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quarta-feira, 22 de julho de 2020

De pai pra filho


Um momento de ternura entre pai e filho que não se repetirá mais. Certa vez perguntei ao meu pai o que ele falava nesse instante. Ele me disse:
- Falei ao seu irmão: "Meu filho, que bom que você se tornou alguém na vida!"
- E o que ele respondeu? - perguntei.
- Ele me respondeu: "Devo tudo isso ao meu irmão Toninho. Se não fosse ele, eu não seria ninguém". Como assim?, perguntei, surpreso. E ele me disse: "Papai, toda vez que olhava para aquele moleque correndo atrás das cabras, eu dizia a mim mesmo: quero ser qualquer coisa na vida, menos igual a esse coisa ruim!"

De pai pra filho.

Ele dizia:
"Um homem sem seu chapéu
É um homem sem cabeça.
Um homem com seu chapéu,
É simplesmente um homem."

Não necessariamente assim.
Mas era como se fosse.
Nem ia mais à missa
Apesar de toda a devoção,
Porque na igreja era obrigado
A entrar sem seu chapéu.

Foto do dia do lançamento do livro "O cachorro e o lobo", de Antonio Torres, na Fundação Jorge Amado (Pelourinho), em 1997.


domingo, 29 de março de 2020

CANTO DO POVO DE UM LUGAR

Uma homenagem aos caboclos da minha terra, em especial a Luiz Eudes, Barrabaz Thrasher, Jorge França e Arizio Torres, com o carinho de sempre.


A borboleta abre as asas em longo voo solitário e pousa no alto do Cruzeiro dos Montes onde assiste ao mais belo e melancólico pôr-do-sol sobre a Terra. O céu cede lentamente o seu brilhante e suave azul-anil à vermelhidão do crepúsculo e todo o horizonte se tinge de carmim até o instante em que a escuridão silenciosa abraça o Infinito e liberta os fantasmas prisioneiros do imaginário popular.

Pirilampos solidários emprestam suas lanternas faiscantes aos andarilhos errantes e fachos tremeluzentes misturam-se ao brilho cintilante das estrelas, diluindo a solidez do breu noturno, aprisionando os zumbis desgarrados de suas falanges e que teimam em atormentar a existência dos viventes notívagos, sugando sua alma pelos ouvidos e devolvendo-a a cada amanhecer, dizem os mais velhos fazendo o sinal da cruz.

Assim, não apenas nasce um novo dia, como também se renova o espírito de um povo que não conhece e nem faz distinção entre as quatro estações, mas que sabe do início da Primavera pelo pouso melancólico da borboleta no Cruzeiro dos Montes.

E então o vaqueiro errante mergulha nas águas ermas das noites de setembro e traz à tona a sua alma inebriada nos vapores trágicos da paixão e a triste constatação de que a roda do Tempo é acionada pela energia dos sentimentos e que o futuro é um mero conceito diluído na presença da mulher amada; sem ela, a Primavera é apenas o prenúncio do Verão e das grandes catástrofes que atormentam e destroem a alma humana.

E a Primavera do sertanejo começa, inexoravelmente, em uma noite de setembro quando as primeiras gotas de orvalho caem sobre o tapete de folhas mortas forrando o caminho em direção do coração de uma mulher.


domingo, 8 de março de 2020

Eva ou Raimunda?


Mulheres da minha vida, feliz dia das mulheres! Feliz dia de protestos nas ruas e soltem o grito preso na garganta. Libertem a graciosa e delicada beleza sem medo de serem felizes. Minha homenagem na voz da doce e bela amiga Ana Cristina.
Eva ou Raimunda?

Às vezes se sentem lindas
Às vezes se sentem um trapo
Às vezes se sentem desejadas
Às vezes desejam
Às vezes rejeitam
Muitas "às vezes"
Muitas em uma
Mas querem os horizontes inimagináveis
A sinceridade? Sei bem que alguns não gostam da verdade,
não falo isso para te magoar,
o fato é que não gosto de enganar.
Não quero que as pessoas me detestem
Mas quero pelo menos que elas prestem
Atenção naquilo que as tornam de mais ou não.
Só quero o teu desejo encostadinho assim no meu
Que todos os desejos se confundam meus e teus
Pra gente embarcar nessa paixão.


