sábado, 11 de dezembro de 2010

Cineas Santos - O Juazeiro e a onça

Seu Liberato era um sertanejo atípico: não fazia o menor esforço para esconder a delicadeza, o lirismo e a ternura que o animavam. A violência não encontrava agasalho em seu juízo: não batia nem em jegue, bicho ronceiro e sestroso. Fazia tudo para agradar os filhos. No final do dia, trazia-nos da roça uma pororoca de melancia, uma bananinha de coroatá, uma resina de angico, um favo de enxuí, uma simples flor de caruá ou de rabo-de-raposa... Era lento, sossegado, paciente e excelente contador de causos. As histórias eram as mesmas, mas sempre acrescidas de detalhes que lhes conferiam sabor de novidade. Se tivesse de defini-lo com uma metáfora, não me ocorre outra: um juazeiro, só sombra.

Dona Purcina, ao contrário, era agitada, enérgica, autoritária. Não admitia contestação, desrespeito, desobediência. Partidária da pedagogia da pancada, não hesitava em aplicar corretivos severos e rigorosos nos filhos, afilhados, agregados e afins. Afirmava, sem rodeios: “Quem não faz o filho chorar chora por ele”. Estava sempre atenta a tudo. Nada se lhe escapava ao olhar de águia. Quando alguém lhe questionava uma ordem com o argumento: “não vai dar certo”, ela retrucava na hora: “Você já tentou?”. Nascida e criada no sertão do Caracol, tinha um sonho recorrente: migrar para uma cidade grande, onde “corra dinheiro, saia água das torneiras e tenha escola de graça”.

Com temperamentos tão distintos, ela e seu Liberato nunca brigavam. A canga do trabalho os unia. Quando ele percebeu a vocação dela para o matriarcado, abdicou do poder de mando: deixou que ela o exercesse plenamente. À proporção que envelhecia, fazia-se mais brando, mais suave, mas companheiro dos filhos. Às vezes, no auge das nossas reinações, ouvíamos dele a advertência providencial: “Cuidado com a onça!” ou: “A onça está por perto!”. Serenos e sossegados, esperávamos a fera afastar-se para reiniciar as traquinagens. Aos 75 anos, seu Liberato perdeu completamente a visão. Nunca se ouviu dele uma queixa, uma imprecação. Dir-se-ia ter nascido cego. Fez sua última viagem no dia 1º de maio de 1984, sem saber que aquela data era consagrada ao trabalhador. Era um sertanejo íntegro, um homem exato.
*
Este fragmento de prosa integra o livro A Matriarca dos Loucos, que pretendo lançar brevemente.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Perpetuum Jazzile e BR6 - Aquarela do Brasil

O que é bom e bonito é pra ser divulgado. Agradeço ao mano Antonio Torres por me enviar essa pérola.

Os eslovenos falam Português? Não. Falam, claro, o Esloveno. Mas o povo que vive lá no frio ao pé dos Alpes cantam em Português tupiniquim melhor que os lusos, os inventores da nossa língua mãe gentil. Talvez haja uma explicação para essa interpretação musical sem sotaque, mais cristalina que música sertaneja: Portugal e Eslovênia tiveram a mão dominante dos celtas e dos romanos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Luís Pimentel - O ano e o mês de Noel

No mês em que o Brasil inteiro comemora o seu centenário de nascimento, Noel de Medeiros Rosa, da Vila e do mundo, recebe as mais justas homenagens. Noel faria 100 anos exatamente agora: ele é de 11 de dezembro de 1910. Viveu apenas 27 anos, mas deixou uma obra de tirar o fôlego de qualquer um: mais de duas centenas de músicas, todas com uma garantia de qualidade jamais questionada por quem quer que seja.

O autor de momentos sagrados da MPB, como Conversa de botequim, Pra que mentir?, Pela décima vez, O orvalho vem caindo, Silêncio de um minuto, Feitio de oração, X do problema e de tantos, tantos outros, veio ao mundo marcado (e para sempre) pelo fórceps que lhe fraturou a afundou o maxilar inferior. Carioca, nasceu na Rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, filho de um gerente de loja de roupas (Manuel Rosa) e de uma dona de casa (Marta de Medeiros Rosa).

Noel teve infância de menino classe média no Rio daqueles anos, com direito a escola, alimentação na hora certa, roupas bem passadas e lazer. Estudou em bons colégios e chegou à Faculdade de Medicina. Chegou, mas não ficou. O samba (que não se aprende no colégio) falou mais alto. A Medicina perdeu um doutor, mas a música brasileira ganhou seu mais inspirador compositor.

A primeira música foi gravada em 1928 (neste ano, do outro lado da linha do trem, Cartola, Cachaça e outros bambas estavam criando a Estação Primeira de Mangueira) e chamava-se Ingênua, uma valsa. Dois anos depois estourou com a irreverente Com que roupa? (Eu hoje vou mudar minha conduta/Eu vou pra luta, pois eu quero me aprumar). Em 1931, ainda tentando conciliar as atividades de estudante de Medicina com as de compositor, cantor, boêmio e namorador inveterado, gravou mais de 20 músicas e viu seu nome consagrado, sobretudo por conta da divertida Gago apaixonado (Mu-mu-um-um-mulher/Me fi-fi-fi-zeste um estrago).

Daí em diante, era Noel Rosa, o poetaço da Vila, pontificando no Café Nice, nos bares da Lapa, no teatro de revista, no Theatro Central, nas principais emissoras de rádio, polemizando com Wilson Batista (outro gigante), namorando coristas e produzindo sem parar. Numa época em que uma simples tuberculose matava, o Poeta da Vila bebeu muito sereno – sempre acompanhado de um bom traçado, um conhaque e a cervejinha de fé – e descuidou do peito. Tentou salvar os pulmões nos inúmeros recantos de recuperação então existentes, mas não conseguiu.

O coração mais inspirado que já bateu na Vila fez silêncio no dia 4 de maio de 1937, na casa dos pais, na mesma Teodoro da Silva onde nasceu, deixando uma multidão de fãs órfãos e de mulheres apaixonadas.



domingo, 5 de dezembro de 2010

Eliezer Setton no Programa Sr. Brasil

Hoje é um domingo de música. Não uma música qualquer, mas as nossas canções hinárias em arranjo e voz de Eliezer Setton, acompanhado do excelente sanfoneiro alagoano Tião Marcolino, no programa de Rolando Boldrin, intitulado "Sr. Brasil". Além das músicas, o artista também fala (e canta) de algumas curiosidades do Hino Nacional e até do hoje universal "Parabéns a Você".

Delicie-se com esse presente dominical que o blog oferece aos seus diletos leitores.







Manifesto Sururu ressurgiu das cinza




No dia 25 de abril de 2010 recebi o seguinte e-mail de Cláudio Canuto:

“Tom, achei o seu texto sobre o meu artigo. É uma beleza, um retrato sem disfarces e muito acurado da realidade cultural da província. Acho que talvez você possa aproveitá-lo, adaptando-o em artigo, se necessário excluindo a citação ao meu próprio artigo, já que o perdi.

Por seu intermédio, fiquei sabendo que ele foi publicado em 3 de outubro de 2007. Vou tentar acha-lo. Neste caso, publicaríamos os dois: o meu artigo e o seu comentário que, aí, poderia ficar tal veio ao mundo. O que você acha?

A ilustração no texto sobre Prometeu, foi uma grande sacada. Obrigado.”

Cláudio Canuto se referia a um texto publicado no jornal Tribuna de Alagoas, em apoio ao seu artigo no jornal Extra, de Maceió, sobre o Manifesto Sururu, um movimento cultural capitaneado pelo sociólogo, poeta, compositor e músico Edson Bezerra. Infelizmente Cláudio Canuto não pôde cumprir a promessa e levou para o túmulo todo seu desejo de resgatar esse Manifesto que seria tão importante para a Cultura alagoana.

Hoje, no intervalo do jornal local, ouvi a chamada para outro programa que seria exibido logo após o noticiário e qual o quê?! tratava-se de um programa baseado no Manifesto Sururu, e assim vos apresento, diletos leitores deste blog, para que  fiqueis sabendo que a Cultura de Alagoas, em particular, de Maceió, vai muito além da cultura de cana-de-açúcar e do fumo de Arapiraca. 

Em pouco mais de trinta minutos de vídeo há uma verdadeira mistura de música, imagem e história. Também publico o texto ao qual o saudoso Cláudio Canuto fez referência.





DESPINICANDO O SURURU DA CULTURA OFICIAL

“Colonialismo ideológico consciente de alguns intelectuais que moram nas almofadas do poder, abraçando-as, defendendo-as como filhos. (...)”    

Assim Cláudio Canuto inicia o seu introito em manifesta defesa do “Manifesto Sururu”, publicada em um jornal desta cidade, no ano passado, sob o título “Sururu apresenta sua grande couraça”.

Cláudio Canuto, sociólogo, escritor e jornalista, conhece de letra o que é a cultura alagoana, o que é a literatura alagoana e, principalmente, o que é o sururu da Lagoa Mundaú, e ninguém melhor do que ele para avalizar o chamado Manifesto Sururu, um movimento que segue na contramão da cultura oficial das Alagoas.

Apesar da coerência que rege a fundamentação ideológico-cultural do texto em questão, sou completamente cético quanto aos rumos da bandeira levantada em prol da cultura alagoana, haja vista outros projetos de igual teor ter sido jogado na vala comum do esquecimento. Em 2002, o Governo do Estado, em noite de gala, inaugurou uma nova política para a nossa cultura, cuja ação, se posta em prática, tiraria Alagoas do marasmo em que se encontrava e ainda se encontra. Lamentavelmente existiu um longo corredor entre as palavras e as ações e as boas intenções foram enterradas na inanição ou má vontade de seus executores.
Infelizmente os atos evidenciam um fato, embora haja algumas exceções: Alagoas é uma terra de amadores. As políticas públicas para a cultura são amadoras. Os patrocinadores são amadores, os artistas são amadores e os veículos de comunicação conseguem se superar no amadorismo. O artista brinca de ser artista. O Governo brinca de fazer cultura. A imprensa faz de conta que divulga. 

O público, que seria o consumidor final, o cliente a ser cativado, a ser conquistado, de repente se tornou em válvula de escape do mau humor dos dirigentes culturais que atribuem a ele, o público, a culpa pela incompetência gerencial dos promotores dos eventos culturais. No show de abertura do Projeto Pixinguinha, os nossos “promoters” deram uma aula de sandice administrativo-cultural ao colocar o artista roqueiro alagoano Basílio Sé para encerrar um show do grupo Época de Ouro, um conjunto de chorinho e que tem o seu público cativo entre os “jovens” da meia-idade, os saudosistas de Jacob do Bandolim. Outra coisa não poderia ter acontecido, senão uma revoada do povo ao final da apresentação do artista maior, exibindo sorrisos de satisfação pelo reencontro com os anos doirados da década de sessenta. Após uma overdose de saudosismo, não havia espaço nem clima para um outro estilo musical.
Dias depois, dois jornais da cidade publicaram artigos de alguns colunistas envolvidos de corpo e alma com a nossa administração cultural – desconfio até que sejam os verdadeiros responsáveis pela gafe –, criticando e culpando o público pela estupidez de uma carapuça que só cabia a eles, os gerentes culturais. O que fizeram com o Basílio Sé foi de uma sandice contundente, coisa de aventureiros e não de amadores, pois, estes, ao menos se esmeram para mostrar competência e duvido que algum amador, por mais imaturo que seja, coloque a carroça na frente dos bois.

Voltando ao tema central, o problema de certos manifestos é que se limitam ao próprio gueto cultural, ignorando a presença do público lá fora. Salvando as raras exceções, o artista alagoano acha que o público é quem deve ir onde o artista está, e não o inverso. É como se dissesse: “eu me basto”. Cultura, para certos artistas, é o que está ligado ao seu umbigo. Quando mete o pé em um cargo da “viúva”, trata logo de puxar a brasa para sua sardinha. Pensa no individual, em prejuízo do coletivo. Patrocina certas figurinhas do seu círculo de amizade em detrimento do verdadeiro artista, aquele que sobe no palco e expõe sua alma para o público, certo de atingir um objetivo, porém a voz das massas embevecidas e reconhecidas do seu talento não ressoa além dos paredões blindados dos interesses mesquinhos e individuais daqueles que podem fazer acontecer.

Assim, em vez do Marechal Deodoro apear do seu cavalo para que um líder legítimo tome as rédeas da História, conforme o implícito no Manifesto Sururu, vemos o explícito puxa-saquismo de pseudos líderes puxando as rédeas do cavalo de algum marechal de plantão no poder público em total atitude de subserviência e incorporando o servilismo brutal à gente descomprometidas com a cultura alagoana, mas que ocupa cargo por mera indicação política. Quem haverá de se esquecer de um secretário de Cultura que, no discurso de posse, disse: “A única cultura que entendo é a do fumo”?

São pessoas assim que acham que “ópera-bufa” tem a ver com flatulência intestinal, que pululam na nossa cultura oficial. Oxalá o “Manifesto Sururu” não seja apenas um rompante passageiro de indignação de alguns e que, tal qual o molusco nos últimos tempos de matança da poluída Lagoa Mundaú, não se asfixie nos gases venenosos formados pela estagnação das suas traiçoeiras águas.

No presente caso, as águas deslumbrantes e sedutoras do Poder Público.   


        

sábado, 4 de dezembro de 2010

Cineas Santos - Da importância do primeiro passo

É senso comum que qualquer jornada se inicia com o primeiro passo. Não poderia ser diferente. Para surpresa de todos, o conservador Bento XVI deu o primeiro passo rumo a uma caminhada que poderá salvar milhares de vidas: admitiu, ainda que em caráter excepcional, o uso da camisinha. Em entrevista concedida ao jornalista Peter Seewald, o Papa acenou, pela primeira vez, com a possibilidade de as prostitutas recorrerem aos preservativos para se protegerem do HIV. Para Michel Sidibe, diretor executivo da Unaids (agência da ONU para o combate à Aids), ”É um avanço significativo por parte do Vaticano. Esse movimento reconhece que um comportamento sexual responsável e o uso da camisinha desempenham um papel importante na prevenção do HIV” (Folha de São Paulo- 22/11/10). Católicos progressistas do mundo inteiro saudaram a declaração do pontífice como “uma vitória da razão e do bom senso”.

Bento XVI, como se sabe, em curto espaço de tempo, teve de enfrentar dois problemas muito sérios: a prática da pedofilia no seio da Santa Madre Igreja e a debandada de fiéis que, cansados da intolerância da Igreja, migram para religiões menos conservadoras. Ao condenar as pesquisas com célula-tronco, o divórcio, a união entre pessoas do mesmo sexo, principalmente, o uso de preservativos, a Igreja Católica parece trafegar na contramão de tudo. Exigir dos fiéis que, em pleno século XXI, encarem o sexo como “atividade (meramente) reprodutiva” é, no mínimo, um anacronismo.

Há quem afirme que “a novidade” de Bento XVI já chegou tarde. Em alguns países do continente africano, a Aids atingiu proporções epidêmicas. Estima-se que só na África do Sul existam 6 milhões de pessoas com HIV. É certo que não se pode responsabilizar apenas a Igreja Católica, com sua postura retrógada, pela disseminação dessa “praga contemporânea”. A pobreza e a ignorância têm peso muito maior.

Por oportuno, vale ressaltar que muito antes do nascimento da igreja de Cristo, egípcios, chineses e romanos já protegiam suas espadas com bainhas de tecido (linho), peles e tripas de carneiro. Esses avós dos preservativos modernos protegiam os combatentes das doenças sexualmente transmissíveis. Por acreditarem que tais enfermidades eram castigo da deusa Vênus, os romanos batizaram-nas com o nome de doenças venéreas.

Em 1564, o italiano Gabriel Fallopius produziu um preservativo de linho relativamente seguro e confortável. Por sua engenhosa invenção, ganhou os aplausos dos seus pares, mas foi condenado ao purgatório onde, até hoje, expia suas culpas por “incentivar a luxúria e a concupiscência”. Com seu gesto significativo, Bento XVI poderá salvar milhões de vidas em todo o mundo e propiciar um merecido descanso à sofrida alma do bravo Fallopius.

Assim seja!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O EXORCISMO



De tanto ser tentando pelo vizinho, ex-companheiro de copo, da sinuca e da porrinha, capitulou. Iria à sessão de trezentos-e-não-sei-quantos pastores na quarta-feira para ver como é que era. Se gostasse, frequentaria; caso contrário, o vizinho que lhe perdoasse, mas continuaria a adorar o deus Baco.

No dia acertado, foi um dos primeiros a chegar para melhor sondar o ambiente. Apesar de ser, até então, um católico, apostólico, romano, nunca fora chegado à igreja, muito menos a templos evangélicos. Achava padres e pastores mercadores da alma e da fé dos incautos e por eles nutria uma tremenda ojeriza. Os pastores principalmente, pois, estes, faziam verdadeira lavagem cerebral no infeliz que chegava ao ponto de adorar o seu líder espiritual acima de qualquer coisa.

Nesse dia os trezentos-e-não-sei-quantos pastores iriam promover uma faxina em regra para tirar o Diabo do corpo dos possuídos, prova irrefutável de seus poderes e da fragilidade espiritual dos fiéis. Já havia muita gente no recinto e por isso demorou a achar um lugar onde tivesse ampla visão do púlpito e ao mesmo tempo pudesse ser visto pelo amigo.

Sessão iniciada, viu os pastores suar a camisa em exercício de invocação do Divino e ficou impressionado com as exigências que faziam de Jota Cristo, como se fossem seus superiores hierárquicos ou se Cristo lhes devesse obediência por qualquer outro motivo. E, de tanto exigirem providências, um demônio se manifestou no corpo de um sujeito magricela, que pulou agitado no meio do corredor, espumando, gritando palavras incompreensíveis e ameaçando agredir as pessoas próximas a ele. Uma legião de seguranças, saída do invisível, segurou o manifestado e o levou para o local onde se daria o exorcismo. Dez minutos depois o magricela se acalmou e voltou tranquilo para o seu lugar, sorrindo e pedindo desculpas àqueles ameaçados por ele.

Os trezentos-e-não-sei-quantos pastores continuaram a sessão do bota-fora de capetas, dizendo que fora captadas ondas extra-sensoriais dando conta de mais demônios no recinto e que todos deveriam orar com mais fé e aumentar o dízimo. Era o amor ao vil metal que tornava o homem escravo de Satanás. “Desfaçam-se do canal de atração do Capeta! Esvaziem o bolso!” e o povo obedecia, enchendo as sacolas de dinheiro. Gente que, mais tarde, não teria como comprar pão para os filhos. Mas Deus daria um jeito de matar a fome, garantiam os trezentos-e-não-sei-quantos enviados do Divino.

No meio do alvoroço formado pelo esvaziamento de bolso, o candidato a evangélico notou um cidadão ao seu lado em estado de transe. Nada demais se o dito cujo não tivesse para mais de dois metros de altura por outro tanto de largura. A Bíblia, aberta, repousava sem a menor dificuldade na palma da mão do mastodonte, de tão grande que era. Lembrou-se do estrago que o magricela promoveu e temeu pela sua integridade física caso os tremores no corpo daquele cidadão fosse, de fato, o Capeta se manifestando. Dava sinais de alucinado. Haveria seguranças suficientes para dominá-lo? Não quereria o Capeta se aproveitar daquelas mãos gigantes para esgoelar uns quatro a cinco ali ao seu lado? Quem seria a primeira vítima senão ele, um descrente de tudo? Olhou ao redor em busca de outro lugar onde pudesse ficar e não viu nenhum. O templo estava lotado e ele mal podia se mexer. As pessoas oravam cada vez mais alto, respondendo ao comando dos pastores. Só havia uma saída: vigiar os movimentos do cidadão atentamente, à espera de algum gesto violento. O Inimigo é traiçoeiro e ele não iria abrir a guarda, apesar do aparente estado de pânico.

O cidadão pronunciava palavras desconexas, aumentando de volume todas as vezes que os trezentos-e-não-sei-quantos pastores exigiam de Jota Cristo que expulsasse os demônios presentes no corpo de alguns. Começou um autoflagelo, usando a Bíblia como chicote e não mais palavras se ouviam, mas grunhidos e estremecimento corporal, como se fosse ter um ataque de epilepsia a qualquer instante.

“Por que fui me deixar convencer por aquele sacrista, filho duma figa!?” pensou apavorado o ex-futuro evangélico, sem conseguir tirar os olhos das mãos do Possuído, que, àquela altura, pareciam mãos gigantescas. Sentiu um líquido quente escorrer pelas suas trêmulas pernas e os dentes começaram a ranger. O povo todo parecia uma multidão de alucinados e se imaginou sendo trucidado pelo “guarda-roupa” ao lado. Não. Não se deixaria abater por um endemoniado qualquer. Reagiria, lutaria e talvez desse tempo dos seguranças chegar.

Quando os enxota-diabos tornaram fortes seus apelos exorcísticos, o rebanho entrou em histeria coletiva. O possesso parrudo teve um forte estremecimento, largou a Bíblia no chão, levou as mãos à cabeça e, com cara de poucos amigos, virou-se para o lado do aterrorizado estreante na irmandade evangélica, que, sem encontrar um corredor de fuga, deu um salto felino sobre o banco traseiro, depois para o outro, pisando nas pessoas, e assim sucessivamente, até alcançar a saída do templo e sair em desembalada carreira rua afora, perseguido por uma multidão incentivada por trezentos-e-não-sei-quantos pastores incitantes:

– Peguem ele! Não o deixem fugir! Ele está possuído de Lúcifer, o rei dos capetas! Agarrem o possuído!

domingo, 28 de novembro de 2010

Cineas Santos - Lobato, intolerância e burrice

Monteiro Lobato (1882- 1948) foi um brasileiro atípico, ou seja, alguém que, movido por incontido entusiasmo, acreditava no Brasil, apostava no Brasil e, consequentemente, sofria com e pelo Brasil. Evidentemente, não foi o único. Na galeria dos que padeceram dessa mesma “enfermidade”, figuram: Mauá, Delmiro Gouveia, Heitor Villa-Lobos e o nosso engenheiro Sampaio, para citar apenas os que me vêm à memória sem maior esforço. É escusado afirmar que o país, com sua vocação pachorrenta, convive mal com esse tipo de gente. Não por acaso, os netos de Macunaíma procriam e prosperam a olhos vistos.

Lobato sofria daquela “inquietação de espírito” de que falava o poeta Bandeira. Tinha a compulsão de fazer: pintava, escrevia, ilustrava, traduzia, editava, divulgava, procurava petróleo e ainda encontrava tempo para, nas páginas dos jornais, envolver-se em polêmicas notáveis em defesa de suas ideias. Tantas fez que acabou preso em 1940 ao denunciar o Escândalo do Petróleo no Brasil. Para os esbirros da ditadura Vargas, o autor de Urupês “conspirava contra os interesses do país”. Irreverente, o escritor tratou o episódio com fina ironia: “O tribunal de Segurança, achando que eu estava um tanto magro, houve por bem mandar-me internar num dos melhores hotéis de S. Paulo – o Detenção Hotel, na Av. Tiradentes”. Ao longo da vida, foi vítima de outras desinteligências: acusaram-no de ser agnóstico, comunista, e até de “deformador do caráter” das crianças brasileiras. Resistiu a tudo bravamente.

O que Lobato não poderia imaginar é que, 62 aos após sua morte, em plena normalidade democrática, um grupo de sábios que integram o Conselho Nacional de Educação (CNE) iria acusá-lo de um crime muito mais grave: racismo. Como se sabe, pela lei brasileira, trata-se de crime inafiançável e imprescritível. Os guardiões do “politicamente correto” encontraram no livro As Caçadas de Pedrinho (1933) nítidas manifestações de “racismo e perversidade” e recomendaram ao MEC a exclusão do livro da relação das obras a serem distribuídas nas escolas públicas brasileiras. Em defesa de Monteiro Lobato, levantaram-se muitas vozes, gente que aprendeu a gostar de ler na sua caudalosa e colorida obra destinada ao público infantil e infanto-juvenil.

Curiosamente, enquanto se acende uma polêmica inútil para questionar a obra do iniciador da literatura infantil em nosso país, uma jovem universitária paulistana, insatisfeita com o resultado das urnas, disparou no Twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado”. Até onde se sabe, a cidadã não aprendeu isso na obra de Monteiro Lobato. Seguramente, nunca leu um livro dele. O que se vê, hoje, nas escolas brasileiras, com as exceções de praxe, é ignorância, intolerância e burrice. Consta que certa feita, Lima Barreto, que foi editado por Lobato, ao passar em frente a uma livraria onde beletristas discutiam o sexo dos anjos, ouviu o seguinte comentário: “Eis o Lima, bêbado como um gambá. A cachaça é a desgraça deste país”. Lima teria retrucado: “Não, meu camarada; é a burrice!”. Mais atual, impossível.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Luís Pimentel - Maluco são os outros

O homem estava sentado no chão, no canto à esquerda da porta do bar. Outro homem estava sentado em uma cadeira, com encosto para as costas e braço lateral para apoiar a mão, no canto à direita. No centro do cenário, cotovelos no balcão, um terceiro homem bebia cerveja e fumava cigarros.

O homem sentado no chão estava muito sujo, barba e cabelos desgrenhados e cheios de fuligem. Fedia muito. Tinha moscas à sua volta, ou mosquitos. Mesmo assim, mantinha a mão estendida, pedindo dinheiro. Não pingava um tostão sequer na mão do infeliz. O homem que usava a cadeira anotava jogo do bicho, daí o encosto para as costas e o braço de madeira, para apoiar a mão enquanto escrevia os números que os apostadores ditavam. O homem que bebia e fumava só bebia e fumava, vez em quando balançando a cabeça afirmativamente, concordando com alguma coisa que o dono do bar dizia. 

Lá pras tantas o homem que escrevia jogo do bicho olhou para o homem do balcão e para o comerciante. E disse:

– Vocês não acham que esse mendigo filho da puta está fedendo muito? E que isto espanta nossa freguesia?
– Eu acho – disse o homem que bebia e fumava. 

E imediatamente puxou um revólver da cintura. Mirou bem e atirou no mendigo, matando-o na horinha. Depois pagou a conta e saiu, assoviando uma canção que ninguém ali conhecia.

Até hoje o apontador de jogo e o comerciante se perguntam, intrigados, quem era aquele maluco violento que um dia tomou cerveja e fumou cigarros no balcão do bar.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Cor da Palavra - Salgado Maranhão, por Edna Lopes




A Cor da palavra

Leia
e nessa viagem
oxalá A Cor da Palavra te provoque
o choro
A Cor da Palavra te ilumine
os olhos
A Cor da Palavra
te conquiste
o riso
A Cor da Palavra te emudeça
de encanto...

Talvez você não conheça o poeta Salgado Maranhão, não conheça ainda seus escritos cheios de intensa luz poética, mas, se alguma vez ouviu “Sem você a vida pode parecer um porto além de mim/coração sangrando caminhos de sol no fim...” seu coração certamente não esqueceu e saberá que o letrista Salgado Maranhão é um dos melhores desse país.

O poeta esteve em Maceió e junto com Geraldo Carneiro falaram durante a Bienal Alagoana do Livro de 2009 sobre os seus DESMANDAMENTOS, um manifesto poético fantástico.


Por ocasião da bienal esteve também em nossa casa, mas eu estava em viagem de trabalho e apenas Tom e Vinícius partilharam de sua companhia.

Mas quero ratificar aqui que a experiência de ler A Cor da Palavra, a antologia do poeta e compositor maranhense Salgado Maranhão, da editora Imago/FBN com poemas de seus livros publicados desde 1978, é única. É fazer uma viagem maravilhosa pelo encantamento da palavra bem escrita, afinal não foi à toa que ele ganhou um prêmio Jabuti e outro Ribeiro Couto por dois de seus livros.

Tudo é especial nessa antologia. O objeto em si e seu conteúdo. Os títulos dos poemas, os poemas, a musicalidade em aliterações de nos assombrar pela simplicidade e beleza, o cuidado com a palavra escrita, o cotidiano exposto por olhos poéticos, o sentimento de pertença a um lugar tão dentro de si, tão universal. E especial e de pura poesia é também a dedicatória ao dono do livro: “Ao meu querido amigo Tom Torres, esta dívida de afeto e poesia. Com a minha melhor estima, Salgado Maranhão, Rio, 30/09/2010.” Juro que fiquei roxa de inveja, mas Tom me disse: “o livro também é seu...” Enfim, coisas de Felicidade Clandestina...

Mas sabe aquele livro que você acha que não vai acabar nunca de ler, porque o lê e relê? Porque um poema lhe dá saudade de outro que já leu e precisa voltar a ele? A Cor da Palavra é assim. Loucura minha, talvez... Em mim a lucidez do sentimento de eternidade. Em mim o encanto, o choro, o riso e o reencontro com a beleza da palavra, poesia da vida.


Mais sobre o autor:

Poeta. Letrista. Jornalista.
Nasceu no povoado de Cana Brava das Moças, na cidade de Caxias, interior do Maranhão, onde morou trabalhando na roça.
Aos 15 anos, ainda adolescente, mudou-se com os irmãos e a mãe para Teresina, Piauí, onde foi alfabetizado. Escreveu artigos sobre música para um jornal local e conheceu Torquato Neto, que o incentivou a ir para o Rio de Janeiro, o que fez no ano de 1972. Torquato Neto também sugeriu que criasse um pseudônimo, segundo este, o nome José Salgado Santos parecia nome de arquivista e não de poeta.

