mas era como se fosse.
Nem ia mais à missa
Apesar de toda a devoção,
Porque na igreja era obrigado
A entrar sem seu chapéu.

Foto do dia do lançamento do livro "O cachorro e o lobo", de Antonio Torres, na Fundação Jorge Amado (Pelourinho), em 1997.