A vida é um vai-e-vem constante Como o pêndulo de um relógio No seu vagar pra lá e pra cá. Se os ponteiros modificam A cadência do Tempo, O seu eixo continua firme A girar sobre si mesmo. Nada lhe modifica o ritmo Nem a sua maneira de ser, Até mesmo a poesia Desistiu de lhe seduzir. Amiga, Tudo nasceu para ter o seu fim Desde quando massacraram todas
as flores Todas as verdades, todas as
esperanças. Todo sorriso é um falso sorriso Quando se apaga no último
cigarro (que ainda está por ser aceso) A última brasa da paixão. Amiga, Esperei por longas noites Notícias que nunca vieram Cartas que nunca chegaram... O carteiro passa por mim
indiferente Como se nunca tivesse me visto. Porém a vida é como o pêndulo do
relógio Que, movendo as engrenagens do
Tempo, Nos arrasta para o ápice da
paixão. Quem sabe se não posso te
encontrar um dia A vagar na última volta dos
segundos?
Em 1501 a expedição do
navegador Gonçalo Coelho, em mapeamento do achado de Cabral, sob o comando
cartográfico de Américo Vespúcio, parou ao pé da Ladeira da Montanha para
trocar o óleo e depois provar do tira-gosto de lambreta no Mercado Modelo, cuja
fama do poder afrodisíaco desse marisco singrou os sete mares. Entre um copo de
Januária e outro, um velho marinheiro, mascando fumo de Arapiraca, perguntou a
uma das inúmeras mulheres suspeitas do Meia Três, então o brega mais famoso de
Salvador, que ainda não se chamava Salvador nem era a capital da Bahia e nem
existia no Google Maps nem no Wikipedia:
- Como é o nome dessa baía?
- Ô, meu rei, eu não sei não.
Acho que não tem nome não. A gente chama só de Mar Grande.
Américo Vespúcio se interessou
pela conversa:
- Que porra é essa?! Um lugar
tão bonito e não tem nome? - foi uma "porra" histórica que até hoje
ecoa nas bocas sujas baianas.
- É que a gente cansou de dar
nome às coisas e depois os vereadores vêm e colocam nomes de políticos ou então
dos seus parentes! - respondeu a dona do bordel.
- Então, já que não tem nome,
dá-lo-ei em nome del-rey: que dia é hoje do mês? - perguntou ao velho
marinheiro que acabara de lacrimejar e tossir por causa do molho de pimenta
malagueta.
- Primeiro de novembro.
- Então chamar-se-á Baía de
Todos os Santos.
- Baêêêêa, minha porra! –
gritaram os nativos e cantaram o hino do Bahia que ia ser composto cinco
séculos depois. Por isso que tem aquele verso que diz “ninguém nos vence em
vibração”.
Um dia um hippie me ofereceu um morrão fumegante e eu, cheio de vontade e medo, mais que depressa disse "não". A nicotina do pecado corroía as minhas entranhas em fumaça do Hollywood King Size Filter. A Souza Cruz era a minha salvação.
Hoje, pulmão enfisêmico (nem sei se existe essa palavra), coração pela hora da morte, fígado cirrótico, o baço perdeu a utilidade feito cabaço de rapariga, e o médico ainda tira sarro:
- Você devia ter fumado capim seco!
E agora, com cara de Maria Madalena Arrependida, corro o mundo atrás do hippie e não encontro nenhum vestígio. Nas minhas andanças em busca de algum sinal de fumaça, outro médico me anima:
- Agora não adianta mais. Você já morreu e se esqueceram de lhe avisar.
- Eu sei. Foi por isso que deixei a consulta fiado.
- Não entendi.
- Como o senhor é muquirana, vai fazer de tudo pra me ressuscitar!
Cume da memória 2
No cume da minha memória destroçada pelo tempo,
eu abafei meu grito preso na garganta profana.
Sinto os acordes da guitarra baiana
rasgando a finitude das confluências das Avenidas
escorrendo o metálico som pelo seu leito.
O pierrô se perde nas águas do capeta
e se enrosca nas coxas das foliãs mundanas.
Ah, colombina, como te amei nas noites devassas,
Para te perder nas penitências das manhãs de cinza!
No alongar do tempo de esquecimentos e lembranças,
enrolado nas serpentinas de nossas tranças,
Eu fui para você um confete feliz...
Pena que você não me quis.
Onde as serras represavam sonhos
E a liberdade batia asas.
Onde está o meu pai agora
Para me contar uma história
E me pôr na cama ao dormir na mesa
Depois de café moído a prosa?
João! Raimundo! Décio!
Acordem para rezar a ladainha
De Nossa Senhora e outros santos!
Kyrie Eleison!
Nininho, encangue os bois
E as meninas façam o café!
Hoje é dia santo,
Hoje é dia de São José!
"E o Anjo do Senhor, em tanta agonia,
veio anunciar-lhe a grande alegria.
Fala o Anjo Santo: Que fazes, José?"
A barra do dia avermelhou
É o sinal de Nosso Senhor:
Preparem a terra para o plantio.
Este ano a safra será boa!
E eu, menino de pés descalços,
Brincando na lama do terreiro:
Limpo de alma, sujo por inteiro.
Vai pegar defruço, menino!
Não peguei defruço,
Mas a safra foi boa.
Hoje não existe mais terreiro;
Meu pai se foi, minha mãe resiste.
Meus irmãos perderam-se pelo mundo
Em busca de água de moringa e de sombra.
Os amigos dissolveram-se nas estações
De um tempo que resiste ao Tempo.
E a liberdade além das serras
Debilitou-se na minha agonia.
Os meus sonhos foram enterrados
ao lado do meu umbigo utópico
No solo sagrado do curral,
Debaixo de sete palmos
Do esterco das vacas profanas
E da lama do leite do terreiro
Que me acolhia nos dias de chuva
E me aquecia nas noites de Verão.
Tom Torres
No meu primeiro contato com Marina Colassanti, eu eu me identifiquei como "Tõe d'Irineu", o que me valeu uma bronca do meu irmão:
- Isso é nome pra você se identificar com uma escritora como a Marina, seu cabra de peia! Você não disse a ela que era meu irmão, né, seu fio dum cabrunco?!
- Calma, irmão! Ela gostou tanto que fez até um poema com meu nome
- Fez?! E o que ela disse?
- Que era o nome mais bonito que ouvira. Além de melódico. Musiquei, até
Conversando com Marina
Que beleza teria a noite sem as estrelas
e dos sonhos sem a aurora no seu despertar?
Se a manhã vazia apenas chorar pudesse,
Pelo rio seco sem a força do seu transbordar,
O que sobraria além do véu que entristece?
Na ausência do sentido, o que nos restaria?
O homem, só é homem, com o seu belo nome
para chamar e ser chamado de seu,
E a sombra que a sagrada luz consome
Seria radiante se chamada Tõe de Irineu.
Tom Torres
Nos meus tempos de solidão
As noites eram banhadas por solitárias estrelas,
Fogo fátuo, mula sem cabeça e zumbis.
Mal se enxergava a ponta do nariz
Roçando a pele áspera do lobisomem.
Lobo ou homem?
Meu primo Assis não temia (nem tremia)
Do lobo ou do homem, mas corria do aglutinado
Até passou a noite de cócoras, no mato,
Esperando o fogo fátuo passar.
Suas lendas e seus temores!
Quando a aurora se fez, o fogo fátuo
Transformou-se no sinalizador da torre de tevê.
Mas quem te viu e quem te vê!
As noites já não são mais feitas
De tremores e medos.
O prefeito, que nunca vira couro de lobisomem,
Subiu a Ladeira Grande em noite de breu
E ordenou aos comandados seus:
Faça-se a luz!
Uma grande luz brilhou na escuridão
E o que era invisível dia e noite,
transformou-se em uma nova constelação.
Tom Torres
Aos que se foram
sem direito a despedida
Aos que ficaram
sem poder chorar seus mortos
Aos que resistem
porque não podem desistir.
Procuro a fagulha cósmica em ecos desfeita
para acender a galáxia nos trilhos ardentes
e fazer brilhar a minha estrela cadente
nas noites solitárias dos poetas mortos.
Da memória ecoam vozes e gritos absortos
dos que vieram e se foram em trens peregrinos,
deixando marcas indiscretas de não sabido destino,
marcas que escorrem como água entre os dedos.
São lembranças provocando os nossos medos
de não mais sabê-los nem podê-los encontrar
na confluência entre céu, Terra, ressaca do mar,
Ou na tapeçaria do Tempo tramando nosso degredo
em viagem etérea em um rasante estelar.
Lançou-se na política ainda jovem, 1955, sob influência de amigos, pincipalmente de Edgard Torres, que o convenceu a se candidatar a vereador na eleição de 1956.
No ano passado, nessa mesma data, tive o prazer de lançar o livro "Judélio Carmo, o semeador de utopia", também assinado por Luiz Eudes. O livro foi idealizado por Genival Dantas e teve a colaboração voluntária de Juracy Silva, na assessoria jurídica, e de Marco Antunes, na revisão da história política de Alagoinhas. Colaboraram, também, Belmiro Deusdete e Pedro Marcelino.
TRIBUTO A JUDÉLIO CARMO
Tom Torres
Não vim ao mundo para lustrar egos de vaidosos,
Nem cultivar o nós que nos cega e divide;
Vim para construir os "eus" que transformam
E despertam os íntimos sonhos adormecidos,
Pois nem a Quimera com seu corpo incongruente
Intimida a Utopia que nos cativa e que nos une.
Não serei importante diante da legião de humildes,
Nem humilde ante a arrogância tóxica dos importantes.
Serei o farol dos que juntos constroem sonhos,
Na certeza de que só a utopia nos cativa e nos une.
Um dia, antes dos bolsominions se apoderarem da camisa da CBF, fui ver um jogo da seleção brasileira na casa do meu irmão Raimundo, quando ele morava em Alagoinhas. Era a Copa do Mundo em um ano qualquer. Aconteceu do jogo ir pros pênaltis. Na hora da cobrança, ele se trancou no banheiro e gritou para sua cara-metade, que fazia as unhas no sofá da sala:
- E aí, já cobrou?
- Já.
- Foi gol?
- Foi.
- De quem?
- Sei lá! De um time aí. Acho que foi dos japoneses.
No São João passado, arrumei as malas para ir ver a grande
performance de Eddy Luem no arraial joanino de Sátiro Dias, Bahia. Ele iria se
apresentar antes de Flávio Leandro, o grande forrozeiro de Petrolina,
encerrando os festejos juninos.
Conheci Eddy Luem em outra ocasião, no início do século
vinte e um, em uma noite de busca-pés e rojões, na mesma cidade acima. Ele era
integrante da banda “Os Filhos da Mãe”, e, além de ser o crooner, ele, também,
foi produtor.
Eddy é um músico versátil, sem contar que ele é também um
excelente compositor. Dirigi um filme na Bahia e ele foi o responsável pela
excelência da trilha sonora (assistam ao filme no rodapé deste texto). Como se não
bastasse essa pluralidade artística, ele exerce a profissão de radiocomunicador,
em São Paulo. Tem formação acadêmica em Comunicação, transita pelo show business,
cuja experimentação vem dos tempos de garoto das ruas empoeiradas da Bahia.
Depois que a banda Os Filhos da Mãe se apresentou em Sátiro
Dias, no raiar do século, seus componentes resolveram sair em turnê por São Paulo
e outras cidades da Região Sudeste. Finda a turnê, Eddy fincou raízes na terra
da garoa e lá vive por mais de duas décadas, animando festas de
confraternização de empresas e festas paroquiais. Antes de embarcar para Sátiro
Dias, animou as festas juninas no “Arraiá” da Paróquia São Domingos, "O
Pregador", em Osasco, São Paulo, e em Jataí, Goiás. Em Osasco, Eddy Luem
contou com a participação especial do maestro Frank Lima; em Jataí, ele fez uma
apresentação temática, cujo título foi “Eddy Luem Canta a História do Forró de
Luiz Gonzaga a Falamansa". Em ambas as cidades ele foi bastante aplaudido
e elogiado.
Era por conta de um artista desse naipe que eu iria rodar
mais de um mil quilômetros para vê-lo. Devia um mimo a ele, pois, quando estive
em São Paulo, dois anos atrás, ele foi todo solícito e, inclusive, me levou
para passar uma manhã com o padre Júlio Lancelot, o qual ele é amigo e eu um
grande admirador. O caro leitor deve estar se indagando porque, no início deste
parágrafo, eu falo no futuro do pretérito, e não, no pretérito perfeito.
Lembremos, caros amigos, nem tudo é perfeito nesta vida. Ao arrumar as malas,
Eddy me ligou, perguntando se eu já estava na estrada. Aliás, ele não, a mulher
dele. Respondi que estava me preparando para viajar. Então ela me deu a
notícia-bomba:
- Tom, se você ia só ver o Eddy, desista. Ele não vai mais.
Está afônico e tiririca de febre.
Ainda bem que desarrumar mala é mais rápido do que arrumar.