sábado, 27 de agosto de 2011

Cenas Urbanas


Cansado com o bater de pernas no shopping center, o velho roceiro sentou-se na escada rolante para descansar.

Esperou toda a manhã e mais uma parte da tarde até entender que Sete Portas era o bairro e não a quantidade de portas no ônibus.

Descobriu que atravessar a rua seguindo o guarda era mais seguro. Um dia o guarda atrasou e ele seguiu uma loira de farmácia que balançava os quadris. Do outro lado da rua ela o arrastou pelo braço e falou firme:

– Escuta aqui, ô meu: comigo é cinquenta pratas, morou?!
– Ah! É? Então vou esperar o guarda que vou de graça.

Engana-se quem pensa que o bairro do Pau Miúdo, em Salvador, tem origem nipônica.

Passou quinze dias na cidade grande e ao voltar pra roça estranhou a movimentação dos animais no terreiro:

– Manhê, que bicho é esse?!
– Ô, minha filha, vai dizer que não sabe mais o que é uma galinha?
– Nossa, mãe! Como as galinhas daqui são diferentes!


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Enquanto isso, pelas ruas da Velha Bahia...


De Pichação

Um continho pequenininho

Deu o dinheiro ao filho e ordenou:

– Amnésio, vá na venda de compadre Nelo e traga um quilo de açúcar. Açúcar, seu cabeça de vento! Não vá me trazer outra coisa como você faz! Vá falando até lá: açúcar, açúcar, açúcar...

Amnésio pegou o dinheiro e saiu em disparada, seguindo à risca o conselho da mãe:

– Açúcar, açúcar, açúcar...

Se Amnésio  morasse em Itabira, haveria uma pedra no meio do caminho. Mas no arraial do Junco havia mesmo era um cachorro metido a brabo no meio da rua:

– Cachorro, Cão, sai da frente e me deixa comprar o meu... sabão, sabão, sabão...


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Cineas Santos - História de mil e um amores

Ao poeta Paulo Machado

Permitam-me iniciar esta arenga parafraseando Quintana: quem ama reinventa, a cada instante, a coisa amada. Gosto de reinventar Teresina, imaginando-a uma colcha de retalhos costurada, carinhosamente, por milhares de mãos, mãos de todas as cores e procedências. A mão fidalga de José Antônio Saraiva assinando o decreto de transferência da capital da província dos ermos sertões de dentro para a esplanada da Chapada do Corisco; a mão firme de mestre Isidoro França traçando o quadrilátero inicial, sob um rústico teto de palhas; as mãos suaves do vigário Mamede Antônio de Lima abençoando a pedra fundamental da igreja do Amparo; as mãos ásperas de centenas de escravos sulcando a terra para plantar nela sonhos que não eram seus... Reinvento uma cidade luminosa brotando do chão da chapada, sob o inclemente sol de agosto, para tornar-se maternal e acolhedora.

Mas essa história já foi contada e recontada por historiadores, poetas e cronistas de reconhecido brilho. Nada tenho a acrescentar. Falemos, pois, do menino velho que, numa esplendente manhã de maio do ano 65, foi despejado na Praça Saraiva onde ninguém o esperava. Falemos do sujo das estradas grudado nas retinas e do medo vazando por todos os poros. Falemos da cidade hostil onde mil esfinges gritavam em uníssono: “Decifra-me ou te devoro”. E o menino, atônito, indefeso e só, ajoelha-se, no adro da igreja de N. S. das Dores, à espera do golpe fatal que, felizmente, não veio. Em vez do cutelo, a cidade lhe ofereceu colo...

Mas deixemos o menino velho em suas deambulações e falemos, ao sabor das lembranças, de algumas figuras notáveis que deram um perfil e uma identidade a Teresina. Falemos de: A. Tito Filho, o cronista da “Cidade Amada”, com aquele amor possessivo, quase passional, capaz de inventar, para uso próprio, o verbo teresinar; de D. Avelar Brandão Vilela, o pastor de voz reconhecível que apascentava o rebanho da urbe com a “Oração por um dia feliz”; de Mons. Chaves, responsável pela imponência da Igreja do Amparo, o historiador que deu voz ao povo do Piauí; do Prof. Camilo Filho, a melhor tradução da cidade, com seu sorriso farto e a indeclinável vocação para o diálogo; de mestre Odilon Nunes, silencioso, encurvado sobre alfarrábios, na Casa Anísio Brito, colhendo pérolas que seriam lançadas aos próceres; de Wall Ferraz, o prefeito durão, com vocação para donatário; de Marcílio Flávio de Rangel Farias, o “forasteiro” que, ao descobrir que aqui jorrava água potável das torneiras, fez-se o mais apaixonado dos teresinenses; de mestre Manoel Luciano, autor da mais bela toada que já se fez para a cidade. Impossível, em espaço tão curto, falar de todos os que amaram e amam esta cidade, reinventando-a incessantemente.

Esqueçamos, de vez, o menino velho com sua arenga interminável. Passemos a palavra ao poeta Moura Rego, de saudosa memória: “Não quero flor nem brilhante/ Quero carinhos de amante/ Para o mais fino louvor. / A quem já nasceu prendada/ A ti minha namorada, / Teresina, meu amor”. 

Nota do blog: esta crônica era para ter sido publicada na semana passada, aniversário de Teresina, porém o blogueiro encontra-se em viagem e somente agora teve acesso à internet. Desculpas ao Cineas Santos e aos leitores.