ão.

terça-feira, 12 de março de 2019

Aos que ousaram desafiar as baionetas caladas

Não fomos à luta por desarmonia de sentimentos ordinários. Nem fizemos acontecer por amor a correntes políticas de ocasião. Não colocamos a cabeça a prêmio por amor à ideologia canalha. Fizemos pela nossa alma dilacerada. E, principalmente, fizemos porque o instante exigia.

sábado, 8 de outubro de 2016

Tente outra vez

Quando ele se elegeu prefeito do velho Junco, quatro anos atrás, eu gritei: Fodeu! Pensei que o Junco fosse mergulhar na Idade das Trevas. Mas, contrariando as minhas expectativas, ele se tornou um dos melhores administradores que o velho Junco já teve. Não ganhou a eleição porque o povo, acostumado a ver a terra nas páginas policiais, principalmente em fim de mandatos dos prefeitos, ficou sem esse prazer durante a administração dele. Vá entender o povo! Parabéns, Pedrito Cruz, você é um vencedor. Entrou para a história com todas as honras que um homem público merece.

sábado, 19 de julho de 2014

Dezoito anos perseverando



Nem sempre a navegação cibernética foi feita através dos sites sociais ou dos zap-zaps e seu barulhinho chato. Houve um tempo em que navegar era preciso e morrer de raiva com a lentidão do ciberespaço era o ponto perigoso da navegação chamada on-line. 

Vieram os e-mails. Os chats, sala de bate-papo digitado. Surgiram as webcams e o MSN, que se tornou popular tanto quanto o Facebook de hoje, mas que foi degolado pelo Orkut. No meio disso tudo havia os chamados e-groups, grupos de literatura onde se reuniam os intelectuais pobres de Jó, remediados e até famosos como Mario Prata. Esses grupos, às vezes, se cotizavam e criavam sites, onde seus textos podiam ser expostos ao público externo.

Havia muitos grupos bons, com gente de inegável competência intelectual, mas havia também muito culto ao próprio umbigo. Eu desfilei por vários, encrenquei com uma multidão, os sensatos me pediam tolerância, mas o meu pai não me ensinou como ser clemente com a mediocridade. Assim, arranjei bons desafetos, mas, em compensação, ganhei grandes amigos os quais conservo até hoje.

Como no universo cibernético o que é agora daqui a instantes não é mais, os e-groups foram se dissolvendo na popularização dos blogs e apenas poucos ainda resistem aos encantos da blogosfera. 
Hoje, dois desses sites resistem ao massacre dos blogs: um, o mais famoso na atualidade, chamado Recanto das Letras, um site facilitador da criação literária, onde pousam milhares de ciber-escritores, dos bons aos remediados e também os copiadores compulsivos. 

O outro, o Blocos On Line, um site que ainda abriga uma multidão de intelectuais de internautas do mundo todo. Esse site, até tempos atrás era a maior referência em literatura cibernética. Publicar nele era o sonho de todos aqueles que procuravam um estande para mostrar seus escritos. 
Capitaneado pela escritora carioca Leila Míccolis, exatamente hoje, dezenove de julho de dois mil e quatorze, o site completa dezoito anos de existência e resistência. Oxalá, possamos comemorar com pompas e circunstâncias essas quase duas décadas divulgando a boa literatura dos anônimos sem pátria e sem rei.

Parabéns, Blocos on Line, pela perseverança e desafio às modernidades cibernéticas! Vida longa ao site e aos seus moderadores!

domingo, 11 de maio de 2014

Flor Mamãe, quem se lembra?


Quem foi mãe ou foi filho nos anos 60 e início dos 70, sabe da overdose que as rádios nos davam com a voz melosa, quase chorosa, de um garoto chamado José Leão na semana do dia das mães. Sim, turma jovem, nos anos sessenta também existia o dia das mães, não com tanto consumismo assim, mas existia. As mães de antigamente adoravam ligar o rádio nas ondas médias e ouvir o garoto chorar “Flor Mamãe. 


Não me perguntem que fim levou esse garoto. Para mim, ele tinha morrido na era do CD, mas um belo dia o meu saudoso amigo Edécio Lopes chegou à minha casa com um LP do José Leão e me pediu para remasterizar em CD. Eu nem me lembrava mais da música e quando o disco começou a girar na vitrola, as lembranças afloraram e me vi garoto no meio de um coral de mães.


