quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Cineas Santos - O fascínio dos ipês

A jovem chegou no horário apalavrado, armada com uma minúscula geringonça eletrônica, misto de celular, gravador, máquina fotográfica e – suspeito – detector de mentiras. Suave, quase tímida, não tinha ar de xereta, ainda assim armei-me da couraça que me protege e preparei-me para a sabatina. A moça queria saber da minha errática trajetória em Teresina. Já falei tantas vezes sobre o assunto que, às vezes, sinto a compulsão de inventar novidades para dar algum colorido a uma história cinzenta, sabida e consabida. Por recomendação do editor ou zelo profissional, a repórter sabia mais de mim do que eu. Lera tudo o que se publicou a meu respeito, inclusive as futricas veiculadas na internet. Por duas ou três vezes, corrigiu-me em relação a fatos e datas. Sem maiores sacrifícios, foi compondo o perfil que lhe interessava.

Já se disse – não sem razão – que uma entrevista, qualquer entrevista, é tão verdadeira quanto uma nota de três reais. Explica-se: o entrevistado diz apenas o que, efetivamente, lhe interessa, ou seja, a “sua” verdade. Quintana, o inventor da simplicidade, recorria a um atalho poético para eximir-se de falar de si mesmo. “Toda confissão não transfigurada pela arte é indecente”, afirmava. Tinha razão. O certo é que a conversa fluiu e falamos de quase tudo. Literatura, jornalismo, educação e, principalmente, cultura.

No final da conversa, a repórter jogou o anzol: “Entre outras coisas, o senhor é coautor do Hino de Teresina. O senhor acredita que já entrou para a história?”. Confesso que por essa eu não esperava. “Entrar para a história”? Lembrei-me da uma anedota que o poeta Dobal costumava contar. Segundo ele, logo após o suicídio de Vargas, um cidadão, partidário do caudilho, matou-se e, parafraseando o presidente, teria escrito num pedaço de papel: “Saio da vida para entrar na geografia”. A moça gostou da anedota.

“Só mais uma pergunta”, insistiu. “Como o senhor explicaria sua paixão pelos ipês de Teresina?”. Essa é fácil: onde nasci, sertão do Caracol, não existiam ipês. É possível que, um dia, tenham existido, mas como se trata de madeira nobre, devem ter sido os primeiros a ser cortados. Depois, cortaram-se as aroeiras, os angicos, as umburanas... Respondi: entre as muitas surpresas com as quais Teresina me brindou, uma das mais belas continua sendo a florada dos ipês. Já no início de agosto, espicho os olhos pela vastidão da Chapada à caça dos pontos luminosos que embelezam a cidade. Não seria exagero afirmar que sei de cor onde está cada um dos ipês antigos da capital. Vou um pouco além: não me limito a apreciar, fotografar e disseminar as imagens dos ipês de Teresina. Já plantei pelo menos uma dúzia deles, quase todos brancos, os mais raros. Um dia, quando ninguém mais se lembrar de que morei nesta aldeia, os “meus” ipês darão testemunho da minha passagem por aqui. Não estarei na história, mas na poesia. Estarei bem.



domingo, 23 de outubro de 2011

Tanque d’Arca existe. E é logo ali



O arraial do Junco, cidade litorânea com um pé no sertão baiano, e Tanque d’Arca, com um pé na Zona da Mata e outro no Agreste das Alagoas, poderiam ser declaradas cidades-irmãs pela Unesco de tantos pontos coincidentes que elas têm, a começar pelos filhos mais ilustres que levam o nome de sua terra além das fronteiras: Antonio Torres, pelo Junco, e Audálio Dantas, por Tanque d’Arca. Ambos, jornalistas, escritores e, por uma dessas conspirações da vida, amigos de priscas eras. Aliás, os dois se consideram irmãos, de tão amigos que são.

Embora os motivos sejam diferentes, as duas cidades nasceram à beira de um tanque: no Junco, chamado de “lagoa”; em Tanque d’Arca, o nome fala por si só. As duas eram caminho de tropeiros e vaqueiros, que se abasteciam de água em seus tanques cristalinos. O Junco surgiu pela busca do povo ao tesouro espiritual, a remissão dos pecados, a eterna procura da misericórdia divina. Reuniam-se em torno de um cruzeiro e uma casa de orações para ouvir e aclamar o Evangelho, em missa celebrada pelo padre de Inhambupe. 

Tanque d’Arca também nasceu pela busca ao tesouro: o terreno, aquele que tem o poder de redimir os pecados, perdoar os crimes e resolver todas as aflições da vida: o dindin, dinheiro, bufunfa, vil metal, etc., etc., etc. Contam os antigos do lugar que, ainda nos tempos dos tropeiros, os ciganos também gostavam de acampar nas margens do tanque existente onde hoje é a cidade. Houve uma briga entre eles, briga de faca, facão, foice, estrovenga, garrucha e há quem diga que teve até canhão cuspindo fogo. A ciganada sobrevivente fugiu sem dar destino da fuga deixando no tanque uma enorme arca contendo o butim de uma vida de engabelação. Sabedores desse tesouro, os caçadores da arca esquecida aglomeraram-se no entorno da lagoa e daí veio a nascer a cidade que levou o nome do tanque conforme se dizia à época: tanque da arca.

Mas o que mais me impressionou nesse leque de coincidências foge do campo da história, da cultura, para entrar na seara político-administrativa: a gestão dos prefeitos atuais. Um, é médico e empresário do ramo da medicina; o outro é engenheiro e empresário no ramo da construção civil. Porém ambos conhecem de cor e salteado os caminhos tortuosos do Planalto Central e até parece que os dois combinam as obras que vão fazer na cidade, embora cada uma com sua característica própria. 

Fui a Tanque d’Arca levar (e sendo levado) Audálio Dantas, que estava em Palmeira dos Índios e precisou vir a Maceió dar uma entrevista para a televisão. Antes, passamos em Palmeira dos Índios para pegarmos dona Vanira e Mariana, esposa e filha, que ficaram na casa de Nelson Ferro, primo do Audálio. Na entrada de Palmeira há um busto meio esquisito colocado no meio de uma rotatória onde o motorista tem que ter atenção redobrada. Parecia o ET de Varginha. Perguntei ao Audálio, que volta e meia está a andar pelo chão de Graciliano:

– Tá pousando disco voador aqui, Audálio?
– Não. Dizem que esse aí é Graciliano Ramos.

Chocante. Nunca pensei que o Mestre Graça tivesse vindo de outro planeta. Também há outro monumento no topo de um morro que dizem ser Jesus Cristo, mas tudo leva a crer que o escultor usou o molde de Matusalém nas proximidades do Dilúvio.

Depois do almoço pegamos estrada para a famosa Tanque d’Arca. Não digo que o Audálio teve a mesma recepção dispensada a Luciano Huck quando esteve lá dois meses atrás, mas foi um pouco tal qual. Pelo menos o prefeito Roney Valença e sua esposa Maria Cristina foram ótimos anfitriões, acompanhados dos vereadores José Gomes e Jorge da Serra. Antes de entrar apoteoticamente na cidade, Audálio deu entrevista à rádio local, sob a batuta da jornalista Thácia Simone e do DJ José Filho. Assim, quando o cidadão mais famoso de Tanque d’Arca (depois do prefeito, claro!) chegou à Praça, o povo se espremia na calçada para apertar a mão daquele que saiu menino da sua terra para reescrever a história do Brasil.

No caminho de volta a Maceió, Vanira me perguntou se não havia encontrado as duas moças da crônica “Mesmo com fama não deita na cama”, publicada neste blog em 10 de junho passado. A tal crônica fala de duas tanquenses que encontrei e que não sabiam quem era Audálio Dantas. Respondi que não. Mas como o mundo é muito pequeno, quase do tamanho de um ovo, depois da abertura da Bienal fomos jantar em um restaurante na Pajuçara, do compadre do prefeito e que tem uma entrada saborosa chamada “tanque d’arca”. Cristina, a primeira-dama, me perguntou como fiquei sabendo que quem nasce em Tanque d’Arca é tanquenses, conforme dissera na rádio, e não “tanquedarquenses”. Respondi que havia escrito uma crônica no meu blog falando de duas tanquenses que havia encontrado à porta da Secretaria Estadual de Educação e precisei pesquisar o gentílico do lugar para não escrever besteira. Ela me interrompeu com uma pergunta, quase um grito de surpresa:

– Então foi você!?

Vanira quase se engasga com a descoberta. Personagem e autor se revelando.

Mas devo confessar que acertei na mosca ao especular, na crônica, que devia se tratar da primeira-dama ou alguém bem próximo a ela. 

Quem não leu, é só clicar no link abaixo: