No domingo passado, um jovem sacerdote se esforçava para seduzir os fiéis com um sermão sobre o encontro de Cristo com os Discípulos de Emaús. Embora o tema seja fascinante, a palavra de Deus não parecia frutificar. Lembrei-me do Sermão da Sexagésima, de Pe. Vieira: “Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo pode proceder de um dos três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus”. Digamos que a culpa fosse dos ouvintes... O certo é que na passagem em que Cristo reparte o pão e, finalmente, é reconhecido pelos dois discípulos, fiquei emocionado. Impossível ignorar a força da palavra partilha.
Foi aí que o pensamento me levou a Guaribas, no sofrido sertão do Piauí. Eu estava fazendo um trabalho por lá, quando apareceu a equipe de uma TV espanhola. Depois de uma prosa em portunhol, um dos jornalistas me perguntou: professor, o que distingue o piauiense dos demais brasileiros? Respondi de bate-pronto: a hospitalidade, a generosidade. O jornalista, homem de meia idade, insistiu: o senhor poderia ser mais explícito? Limitei-me a dizer: o senhor está no município mais pobre do país. Vá à casa do mais humilde dos moradores de Guaribas e ele não hesitará em matar a única galinha da família para oferecer-lhe um prato de comida decente. E, se nada tiver, há de agraciá-lo com o seu melhor sorriso. O cidadão assentiu com a cabeça e afirmou: então é por isso que aonde chego sempre me oferecem alguma coisa. E mais não disse, por desnecessário.
Essa lembrança remeteu-me a outra bem mais recente. No bairro Ininga, onde moro, presenciei uma cena inesquecível. Meio-dia, sol a pino, um casal agasalhou-se à sombra de uma amendoeira. O homem era carroceiro, idade inescrutável, gestos lentos e cara sofrida. A mulher, catadora de papel, era rechonchuda, ativa, faladeira. Não sei que vínculo afetivo os unia. De repente, o carroceiro encostou-se na parede do muro, esticou as pernas e acendeu um cigarro. A mulher, sempre rindo e falando, abriu um saco de plástico escuro de onde retirou uma quentinha, dessas que se vendem nas biroscas da vida. Tirou um lenço colorido que trazia amarrado à cintura e o colocou na calçada como se fosse uma toalha. Em seguida, abriu a quentinha e, com um gesto acolhedor, convidou o carroceiro a compartilhar o grude. Como só havia uma colher, os dois passaram também a dividi-la. Cada um, depois da colherada, passava a ferramenta ao outro. Só me lembro de ter visto algo assim no sertão do Caracol onde faltavam comida e colher.
Por um instante, parei para apreciar aquela cena comovente: um casal extremamente pobre dividindo o que mal daria para alimentar um deles. Não me lembro de ter visto nada mais belo em matéria de partilha. Enquanto me afastava, pensei: Cristo não morreu em vão: alguma coisa efetivamente ficou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário