sexta-feira, 12 de julho de 2019

O quadrado dos catetos matrimoniais


A minha prima ia se casar com um cara imbecil. Não, imbecil é pouco: uma besta ao cubo. Ou melhor dizendo: um imbecil que se orgulhava de ser uma besta ao cubo. Isso me tornaria primo por osmose de um imbecil que se orgulhava de ser uma besta ao cubo.

Um dia essa minha prima acordou azoretada porque descobriu que as minhocas que ela cultivava no quintal possuíam mais cérebro do que aquele que ela teria que jurar amor e fidelidade até a morte os separar. E se a morte tardasse a chegar? Chorou horrores e sentiu comiseração de si mesma. O tiro de misericórdia aconteceu quando ela pesquisava no Google e descobriu que ele fazia parte do MBL.

- Tudo, menos isso! Em filhinha que mamãe beijou, coxinha não põe a sua mão de anta! – confidenciou à sua melhor amiga, decidida a pôr um ponto final no namoro.
Quando ela me ligou para me avisar do fim do romance, confesso que dei pulos de alegria. Não teria mais um primo imbecil que se orgulhava de ser uma besta ao cubo e ainda por cima fã de carteirinha de Kim Kataguiri. E então eu disse a ele, como consolo:
- A minha prima foi quem perdeu a oportunidade de ter um marido com um QI igual ao QI de um vagão de trem!

Por ser uma besta quadrada, me agradeceu emocionado e me convidou para irmos ao boteco da esquina. Como não bebo, usei essa desculpa para declinar de sua companhia. Depois do resultado da eleição presidencial no ano passado, sou levado a crer que a burrice é por demais contagiosa.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Dia dos namorados modernoso

Dia dos namorados modernoso
- Noooossa, amiga! Arrasou! Pra onde você vai assim tão chiquérrima?
- Para um motel. Afinal, hoje é dia dos namorados.
- Quem é o sortudo? Nem me apresentou!
- Está aqui na bolsa. É o vibrador!

domingo, 9 de junho de 2019

Quem é você na fila do pão?

Mônica Cordeiro.

Na onda do “disk food”, a qualquer hora, de todos os preços e para todos os gostos, prefiro uma padaria. Padaria é uma espécie de templo sagrado do alimento, aqui no interior de Minas. Você se vê num paraíso e cai de joelhos. Tem rosca rainha soberana pra servir, pão sovado com açúcar, pão de mel, pão de queijo, bolo caçarola, de aipim, de cenoura e o mais cotado, pãozinho francês. 

Na fila estava, à espera do atendimento quando, de repente, entra uma figura inusitada, conhecida na cidade pelos exageros estéticos (desde a roupa até o botox), e vai direto ao encontro de uma pessoa que estava também aguardando o atendimento e ralha:

- Quem é você na fila do pão, garota cibernética? Se enxerga! Pra cima de mim não porque nem sou trepadeira. Descola da minha retina, cajuru desbotado! Tem amor à vida não? Lambisgoia. Vem que vou te triturar no mixer. Pensa que todo mundo é poste, sua barata com inseticida estragado, sinto o cheiro de longe, dar energia não é pra qualquer um. Urubu urbano com pé de pomba.

Foi engraçado. A criatividade ali era mato. Olhei para ela como quem esperasse o próximo passo. Parecia não ter fim aquele vocabulário inusitado. Mas ela foi mais longe, descreveu a fila do pão, literalmente:

- Diz aí aprendiz de super poderosa, hamster de laboratório insana, troglodita de asfalto quente, eu rodo as Havaianas sem nenhum pudor, filha. Responde logo, salafrária, quem é você na fila do pão:
* A mãe apressada com o filho encapetado que cutuca todo cliente e derruba os produtos no chão, além de enfiar as mãos no reservatório e ficar testando qual o francês mais torradinho de casca?
*As fofoqueiras que ficam contando histórias do trabalho na padaria enquanto esperam, esperam? Uma vai pra comprar e a outra pra pular corda com a língua;
*Tu tá com cara de idiota apressada que vê a fila grande espertinha pergunta: você está na fila? - Não florzinha! Estou um fila. Daqui a pouco te avanço. Dá vontade de responder.
*Tu é a última apressada, xingando de tudo enquanto é nome, a primeira que bate-papo com a atendente e volta lá no fundo pra pegar o bolo que esqueceu?
*Tá com cara mesmo é daquela que esqueceu o dinheiro em casa e pede pra anotar, e não volta nunca mais, piriguete!
*Bem certo que também é aquela que diz que vai esperar a próxima fornada só pra ver o padeiro “queimar à rosca”;
* A doninha linda do cabelo branco aveludado, tão terna e macia quanto a broa de canjica tu não vai ser nunca! 
* Bem, o policial militar que fila o café pra fazer segurança seria uma boa pedida pra você.

A figura estava possessa, a fila inerte até que, depois de um minuto de silêncio ela vira pra moça e diz: Quer saber filhote de cruz credo, você não é ninguém na fila do pão. Aliás, na fila do pão todo mundo é igual. Não vou perder tempo com pão com margarina querendo ser pão com manteiga. Tu vai pagar bichinha! E nem vou precisar cobrar. Santinha do pau oco. Sonho fake de padaria. 

E saiu como quem tivesse se libertado de um peso ao dizer tudo aquilo. Óculos escuro na face, bolsa do lado, salto alto e um desfile de elegância na padaria embalada pelo cheiro inconfundível de pão assado. Na fila, o zum zum zum dava tom e um cliente alertou quando a vítima saiu, engomada:

- Viu o que acontece quando mexe em gaveta alheia? Calçou a meia, vestiu a cueca e camisa e dormiu na cama quente que é lugar pra chorar depois dessa. Ela chegou de surpresa da viagem ao Chile e deu de cara com essa zinha aí na sua cama. Até foi delicada nos nomes rogados. Pior mesmo foi o marido, ontem a polícia foi chamada para prestar socorro e hoje na capa do correio da cidade: mulher tenta arrancar órgão reprodutor masculino do marido com os dentes. Adivinha quem foi?

A maioria ficou perplexa com a notícia até que um desavisado  atrás da fila gritou:

- Já saiu o biscoito de polvilho?

E a fila andou.

Mônica Cordeiro é escritora mineira e sua graça e beleza literárias podem ser encontradas no link abaixo:

https://www.recantodasletras.com.br/autores/monicacordeiro

Sócrates no Oráculo de Apolo


Dizem que certa vez Sócrates foi consultar a cartomante do Oráculo de Apolo e, chegando lá, a cartomante perguntou:
- O que Sócrates sabe?
- Se eu soubesse de alguma coisa não teria vindo aqui! - respondeu rispidamente.
- Sócrates não sabe de nada porque não vai a uma barbearia. Se fosse, sabia de tudo e mais alguma coisa.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

InterRompidos

Poema em parceria com a poetisa mineira Mônica Cordeiro, que não viveu esses tempos de dor, mas conhece a História do Brasil. Obrigado, Mônica!

 


Na vivência da ternura utópica 
Acalorados sonhos e ideais indefinidos.
Quimeras de pétalas de rosas 
Ao vento...
Um estímulo:
Às lavas dos sentidos.

Ao Norte,
clarões de chumbo abreviando a vida.
Ao Sul, 
porões obscuros e choros incontritos.
Ao Centro, 
mãos metafóricas arrancando o grito,
de pálidos rostos e corações aflitos:
- Liberdade!

Nas pontas de lâminas de aço
Vozes sufocadas
Ressurgiram tenazes
Num grito contra a ditadura.
Na multidão,
cerrando os punhos,
Bradando a liberdade 
sem perder sua ternura, ela...

- Hola, mi comandante! - disseste em serena delicadeza.
Abraçou-o ternamente, beijou seus lábios, sorriu.
Ensarilhou ele, as armas naquele infinito instante...
Entre gás de choro, gritos de guerra e dor, ela sumiu.
...

No ardor da batalha travada
Entre bombas e dentes caninos
Foi arrastada para o porão.
Não sentia os braços nem pernas.
Mãos deslizavam nas costas
Delineando as curvas do corpo trêmulo
Os calos arranhavam de modo conjunto
Em toques grosseiros, à força
A resistência era fruto do imaginário
Pois o corpo estava exangue.
Padecia no purgatório entre armas.
Os calibres formavam molduras
Lado a lado empilhados.
Numa sala escura, gotas de água gelada,
Homens de calças arriadas
E sangue!

Corpos violados sob o comando de vozes arbitrárias 
Um sussurro disfarçado 
E o ódio era o bálsamo derramado
Nas entranhas, de forma brutal,
Em movimentos de vai e vem
Sobrepostos por movimentos de entrada e saída.

O suor na pele,
Saliva e cuspe lançados na face,
O olhar de dominação.

Os restos de dor espalhados
Em lágrimas discretas
Sem som...

Silêncio mortal
Na Comissão da Verdade.
Era chegado o fim de sua procura:
As fotos espalhadas em diversos ângulos...
O pau de arara...
A retirada do capuz como oferta de insegurança... 
A tortura, o estupro,
A morte como redenção.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Treze de Maio

Treze de maio, mês das noivas, mês de Maria. Lá no Junco das minhas recordações era mês de se comer e beber refrigerante de graça nos casamentos que pululavam. Não que fosse convidado. Não. Ninguém convidava pirralho pros comes e bebes. Nosso trunfo era Jesus de Enoque - que Deus o tenha em bom lugar. Ele era coroinha e sabia de todos casamentos e batizados que aconteceriam na igreja.
Os casamentos de lá não tinham luxo. E a cidade só tinha luz até às vinte e duas horas. Acabava a cerimônia e os noivos caminhavam em cortejo até a casa onde haveria a recepção. Para nós, os moleques de rua, era fácil fazer cara de bom moço e se passar por filho de algum convidado.
Maio também era mês de trezena a Nossa Senhora de Fátima. No dia treze era o auge, e a igreja lotava. Maria de Venança, a soprano, e tia Naná, contralto, puxavam o coro das centenas de timbres e tessituras das vozes masculinas e femininas cantando "A treze de maio na cova da Iria..." e de repente um moleque interrompia:
- O que é Iria, mamãe?
- Cala a boca, filho do Cão! Vai levar um cascudo!
O moço da frente, penalizado, senhor simples, da roça, chapéu de palha na mão, explicava baixinho para não atrapalhar o hino:
- Iria é como se uma pessoa fosse e não fosse, entendeu?
- E a cova?
- É porque Jesus quando morreu iria pra cova, mas colocaram ele numa gruta porque se Ele tivesse sido enterrado não poderia ressuscitar.
E assim, aquele povo temente a Deus e devoto de Nossa Senhora do Amparo, preenchia de sonoridade o silêncio assustador da noite de Fátima no sertão.
E hoje ainda ecoam nos meus tímpanos e na minha alma aquelas vozes sincronicamente melódicas a cantar louvores de fé e esperança numa boa colheita, pois era da terra que eles tiravam o seu parco sustento.

domingo, 7 de abril de 2019

De irmão para irmão

Eram dois irmãos. Um, cuidava da roça; o outro, de tirar petróleo das profundezas terrestres. Um dia se associaram: iriam plantar feijão. Um, dava a terra; o outro, as sementes e o custeio. E no dia aprazado para a colheita, o petroleiro alugou um caminhão para transportar a parte que lhe cabia. Ao chegar na roça, uma surpresa: o gado do vizinho invadiu a plantação e destruiu a sua parte, informou o seu irmão.

terça-feira, 12 de março de 2019

Aos que ousaram desafiar as baionetas caladas

Não fomos à luta por desarmonia de sentimentos ordinários. Nem fizemos acontecer por amor a correntes políticas de ocasião. Não colocamos a cabeça a prêmio por amor à ideologia canalha. Fizemos pela nossa alma dilacerada. E, principalmente, fizemos porque o instante exigia.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Quer namorar comigo? (II)

Quer namorar comigo? era a pergunta mais difícil de se fazer e a mais fácil de se responder, mas as garotas faziam beicinhos, charminho, e em vez de um sim ou não, preferiam outra pergunta:
- Posso responder daqui a cinco dias? É que vou pensar.
E pensava, pensava, os cinco dias pareciam cinco séculos, e no sexto a resposta tão ansiosamente esperada:
- Posso pensar mais um pouco?
E quando vinha um sim, o mundo desabava em felicidade. Primeiro pegava timidamente na mão. Depois dava um abraço. E quando tudo caminhava para a normalidade de um romance, ela sentenciava:
- Beijo só depois que você pedir ao meu pai para namorar na porta!
Deus do Céu, que tortura! Mil vezes o pau-de-arara aplicado pela ditadura!
- É pegar ou largar! Não sou moça de namorar na rua pra ficar falada.
- Eu pego!
E lá vai o Romeu numa noite de sábado falar com o inquisidor. Pernas bambas, lábios ressabiados, coração acelerado.
- Então, o que o senhor pretende para a minha filha?
Não pretendo nada, só dar uns amassos. Ainda nem fiz dezoito anos. Será que esse coroa nunca foi adolescente?
- Eu pretendo me casar com ela quando me formar.
- Está bem. Mas não deixe de estudar pra ficar namorando.
Vencido uma etapa, beijos de boca, beijos de língua, nascia o desejo de ir avante. Pegar nos seios da namorada era o suprassumo da masculinidade. Eram os famosos amassos. Sem eles, namoro nenhum tinha credibilidade
- Nos seios não, benzinho! Só depois de casar.
Ele não iria esperar tanto tempo.  Insistia todo santo dia, até que numa noite de lua cheia ela aquiesceu:
- Está bem, eu deixo, mas só e somente só se você me prometer de que não vai contar pra ninguém.
- Ah! Então não quero!
- Por que não, meu amor?
- Porque contar pros amigos é o mais gostoso.

Quer namorar comigo?

Já que existe a probabilidade de retornamos aos tempos medievais, há coisas do século passado que adoraria que o Coiso trouxesse de volta para que os coxinhas solteiros sentissem na pele a ditadura das garotas sobre os garotos na hora da paquera. Nada de peguete ou ficante, piriguete ou santinha do pau oco, muito menos sirigaitice. Nada de se ir ao cinema sem levar à tiracolo o irmão pirralho da pretendente. Na roda gigante, cada um na lateral e o pirralho no meio (isso quando a mãe tinha medo de altura) chupando algodão doce. E nada ainda estava certo. Era só distrações para engabelar a garota enquanto a resposta de uma proposta feita dias antes não chegava.
- Quer namorar comigo?
- Não sei... Posso pensar um pouco?
- Quanto tempo?
- Cinco dias.
E o domingo no parque era o quinto dia aprazado para o sim ou o não, duas palavrinhas com o poder de transformar ou destruir o mundo. E a garota era a única com a chave das ilusões. No raro momento de "enfim sós", hora de tirar a prova dos nove:
- E aí, pensou na resposta?
- Que resposta?
- Se quer namorar comigo.
- Ah! Nem tive tempo de pensar! Posso lhe responder daqui a dez dias?
Que fazer!? Enquanto há vida, há esperança. Pior deve ser na guerra. Enquanto isso, a roda gigante sobe e desce em trajetória circular tal qual a Terra em rotação. Quando para no alto, o Diabo se apodera dos desejos, mas falta coragem para jogar o pirralho no vazio. O pretendente olha a mocinha com olhar de peixe morto, apelativo, e suspira resignado. Sente vontade de beijá-la, tirar o vermelho da maçã do amor manchando os lábios, mas o pirralho tá no meio comendo algodão doce, atrapalhando o romance. A roda gigante para, eles descem, os pais da garota aparecem e ele vai para casa dormir sem saber a resposta. É dia de Reis e no outro dia o parque estará desmontado e seguindo viagem na direção dos sonhos. E com muita sorte, no natal seguinte, a garota já terá a resposta.

Menino que fui menina

Quando eu estava para vir ao mundo, a minha mãe quis que eu nascesse igual a Jesus Cristo. Na hora do parto mandou chamar a parteira Tindole e correu para o curral. E assim, conforme as Sagradas Escrituras, o meu berço foi uma manjedoura, que lá no Junco era conhecida como "coxo". Como não havia roupa de príncipe para me vestir, ela me cobriu com uma toalha vermelha comprada na quermesse do Natal para ajudar nas obras da igreja. Quando comecei a caminhar com as próprias pernas (perdoem o pleonasmo, pois, afora os seguidores do Cramulhão, todo mundo caminha com as próprias pernas, por isso se faz necessário reforçar a ideia para não me confundirem com os sem pernas) a minha mãe me olhou carinhosamente, me abraçou chorando e disse:
- Vai, meu filho, ser guache na vida!
E eis-me aqui, séculos depois, refletindo sobre o poder alucinógeno do chá da goiabeira e da capacidade de destruição do cérebro dos seguidores desse que não se deve falar o nome. São tão ignorantes que não sabem que acabar com a ideologia de gênero é justamente destruir esse conceito arcaico de que menino veste azul e menina veste rosa. Acabar com ideologia de gênero é pôr a pique essa história de que menino brinca de bola e menina de boneca.
E viva Marta, a rainha do futebol!

Eu vi Jesus

Hoje eu vi Jesus. É difícil de acreditar, mas vi Jesus de Nazaré. Por coincidência, ele estava encostado em um pé de goiabeira, comendo umas goiabas amarelinhas e que pareciam saborosas, pois Jesus não parava de comê-las. Satisfação total. Até babava e lambia os beiços. Fiquei compenetrado, em êxtase, ao vê-lo na minha frente em carne e osso. Parei o carro, desci e me ajoelhei aos seus pés em súplica de milagre:

- Jesus, pelo amor do pai e do espírito santo, atende a um pedido meu! 

