Hoje o blog abre alas para a poesia dos amigos Salgado Maranhão e Tanussi Cardoso, na belíssima entrevista de ontem à noite na Globo News. Abaixo, texto de apresentação no site da Globo News:
“Salgado Maranhão e Tanussi Cardoso surgiram no final dos anos 70, mas logo se destacaram de outros poetas da chamada “geração marginal”, ao mesclarem a linguagem coloquial tão comum à época com elementos da rica tradição poética brasileira.
Salgado está lançando sua obra completa com o livro "A cor da palavra" e Tanussi reúne na coleção "50 poemas escolhidos pelo autor", alguns de seus melhores textos. Os dois são os entrevistados do Espaço Aberto Literatura desta semana.”
Cada cultura, cada povo e cada época abraçam o deus que lhes convêm. Dificilmente encontra uma resposta efetiva. O nosso Deus católico é considerado onipresente, isto é, assim, como está em todos os lugares, paradoxalmente não está em lugar nenhum. Conscientemente não se conhece nenhuma intervenção divina sobre a maneira como devemos nos comportar e seus mandamentos são sucessivamente violados sem que ele tome qualquer providência, e o livre arbítrio é apenas uma justificativa para o fato de que ele nos deixou entregues ao nosso próprio destino.
Falsos profetas abundavam em uma época em que o Messias era esperado com fervor. Quando os autoproclamados filhos de Deus não tinham uma retórica convincente ou de alguma forma não convenciam a população da sinceridade de seus propósitos e da legitimidade de seus poderes que os vinculava ao Deus-Pai, eram impiedosamente apedrejados. Jesus Cristo, não. Agrupou um monte de aliados e enfrentou com galhardia toda a opressão do Império Romano, até finalmente ser esmagado, tendo o mesmo destino dos falsos profetas de outrora: humilhado, arrastado pelas ruas a chicotadas e finalmente sofrendo o doloroso martírio da cruz, onde supostamente questionara se seu próprio pai o abandonara.
Cristo levantou problemas superiores à sua capacidade de resolução. Foi um revolucionário que com um exército de maltrapilhos e movido praticamente apenas por uma retórica exemplar, ousou enfrentar um Império impiedoso, politeísta e antropomórfico. Ironicamente, este Império fundou uma concepção religiosa baseada nos princípios daquele que humilhara. O Imperador Augusto, deus dos deuses, inicia enfim o período cristão, iniciando o monoteísmo apostólico.
Cristo é considerado pelos católicos como a única intervenção direta de Deus na Terra, se acreditamos que os argumentos em que se fundamentava eram realmente emanados de uma orientação celestial.
Depois disto, parece que o Celestial esqueceu-se – ou desapontou-se – com aquilo que havia criado e não mais atendeu a nenhuma solicitação a Ele direcionada, quer do ponto de vista coletivo, quer do ponto de vista individual. O mundo passou a ser organizado segundo os mais torpes defeitos humanos: ambição, inveja, luxúria, pedofilia, assassinatos, adultério, roubos, individualismo, desrespeito ao próximo etc., onde os 10 Mandamentos são sistematicamente violados, humilhados e desconsiderados.
Canalhas vão às missas freqüentemente, perdem perdão por seus pecados intencionais e voltam a pecar sem desfaçatez. O cristianismo é uma concepção religiosa alicerçada no martírio do seu principal porta-voz, é erigida na culpa da atitude pecaminosa original, onde todos devem pagar, expiando seus pecados.
Hoje, dividida internamente, dilacerada em grupelhos, alguns com atividades claramente criminosas, usando o nome divino em vão, abusando da irresistível vocação ao transcendental inerente aos homens para enriquecimento individual, o catolicismo experimenta um declínio ascendente que o atual Papa Bento XVI só faz acentuar, distanciando a fé da realidade cotidiana, exigindo dos católicos um comportamento religioso absolutamente incompatível com a realidade das ruas, pois ele exige praticamente um retorno ao período mais sombrio da igreja.
Deus, manifesto pelo comportamento dos seus representantes eclesiásticos, foi por eles transfigurado. Talvez por desencanto, afastou-se deixando-nos abandonados ao comportamento selvagem e hostil do mundo dos negócios, do modo capitalista de produção. É um fenômeno que merece explicação: um grupo restrito de pessoas diz-se seu representante e uma multidão sem fim acredita sem restrições. Assim, esta dissociação indisfarçável entre a prática religiosa e os preceitos papais. Por isso, talvez, o abandono: os carneiros entregues à sanha dos lobos.
Bem este artigo seria para falar sobre Prometeu, a quem considero, dentre a mitologia (inclusive a cristã), o mais nobre dos deuses, o único que teve de fato uma preocupação com a frágil condição humana e por ela sofreu os mais horríveis martírios. Percebendo a obscuridade em que vivíamos e cônscio de seus poderes e de sua condição divina, voltou-se para os mortais. Éramos trevas, escuridão. Prometeu, em um inédito gesto de humildade, nos trouxe o fogo, a claridade, a luz. Por conta desta piedade para com os mortais, os outros deuses, impiedosos, amarraram-no a um precipício, condenando-o a ter seu fígado – que crescia incessantemente - comido por uma águia.
Porém isso é um outro assunto, mas só Deus sabe para quando.
Por ocasião da II Bienal do Livro de Maceió, em 2005, o escritor Antonio Torres deu uma das suas mais brilhantes entrevistas ao jornalista Ricardo Mota, no extinto programa Pajuçara Especial, da Tevê Pajuçara, à época, afiliada do SBT (hoje faz parte da Rede Record).
Em um bate-papo descontraído, entrevistador e entrevistado pareciam conversar à mesa de um boteco, falando de passado, de política, literatura e outros temas, sem cair na mesmice. A entrevista comove sem ser piegas.
São aproximadamente cinquenta minutos divididos em 5 partes, porque o Youtube só hospeda, no máximo, dez minutos de vídeo. Esta entrevista foi exibida quatro vezes, a pedido dos telespectadores alagoanos. Em conversa com Ricardo Mota, ele me disse:
- Tom, em quinze anos de programa nunca vi caso igual. São centenas de telefonemas, e-mails e cartas, pedindo pra reprisar.
Eis então que vos apresento essa antológica entrevista.
Meninos, consegui realizar uma proeza, certamente almejada por muitos de vocês: entrevistar Rubem Fonseca. Foi uma entrevista-relâmpago, é verdade. E o pior, digo, o melhor, é que demos muitas risadas e acabei esquecendo o que era mesmo que eu queria lhe perguntar. Coisas assim: "Sabeis vós que sois o escritor que mais influência exerce sobre os jovens que estão se iniciando na literatura? Isso vos causa algum incômodo ou é um presente para os vossos oitenta anos? Tendes algum conselho para a rapeize? Como vedes o mundo, depois da queda do Muro de Berlim, o que aliás presenciastes, in loco?"
Não dá para ser pomposo, ou grave, ou pedante com o Rubem Nosso Bem, como o chamamos aqui em casa. Ele não faz o gênero sabichão, sempre a tirar da cartola uma declaração prêt-à-porter, que vá influir nos destinos da humanidade. Quem quiser saber qual é a sua visão desse nosso tempo que leia os seus livros e pronto. A mim, o que mais impressiona em Rubem Fonseca é a poda que ele faz na "última flor do Lácio," extirpando-lhe os caules vocabulares de seus barrocos galhos lusitanos que impregnaram a retórica dos escribas-comendadores. Mas, se um dia me pedirem para apontar apenas uma de suas virtudes, diria, na bucha: "É um homem que sabe rir." Quando lhe perguntei como estava se sentindo ao fazer 80 anos, ele respondeu, ágil como sempre foi: "O segredo é não ligar para isso. Dane-se a idade. Veja o exemplo do Oscar Niemeyer, que já passou dos 90, e está aí, inteirão." Ele também.
Só o vi fora de forma uma vez. Foi em Santiago de Cuba, quando participamos do júri do Prêmio Casa de las Américas, em 1983. Zé Rubem apareceu à mesa do café da manhã de farol baixo, e cheio de olheiras. "Que aconteceu, homem?"
Então soubemos. Um casal, em sua noite de núpcias, hospedara-se numa cabana parede a parede com a dele, fazendo-o perder o sono.
Imaginem o constrangimento de quem teve que ouvir, pela madrugada afora, uma nubente a uivar, sem surdina: "No, no, papito... Si, si, papito... No, no, papito..."