Edécio Lopes, radialista das antigas, precursor da era do rádio nas Alagoas, mantinha seu programa ao velho estilo da boa MPB e nas datas festivas ele gostava de fazer as suas homenagens. Era campeão de audiência. Infelizmente ficou devendo às mamães antigas a recordação dos tempos de outrora: morreu meses antes da data.


Assim, trago à baila a tal Flor Mamãe e se você for desse tempo, vai recordar; se não, vai ficar sabendo que naquela época as mães se contentavam mais com a poesia e com a música do que com as comidas gordurosas de churrascaria.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Jesus de Enoc se chamava Enoc Jesus

Jesus de Enoc, que só no seu último suspiro fiquei sabendo que era Enoc Jesus, só perdia para o meu primo Arizio Cabaú nas arrelias, porque, nas demais estripulias, era como a seleção brasileira de ontem: show de bola. Impecável em tudo que um menino dito “moleque de rua” tem que ser.

Para a minha sorte, não estudamos na mesma sala. Aliás, nem me lembro de qual sala ele era. O seu pai, o velho Enoc, vestido da importância de ser pai de uma professora e de possuir o único rádio de pilha do lugar, passava a mão na cabeça das traquinagens do filho. “Se ele era o capeta que diziam, como era que ajudava o padre nas missas, hein?”, perguntava ao reclamante.

Jesus se fez coroinha, não por vocação religiosa, mas para ganhar uns trocados e ter livre acesso ao vinho do padre, que a gente detonava escondido. Era o quinteto: ele, meus primos Paulo e Arizio, meu irmão Décio e eu. Uma vez, não tendo o que fazer, entrou no confessionário e nos botou em fila de confissão. As beatas, sem saber que era só molecagem, também entraram na fila e Jesus ficou sabendo dos mais recônditos segredos das mocinhas do lugar. E só nos contou por que o ameaçamos dizer tudo ao padre. Mas como eram segredos de confissão, não pudemos tirar proveito sem nos denunciarmos e levarmos uma surra exemplar.

Como coroinha, ele sabia o endereço das festas de batizado ou casamento, e depois da cerimônia a gente seguia o cortejo até a comilança, regada a refresco de mangaba ou refrigerante quente, que o povo chamava de “gasosa”. Uma vez ele fez uma intriga tão da gota serena entre mim e Paulo que fomos às vias de fato no meio da rua. Separados pelo meu tio Adauto, o pai de Paulo, depois de ouvirmos um sermão sem fim, ficamos sabendo que Jesus havia vendido a nossa briga para os outros moleques de rua.

Assim era o Jesus, não o nosso salvador, mas o nosso mentor em se quebrar regras e o maior responsável pelas inesquecíveis surras que levei de minha mãe. Isso durou enquanto fomos moleques de rua pelo velho Junco, correndo livre, leve e solto até que a distância nos separou. E agora, separa-nos a eternidade.

Boa viagem, companheiro! Espero que aí no Céu tenha acampamento da Petrobrás para a gente ir buscar rolimã para fazermos patinete e deitarmos e rolarmos pelas nuvens cósmicas.

domingo, 31 de março de 2013

O Anti-herói da “Revolução”



Passei a minha infância ouvindo programa musical nas rádios AM, pois as frequências moduladas só apareceram no final da década de setenta. Em minha terra existia um programa cujo fundo musical era a música “Meditação de Thaís”, de Jules Massenet. A melodia meditativa encravou em minha alma de tal maneira, que prometi dar o nome de Thaís à minha primeira filha. Aos vinte e um anos de idade, nasceu a minha primogênita e se chamaria Thaís se não fosse uma notícia de jornal, que me chamou a atenção, enquanto aguardava na fila do Cartório de Registro de Pessoas Naturais. A manchete falava de Flávia Schilling, uma brasileira sequestrada em Porto Alegre pela polícia uruguaia, com a ajuda do governo brasileiro. O Uruguai, naquela época, também era governado por militares golpistas e existia um grupo de resistência chamado “Tupamaro”. O marido da Flávia Schilling era uruguaio e fazia parte desse grupo; no entender dos militares, se o marido era, ela também era uma “tupamaro”. Que os uruguaios a levassem e fizessem bom proveito! Só que o Governo não contava com a forte reação popular desencadeada em Porto Alegre e os milicos, sob pressão, foram obrigados a trazê-la de volta. Por causa desse episódio, Massenet ficou para ser homenageado quando a próxima filha nascesse e Thaís virou Flávia em homenagem à valente guerrilheira gaúcha.

A segunda filha nasceu um ano e meio depois e Massenet seria homenageado se não fosse uma campanha publicitária clamando por justiça a Cláudia Lessin Rodrigues, uma adolescente ingênua que teve o azar de cruzar com uns mauricinhos da Zona Sul do Rio de Janeiro e acabou seus dias em um mergulho no vazio a partir do décimo andar de um prédio de um dos rapazes, depois de uma farra regada a álcool e a drogas. Foi constatado que ela havia sido atirada pelos rapazes, porém nada aconteceu aos seus algozes. E, por uma questão de solidariedade, Massenet ficou para a próxima filha, que não veio.

Maior felicidade teve o general Kival Saldanha da Cunha. Quando a sua filha nasceu, o país vivia momentos conturbados, conspirações por todos os lados, inclusive do chefe da guarda pessoal do presidente, Gregório Fortunato, que organizou um atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, líder da campanha anti-getulista, o que culminou no suicídio de Getúlio Vargas no dia 24 de agosto de 1954. O general Kival, que na época era major, colocou o nome de Thaís na sua filha, tentando encontrar um pouco de paz e meditação em Massenet.

Quando Jânio Quadros renunciou, houve forte reação dos ministros militares à posse de João Goulart, que tinha ligações com o comunismo internacional. Leonel Brizola, cunhado de Jango, organizou a resistência, tendo o apoio do III Exército, o maior exército da época, sediado em Porto Alegre, de Nei Braga, governador do Paraná, e mais uma grande parte de militares de outras regiões, que eram a favor da legalidade e queriam que a Constituição de 1946 fosse respeitada, ou seja, na vacância do cargo, o vice-presidente da República assumiria. O I Exército, sediado em São Paulo, não aceitava e deu ordens para marchar contra as forças legalmente constituídas. O então tenente-coronel Kival, comandante do 2º Batalhão de Caçadores, em São Paulo, disse não. Ele e mais outros. O comando central recuou em suas intenções belicosas, porém o comandante aquartelado foi transferido para a fronteira do Fim do Mundo com o Inferno.

No prenúncio do golpe militar de 1964, o general Kival foi obrigado a entrar para a reserva. Era um legalista e não fazia parte dos planos da alta cúpula golpista. Quando eclodiu o golpe, mesmo fora da caserna, ainda se lembrou de telegrafar para Leonel Brizola e outros de quem se lembrou, pedindo para que saíssem do país. Era o dia primeiro de abril de 1964.

Com as prisões e perseguições políticas, o general Kival, em vez de vestir seu pijama e gozar de sua aposentadoria, preferiu ter a farda sempre engomada, e as estrelas de general passaram a reluzir nas prisões e doi-codi’s da vida, à procura de gente que ele sequer conhecia e que se penalizava com a aflição dos pais que batiam à sua porta, atrás de notícias dos filhos. Morreu triste e desgostoso com a sorte daqueles que não pôde ajudar.

Portanto, neste 31 de março, tiremos o chapéu com respeito e admiração para o general Kival Saldanha da Cunha, o anti-herói da “Revolução”, ou o herói das sarjetas, o general dos desvalidos, cuja existência os militares quiseram enterrar na vala comum do esquecimento, mas se esqueceram da sua filha Thaís da Cunha, a Thaty Marcondes, para narrar sua história e perpetuar sua memória.  
 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Adeus, Maria Helena Bandeira


 O blog  está de luto. Morreu, no último dia 06, no Rio de Janeiro, a nossa amiga e colaboradora Maria Helena Bandeira, vitimada por um câncer no intestino.

A Mhel, como era carinhosamente chamada por nós, era autora de FC, mas quando eu lhe pedia um texto para o blog, ela me dizia com seu jeito doce:

- Faço qualquer coisa por você, Tom Mix. Até mesmo escrever o que não sei.

E escrevia divinamente. E, para mim, fez muito mais do que escrever. Quando a minha filha Flávia foi se aventurar pela cidade carioca, Mhel tomou conta dela como se filha fosse.

A meu pedido, ela escreveu A Saga de Catende, o inverso da arribação nordestina, um texto em sete capítulos para ser lido e devorado por quem gosta de uma boa leitura. Catende é uma cidade de Pernambuco, terra de Ascenso Ferreira, Maurício Melo e da bisavó de Mhel. A saga conta a história da mocinha que é forçada a se mudar do Rio de Janeiro para a fazenda dos avós, em Catende, um lugar onde tomar banho de cuia era considerado luxo.

Abaixo, deixo o link para os textos da agora saudosa Maria Helena Bandeira, a irlandesa com sangue nordestino correndo nas veias, que cedo nos deixou para desvendar os mistérios do Universo que tanto aguçou os seus sentidos em vida

Descanse em paz, Mhel, e obrigado pela amizade. Sentirei saudades, mas qualquer dia a gente se encontra. Flavinha lhe manda um beijo de despedida.

LINK PARA OS TEXTOS DE MARIA HELENA BANDEIRA

sábado, 26 de novembro de 2011

Amélia, a pedra no sapato no relacionamento de Mário Lago e Ataulfo Alves

Nos cem anos de Mário Lago, o pai biológico da Amélia, tão festejado pela mídia, não poderia deixar passar em brancas nuvens esse dia. Trago aos leitores do blog mais uma história de bastidores da nossa MPB, desta vez um depoimento de Ataulfo Alves, o pai adotivo da Amélia (conforme vocês verão, Mário Lago fez e Ataulfo criou), onde ele esclarece certas coisas a respeito do nascimento da mulher de verdade. Esse depoimento faz parte de um registro em LP, em 1969, de uma entrevista de Ataulfo Alves, concedida a Ilmar Carvalho, Ary Vasconcelos, Sylvio Túlio Cardoso e Ricardo Cravo Albim, no Museu da Imagem e do Som, no dia 17 de novembro de 1966. Acompanhado do seu violão, ele conta a história de sua trajetória musical e interpreta várias músicas, porém, hoje, é o centenário do seu parceiro, e não do grande compositor e sambista de Miraí, portanto, só tem o áudio da parte que ele fala de Amélia, que, apesar de ser a mulher de verdade, foi a pedra no sapato entre os dois ícones da nossa Música Popular Brasileira.

Para ouvir, basta clicar abaixo:

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

29 anos sem Adoniran

O dia de hoje não poderia passar em brancas nuvens, pois é a data de aniversário de morte de um dos ícones da Música Popular Brasileira: Adoniran Barbosa. Abaixo, um encontro antológico de Adoniran e Elis Regina, num desses “botecos” da vida, o Bar da Carmela, no Bexiga , em São Paulo, no ano de 1978. 
O cidadão sentado à esquerda da Elis, com cara de tanquense, é o grande jornalista Audálio Dantas.
Também a biografia de Adoniran condensada do site “Wikipédia”.



João Rubinato, (Valinhos, 6 de julho de 1912 — São Paulo, 23 de novembro de 1982), mais conhecido como Adoniran Barbosa, foi um compositor, cantor, humorista e ator brasileiro. Ficou conhecido nacionalmente como o pai do samba paulista.

Rubinato era filho de Ferdinando e Emma Rubinato, imigrantes italianos da localidade de Cavárzere, província de Veneza. Aos dez anos de idade, sua certidão de nascimento foi adulterada para que o ano de nascimento constasse como 1910 possibilitando que ele trabalhasse de forma legalizada: à época a idade mínima para poder trabalhar era de doze anos.

Abandonou a escola cedo, pois não gostava de estudar. Necessitava trabalhar para ajudar a família numerosa - Adoniran tinha sete irmãos. Procurando resolver seus problemas financeiros, os Rubinato viviam mudando de cidade. Moravam primeiro em Valinhos, depois Jundiaí, Santo André e finalmente São Paulo.

Em Jundiaí, Adoniran conhece seu primeiro ofício: entregador de marmitas. Aos quatorze anos, ainda criança, o encontramos rodando pelas ruas da cidade e, legitimamente, surrupiando alguns bolinhos pelo caminho. "A matemática da vida lhe dá o que a escola deixou de ensinar: uma lógica irrefutável. Se havia fome e, na marmita oito bolinhos, dois lhe saciariam a fome e seis a dos clientes; se quatro, um a três; se dois, um a um".

Tenta, antes do advento do rádio, o palco, mas é sempre rejeitado. Sem padrinhos e sem instrução adequada, o ingresso nos teatros como ator lhe é para sempre abortado. O samba, no início da carreira, tem para ele caráter acidental. Escolado pela vida, sabia que o estrelato e o bom sucesso econômico só seriam alcançados na veiculação de seu nome na caixa de ressonância popular que era o rádio.

Entrega-se ao mundo da música. Busca conquistar seu espaço como cantor – tem boa voz, poderia tentar os diversos programas de calouro. Já com o nome de Adoniran Barbosa – tomado emprestado a um companheiro de boêmia e de Luiz Barbosa, cantor de sambas, que admira – João Rubinato estreia cantando um samba brejeiro de Ismael Silva e Nilton Bastos, o Se você jurar. É gongado, mas insiste e volta novamente ao mesmo programa; agora cantando o belo samba de Noel Rosa, Filosofia, que lhe abre as portas das rádios e ao mesmo tempo serve como mote para suas composições futuras.

A vida profissional de Adoniran Barbosa se desenvolve a partir das interpretações de outros compositores. Embora a composição não o atraia muito, a primeira a ser gravada é Dona Boa, na voz de Raul Torres. Depois grava em disco Agora pode chorar, que não faz sucesso algum. Aos poucos se entrega ao papel de ator radiofônico; a criação de diversos tipos populares e a interpretação que deles faz, em programas escritos por Osvaldo Moles, fazem do sambista um homem de relativo sucesso. Embora impagáveis, esses programas não conseguem segurar por muito tempo ainda o compositor que teima em aparecer em Adoniran. Entretanto, é a partir desses programas que o grande sambista encontra a medida exata de seu talento, em que a soma das experiências vividas e da observação acurada dá ao país um dos seus maiores e mais sensíveis intérpretes.

Mas a escolha de Adoniran é outra, seu mergulho também outro. Aproveitando-se da linguagem popular paulistana – de resto do próprio país – as músicas dele são o retrato exato desta linguagem e, como a linguagem determina o próprio discurso, os tipos humanos que surgem deste discurso representam um dos painéis mais importantes da cidadania brasileira. Os despejados das favelas, os engraxates, a mulher submissa que se revolta e abandona a casa, o homem solitário, social e existencialmente solitário, estão intactos nas criações de Adoniran, no humor com que descreve as cenas do cotidiano. A tragédia da exclusão social dos sambistas se revela como a tragicômica cena de um país que subtrai de seus cidadãos a dignidade.

O seu primeiro sucesso como compositor vira canção obrigatória das rodas de samba, das casas de show: Trem das Onze. É bem possível que todo brasileiro conheça, senão a música inteira, ao menos o estribilho, que se torna intemporal. Adoniran alcança, então, o almejado sucesso que, entretanto, dura pouco e não lhe rende mais que uns minguados trocados de direitos autorais. A música, que já havia sido gravada pelo autor em 1951 e não fizera sucesso ainda, é regravada novamente pelos “Demônios da Garoa”, conjunto musical de São Paulo (esta cidade é conhecida como a terra da garoa, da neblina, daí o nome do grupo). Embora o conjunto seja paulista, a música acontece primeiramente no Rio de Janeiro. E aí sim, o sucesso é retumbante.

O primeiro casamento não dura um ano; o segundo, a vida toda: Matilde. De grande importância na vida do sambista, Matilde sabe com quem convive e não só prestigia sua carreira como o incentiva a ser quem é e como é, boêmio, incerto e em constante dificuldade. Trabalha também fora e ajuda o sambista nos momentos difíceis, que são constantes. Adoniran vive para o rádio, para a boêmia e para Matilde.

Numa de suas noitadas, de fogo, perde a chave de casa e não há outro jeito senão acordar Matilde, que se aborrece. O dia seguinte foi repleto de discussão. Mas Adoniran é compositor e dando por encerrado o episódio, compõe o samba Joga a chave.

Dono de um repertório variado de histórias, o sambista não perdia a vez de uma boa blague. Certa vez, quando trabalhava na rádio Record, onde ficou por mais de trinta anos, resolveu, após muito tempo ali, pedir um aumento. O responsável pela gravadora disse-lhe que iria estudar o aumento e que Adoniran voltasse em uma semana para saber dos resultados do estudo... quando voltou, obteve a resposta de que seu caso estava sendo estudado. As interpelações e respostas, sempre as mesmas, duraram algumas semanas... Adoniran começava se irritar e, na última entrevista, saiu-se com esta: “Tá certo, o senhor continue estudando e quando chegar a época da sua formatura me avise..”

Nos últimos anos de vida, com o enfisema avançando, e a impossibilidade de sair de casa pela noite, o sambista dedica-se a recriar alguns dos espaços mágicos que percorreu na vida. Grava algumas músicas ainda, mas com dificuldade – a respiração e o cansaço não lhe permitem muita coisa mais – dá depoimentos importantes, reavaliando sua trajetória artística. Compõe pouco.

Mas inventa para si uma pequena arte, com pedaços velhos de lata, de madeira, movidos a eletricidade. São rodas-gigantes, trens de ferro, carrosséis. Vários e pequenos objetos da ourivesaria popular – enfeites, cigarreiras, bibelôs... Fiel até o fim à sua escolha, às observações que colhe do cotidiano, cria um mundo mágico. Quando recebe alguma visita em casa, que se admira com os objetos criados pelo sambista, ouve dele que “alguns chamavam aquilo de higiene mental, mas que não passava de higiene de débil mental...” Como se vê, cultiva o humor como marca registrada. Marca aliás, que aliada à observação da linguagem e dos fatos trágicos do cotidiano, faz dele um sambista tradicional e inovador.

Adoniran Barbosa morre em 1982, aos 70 anos de idade.
Discografia

1951 - "Os mimosos colibris/Saudade da maloca" (78 rpm)
1952 - "Samba do Arnesto/Conselho de mulher" (78 rpm)
1955 - "Saudosa maloca/Samba do Arnesto" (78 rpm)
1958 - "Pra que chorar" (78 rpm)
1958 - "Pafunça/Nois não os bleque tais" (78 rpm)
1972 - "A Música Brasileira Deste Século -Adoniran Barbosa"
1974 - "Adoniran Barbosa"
1975 - "Adoniran Barbosa"
1979 - "Seu Último Show" (Ao Vivo)
1980 - "Adoniran Barbosa e Convidados"
1984 - "Documento Inédito"
2003 - "2 LPs em 1" (Re-lançamento dos LPs de 1974 e 1975)

Coletâneas

1990 - "Claudinha Do céu" (Com interpretes de suas músicas)
1996 - "MPB Compositores: Adoniran Barbosa" (Com participações e interpretes de suas músicas)
1999 - "Meus Momentos: Adoniran Barbosa"
1999 - "Raízes do Samba: Adoniran Barbosa"
2001 - "Para Sempre - Adoniran Barbosa"
2002 - "Identidade: Adoniran Barbosa"
2004 - "O Talento de: Adoniran Barbosa" (Com participações especiais)

Video

1972 - "Programa Ensaio: Adoniran Barbosa"

Principais Musicas

Malvina, 1951
Saudosa maloca, 1951
Joga a chave, 1952
Samba do Arnesto, 1953
As mariposas, 1955
Iracema, 1956
Apaga o fogo Mané, 1956
Bom-dia tristeza, 1958
Abrigo de vagabundo, 1959
No morro da Casa Verde, 1959
Prova de carinho, 1960
Tiro ao Álvaro, 1960
Luz da light, 1964
Trem das Onze, 1964
Trem das Onze com Demônios da Garoa, 1964
Aguenta a mão, 1965
Samba italiano, 1965
Tocar na banda, 1965
Pafunça, 1965
O casamento do Moacir, 1967
Mulher, patrão e cachaça, 1968
Vila Esperança, 1968
Despejo na favela, 1969
Fica mais um pouco, amor, 1975
Acende o candeeiro, 1972

Filmografia

1953 - "O Cangaceiro"
1954 - " Candinho"
1955 - "A Carrocinha"