Ele me olhou com estranheza e me falou com uma voz de pai ralhando com o filho:

- Nem meio pedido! A borracharia já fechou e agora eu não conserto furo de pneu de senhor ninguém! Logo ali na frente tem outra, vá lá e me deixe comer minhas goiabas sossegado.

Quer saber? Nunca confie na solidariedade de borracheiro de Nazaré das Farinhas.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Como descobrir se é amor o que você sente


         Se ao sentar à mesa com o seu namorado o seu olhar de peixe morto lacrimejar de emoção, seu coração acelerar em ritmo de samba do crioulo doido na terça-feira de carnaval, seu estômago revirar como nau desgovernada em tempestade em alto-mar, suas pernas fraquejarem em firmeza do andar de bêbado... sorria! Isso que você sente não é amor. Isso é o Sazon apimentado que sua sogra colocou na comida. Mas se depois que a SAMU chegar e lhe levar para o pronto-socorro superlotado e lhe deixar por engano numa unidade de doenças infecciosas, você continuar achando que ela ainda é a melhor sogra do mundo, aí, sim, podemos dizer com toda a certeza de que isso que você sente NÃO é amor. É loucura. E você precisa urgentemente pedir transferência para o setor de psiquiatria.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Deixa que eu pago!

Queixava-se do assédio ou cobranças sem a contrapartida. Nenhum homem lhe perguntava quando vencia sua conta de luz ou outra conta qualquer. Exigiam, exigiam sem nenhum retorno. No dia de Ação de Graças um milagre aconteceu:

- Quando vence seu condomínio, gata?


Aleluia! Finalmente apareceu o homem da sua vida! Agora era fazer charminho e marcar a data do casamento.


- No dia quinze, amore. Por quê?
- Nada. Então só venho lhe ver depois do dia dezesseis.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Então é Natal


Não gosto de Papai Noel. Nem do jingolbéu. Os sinos da minha infância faziam ding-dong. Ding era o repique, dizia o sineiro aos meninos amarelos de pés descalços. Na véspera do Natal o galo cantava e o sino fazia bléim, bléim e o padre chegava na porta da igreja e anunciava:

- Cristo nasceu!
- Aonde?
- Em Belém.
- E onde fica isso?
- No Pará.
- E onde fica o Pará?
- No cu da sua mãe!
- No seu! E perdeu o dízimo!

E o povo seguia em procissão para ver a lapinha de tia Pureza, tão pura quanto o nome, e a todos recebia com um largo sorriso no rosto. Era a única lapinha que merecia ser visitada. Não porque as outras não prestassem, não era nada disso. É porque não havia outras. O povo não era chegado a certas tradições consumistas. O Natal era só um motivo para se ir à missa do galo. Enquanto isso, os solteiros se divertiam na paquera num parque mambembe que sempre aparecia.

Quando o sino tocava três vezes era hora de se ir à missa. O padre aproveitava o momento fraterno para contar o nascimento de Jesus numa manjedoura e a matança que Herodes promoveu. O povo chorava penalizado das criancinhas passadas a facão, mas logo esquecia quando os Reis Magos chegavam com presentes. Presente é presente, mesmo não servindo para nada, como era o caso da mirra e do incenso.  Essa era a parte que o padre mais gostava de contar porque comovia os fiéis e eles não mediam sacrifícios na hora de colaborar com o enxoval do menino santo. E foi num momento assim que o padre se empolgou e revelou um dos mistérios de Deus:

- Imaginem que castigo para uma criança ter que nascer num coxo de se colocar comida pra cavalo.
- Coxo?
- Sim. Coxo. Manjedoura é coxo.
- Que padre mentiroso da gota serena! O rei dos reis ia nascer num coxo?! O senhor é um herege, um comunista! Quem nasceu num coxo foi a sua mãe! E me dê meu dinheiro de volta que não vou ficar num conluio com comunista numa noite de Natal!

Estava formada a confusão. O sacristão, que tinha a mesma cara do padre, não gostou da ofensa à mãe do sacerdote e meteu o castiçal na cabeça da ovelha rebelde, que caiu desacordada e jorrando sangue. O delegado, que estava na missa, deu voz de prisão ao sacristão, o padre não gostou e chamou o delegado de “chumbeta de Belzebu”. Sem alternativa, o delegado levou o padre também preso, por desacato à autoridade. A minha mãe, que a tudo assistia horrorizada, fez pelo-sinal, me pegou nos braços, me fez entrar na Rural da Prefeitura e me levou para a emergência médica antes que eu tivesse uma hemorragia.