Ele contou isso transformando o seu drama em comédia. Impagável Rubem Fonseca: saúde, sucesso e... risadas! Rir não é o melhor remédio?
Como a crônica do Luiz Andrioli se refere a uma pichação e, sem a imagem ficaria capenga, publico o vídeo do seu programa, principalmente porque o homenageado é personagem central de um livro seu sobre o circo, o qual estou lendo e recomendo a todos. Mas não fiquem viciados não porque o objetivo do blog é a leitura e não a imagem.
Ao referir-se às entradas e bandeiras nestes sertões brasílicos, vem a tona a lembrança dos paulistas que desbravavam nossas matas e exterminavam as nações indígenas. Porém, os primeiros bandeirantes foram baianos e já realizavam expedições bem anteriormente, partindo da Cidade da Baía (Salvador) em direção ao Rio São Francisco, conhecida região dos Tapuia (denominação que os falantes do tupi davam a todos aqueles que não pertenciam à sua etnia nem falavam sua língua). Thomé de Souza foi um dos incentivadores da “caça ao índio” e oferecia imensas quantidades de terra àqueles que o fizessem. Francisco d’Ávila, proprietário da maior sesmaria em território baiano, foi responsável por sangrentos massacres. Nações "jê" desapareceram. Assim foi com os Paiaiá, primeiros habitantes da região entre os Rios Paraguaçu e Itapicuru – região onde atualmente se situa o Junco. Essa nação foi completamente exterminada logo nos primórdios do Brasil.
Num desses ataques, numa batalha atroz, alguns conseguiram fugir para o mato – não se sabe se conseguiram sobreviver e hoje pertencem àqueles grupos ressurgidos, antes dispersos, cujos membros viveram longos anos do trabalho semi-escravo nas lavouras dos senhores do sertão.
Triste história a dos Paiaiá, que alguns historiadores dizem ser os mesmos Marakaiá, povo guerreiro falante de um idioma do grupo macro-jê, do qual não se tem registro.
Conta-se que apenas um papagaio restou numa das aldeias como sobrevivente à extinção de toda essa nação. Ficara só, único naquelas paragens a repetir frases no idioma dos Paiaiá, desaparecidos, como último representante de uma nação dizimada pelos bandeirantes baianos.
Pousada sobre as ruínas daquela aldeia extinta, solitária e triste, a fiel ave cortava o silêncio daquelas lonjuras solitárias, monologando um idílio, naquela linguagem que ninguém mais compreendia. Era um fantasma diante do qual céleres com suas famílias, vindos do norte, também fugindo do extermínio, passavam os Kiriri, novos povoadores da região.
Extraído do livro "Arraial do Junco: Crônica de sua existência", desse escriba que vos fala.
Hoje eu acordei com uma novidade sussurrando ao meu ouvido: como se não bastasse tantas invenções inúteis, inventaram também o dia do beijo.
Em boa hora eu me lembrei dos cadernos de confidências das minhas primas, aqueles cujo teor intimista das perguntas, justificava o nome: confidência. Havia de tudo que povoa a inocência da época, desde qual o gosto do beijo ao supra-sumo do erotismo – o beijo de língua. Em alguns, havia a informação de que “o beijo é como o ferro elétrico: liga em cima e esquenta embaixo”.
Mas triste daquele ou daquela que precisa de um dia no ano para beijar. Já nascemos beijando e sendo beijados, e negar-se a tal carinho depois de grande, é, lamentavelmente, triste.
Ninguém inventa nada a troco de nada. Se não receberam verbas governamentais em forma de subsídio para inventar tal inutilidade, no mínimo, pensaram tirar proveito do dia. Eu mesmo estou pensando em montar um stand no único shopping center da cidade para vender beijos, a preços módicos. Como fui surpreendido hoje de manhã, não dá mais tempo de diversificar o estoque, pois só tenho no depósito o beijo do Judas, o beijo da mulher-aranha, o beijo sem sal, o beijo da morte e o famoso beijo de Drácula. Como minha cara-metade – a que me contou a novidade – disse haver infinitos tipos de beijo, quem souber onde posso encontrá-los, fineza deixar recado. Principalmente o tão procurado e tão escasso “beijo amigo”.
O beijo é lenda que virou realidade. Há várias teorias para sua origem, inclusive até de Darwin, mas quem precisa saber disso para beijar e ser beijado? Em compensação, o autor ou autores desse brilhante invento é ou são completamente desconhecidos, sem nenhuma especulação a respeito. Mas, sugerem os meus botões, que foi algum tímido com necessidade de beijar e precisava de um incentivo.
Hoje também se comemora outra data, de suma importância, sem lenda e com autoria. É o dia do Hino Nacional Brasileiro, aquele que toca nos estádios no dia que a seleção brasileira de futebol joga. Você ainda se lembra o que é o Hino Nacional? Mas com certeza nunca se esqueceu do primeiro beijo...
Pois então reavive a memória:
O HINO NACIONAL BRASILEIRO
O hino é a expressão de sentimento coletivo de um povo, a exaltação melódica aos seus heróis, o louvor ufano à sua história, invocação à divindade, em forma de poema ou cântico. Data da antiguidade, em que era composto e cantado em honra dos deuses e dos heróis. O Antigo Testamento é recheado de belíssimos hinos de louvor ao Messias, destacando-se os salmos de Salomão e do seu pai, o rei Davi.
O Hino Nacional Brasileiro é o nosso maior cântico de louvor à Pátria, a emulação de nosso brio patriótico, estimulante do nosso sentimento nacionalista, e, por isso, é executado em solenidades oficiais ou em festividades cívicas e devemos cantá-lo ou ouvi-lo com orgulho, de pé, mão no coração, em demonstração de amor e respeito ao símbolo máximo da nossa nação.
É considerado um dos mais belos hinos do mundo. Sua melodia foi composta em 1822, pelo maestro Francisco Manuel da Silva, para comemorar a Independência do Brasil. Tornou-se popular apenas em 1831, quando ganhou a primeira letra, que continha versos hostis ao imperador D. Pedro I, que acabava de abdicar (Os bronzes da tirania/ Já no Brasil não rouquejam/ Os monstros que a escravizam/ Já entre nós não vicejam). Com a coroação de D. Pedro II, em 1841, foi escrita a segunda letra, e exaltava a figura do novo imperador (Negar de Pedro as virtudes/ Seu talento escurecer/ É negar como é sublime/ Da bela aurora o romper), porém a bajulação ao Imperador foi esquecida pelo povo, que consagrou a música do maestro Francisco Manuel da Silva e esqueceu a letra.
O hino se tornou oficial por força da popularidade, sem que houvesse qualquer decreto nesse sentido. Com o advento da República, em 1889, houve concurso para a escolha de um novo hino, em sintonia com o novo regime. Convidaram o maestro e compositor Carlos Gomes, que se recusou. Venceu a composição de Leopoldo Miguez e Medeiros e Albuquerque, cuja letra canta estes versos adaptados em recente samba-enredo de escola de samba do Rio de Janeiro: “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós! Das lutas na tempestade, dá que ouçamos tua voz”, porém a mudança do Hino não contava com o apoio do povo e o Marechal Deodoro, em consonância com o sentimento popular, no dia 20 de janeiro de 1890, dia do concurso, oficializou a melodia de Francisco Manuel da Silva como o Hino Nacional Brasileiro. O hino vencedor do concurso, de Leopoldo Miguez e Albuquerque, foi proclamado como o Hino da República.
Em 1909 houve outro concurso para a composição poética que mais se adaptasse à música do Hino Nacional, pois a melodia sem letra é mais difícil de se memorizar. O poeta e jornalista Joaquim Osório Duque Estrada fez uma adaptação da Canção do Exilio, de Gonçalves Dias, inclusive copiando alguns versos, os quais se encontram aspados na letra original (nossos bosques têm mais vida/ nossa vida, [em teu seio], mais amores) e se tornou o grande vencedor. Em 06 de setembro de 1922, cem anos depois da composição musical, após algumas pequenas modificações promovidas pelo próprio autor, o presidente Epitácio Pessoa assinou o Decreto 15.671 oficializando a letra do nosso Hino Nacional, tal qual ela é cantada hoje.
“Ninguém poderá ser admitido ao serviço público sem que demonstre conhecimento do Hino Nacional” (Art. 40º do Decreto-Lei nº 5.700 de 1º de setembro de 1971).
Se forem fazer teste do Hino com os servidores públicos, não sobrará ninguém para prestar serviço à comunidade. Já numa cidade da Bahia, durante a troca de comando de um batalhão do Exército, o novo comandante tentava pôr os soldados em forma para cantar o Hino Nacional.
- Tropa! Para cantar o Hino Nacional, sentido! – ordenou, com o devido vigor de comando.
Os soldados olhavam para ele como se nada entendessem. Falava grego? Repetiu o comando:
- Tropa! Para cantar o Hino Nacional, sentido!
Ninguém mexeu uma palha. Alguma coisa estava errada. Dirigiu-se ao antigo comandante, que tirava suas coisas pessoas da escrivaninha. Contou o ocorrido. O ex-comandante falou:
- Ah! Colega. Aqui não é assim não. Vamos lá!
Chegando ao local em que os soldados estavam em forma, o antigo comandante deu as ordens em baianês:
- Ô, meu rei, durin, durin pra cantar euvirundum!
Imediatamente os soldados se colocaram em sentido e cantaram o Hino Nacional. Ou o “Euvirundum”.
Viceja entre nós, como erva daninha, uma praga perigosa que se alastra com enorme velocidade. Trata-se da cultura do atalho que, grosso modo, poderia ser resumida assim: está difícil ou custoso conseguir o que se quer pelas vias normais, busca-se um atalho. Tal prática tanto serve à mocinha preguiçosa que não gosta de estudar, mas sonha com o mundo glamoroso das estrelas, como ao político carreirista que faz alianças até com o diabo para não desapear do poder. É uma espécie de vale tudo onde os fins justificam os meios, por mais torpes que sejam. Creio que o melhor espelho dessa cultura nefasta é o Big Brother, programa televisivo que arrebanha gente de todos os estratos sociais que, como animais enjaulados, exibem-se despudoradamente naquele circo de aberrações. Em artigo memorável, publicado no Jornal do Brasil, a professora Bárbara Musumeci Soares afirma: “O que se vê é o reforço das aspirações imediatistas de conquista de fama e dinheiro. Não a fama de quem investiu na criação de algo, de quem se arriscou para salvar alguém ou de quem se empenhou para transformar alguma coisa. Nem, tampouco, o dinheiro que resulta do trabalho e que retorna para a cadeia produtiva, realimentando circuitos vitais. O que se vende, como um bem que passa a valer por si mesmo, é a possibilidade de reconhecimento fácil, de quem se torna instantaneamente famoso por desempenhar, diante de milhões de brasileiros, o papel de pessoa comum. É a atração do ganho imediato, que não requer nenhum talento, nenhuma grandeza, nenhuma capacidade, nenhuma inspiração”. Melhor definição, impossível.
Por que volto a esse tema tão repisado? Explico: o caderno Folhateen (05/04/10) trouxe estampada na primeira capa a foto de uma jovem (19 anos de idade) com a língua bifurcada, piercings e tatuagens espalhadas pelo corpo. Uma figura bizarra, para dizer o mínimo. Título da reportagem: Muito Prazer. A matéria de capa relata histórias de garotas, recém-saídas da adolescência, que “faturam com a sensualidade” em shows na webcam. Por um punhado de dólares (reais também servem), as meninas se insinuam, exibem-se e até se masturbam para quem se dispuser a pagar. Nenhuma das entrevistadas é tão pobre a ponto de necessitar de tais expedientes para sobreviver. Na verdade, buscam bem mais que os caraminguás que faturam com esse tipo de prostituição virtual; buscam os holofotes, o brilho, a fama, mesmo que seja aquela efêmera, de apenas 15 minutos, prevista por Andy Wharol. Para a psicóloga Leila Tardivo, “a coisificação de si ou do outro é um problema: o ser humano não é um objeto. Isso pode trazer consequências, elas podem ser vítimas de bullyng, por inveja ou por preconceito. A garota se expõe e pode ser vítima de ataques“.
Vai longe o tempo em que as meninas queriam ser professoras, enfermeiras, advogadas, aeromoças etc. Hoje, sem o menor pudor, meninas de classe média, universitárias, buscam os atalhos, por mais perigosos ou abjetos que sejam. O tempora, o mores!