Estudou Comunicação na Pontifícia Universidade Católica (PUC).
Terapeuta corporal, foi professor de tai chi chuan e mestre em shiatsu.

A partir de 1976 colaborou em várias publicações com artigos e poemas, como a revista "Música do Planeta Terra", a convite de Júlio Barroso, então editor da revista, na qual também colaboravam Sérgio Natureza, Caetano Veloso, Ronaldo Bastos, Jorge Mautner e Jorge Salomão, entre outros. Em 1978 foi um dos organizadores, com Sergio Natureza e Moacyr Félix, do livro "Ebulição da escrivatura - Treze poetas impossíveis" (Ed. Civilização Brasileira, 1978, RJ), coletânea que reuniu diversos poetas, como Sérgio Natureza (assinando Sérgio Varela), Antônio Carlos Miguel (sob o pseudônimo de Antônio Caos), Éle Semog, Mário Atayde, Tetê Catalão, entre outros.

Publicou poemas e artigos na revista "Encontro com a Civilização Brasileira" (1978). Nos anos seguintes, publicou "Aboio" (cordel/ Ed. Corisco -Teresina - 1984), "Punhos da serpente" (poesia/ Ed. Achiamé, RJ, 1989), "Palávora" (poesia - Ed. Sette Letras, RJ, 1995), "O beijo da fera" (poesia - Ed. Sette Letras, RJ, 1996) e "Mural de ventos" (poesia - Ed. José Olympio, RJ, 1998).

Em 1998, ganhou o prêmio "Ribeiro Couto", da União Brasileira dos Escritores (UBE), com o livro "O beijo da fera". No ano seguinte, com o livro "Mural de ventos", foi o vencedor do "Prêmio Jabuti", da Câmara Brasileira do Livro, dividido com Haroldo de Campos e Geraldo Mello Mourão.

Em 2007 sua poesia foi estudada na Universidade de Brown, em Providence, Rhode Island, nos Estados Unidos.

Tem poemas traduzidos para o inglês, holandês, francês, alemão e espanhol.
Sobre ele, declarou seu conterrâneo Ferreira Gullar: "Salgado é um dos mais brilhantes poetas de sua geração e possui um trabalho de linguagem muito especial". *
E certamente se você conhece a boa música que se faz nesse país, conhece letras de Salgado Maranhão, pois suas parcerias são com nada mais nada menos que Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Ivan Lins, Moacyr Luz, Zé Américo, Xangai, Herman Torres, Vital Farias, Mirabô Dantas e Carlos Pita. Constam entre seus intérpretes, além dos parceiros, Zizi Possi, Rita Ribeiro, Alcione, Elba Ramalho, Rosa Maria, Amelinha, Amélia Rabello, Selma Reis, Juliana Amaral, Zezé Gonzaga, O Terço, Gilberto Alves, Ney Matogrosso, Zé Renato, Zeca Baleiro e tantos outros em suas mais de 40 composições gravadas, além de inéditas com João Donato, Tunai, Zeca Baleiro, Renato Piau e Chico César.”**

As músicas? Há um cd maravilhoso, AMORÁGIO, com interpretações incríveis do projeto Poetas da Canção, selo SESCRIO.SOM, uma pequena amostra da genialidade do poeta, em canções maravilhosas. Leia o livro, ouça o cd.





Nota do blog - do poeta recebi o seguinte comentário: 

"Ah, meus queridos, vocês são demais! Das coisas que, recentemente, falaram sobre mim e o meu trabalho, essa foi a que mais me tocou. Pelo fato de que, quem fala, desfrutou (ou desfruta) verdadeiramente dos meus poemas: lendo, relendo, percebendo com a afetividade que a poesia exige, as sutilezas guardadas cuidadosamente para o leitor sensível. Desde já, meu querido Tom, agradeço, efusivamente, o carinho seu e da Edna, e só posso lhes dizer que eu sou de quem me ama. Beijão, Salgado Maranhão".

domingo, 21 de novembro de 2010

Antonio Torres - Representações do Cotidiano Escolar Em Textos Literários

Palestra do escritor Antonio Torres no Forum de Crítica Cultural, realizado pela UNEB - Universidade Estadual da Bahia - na cidade de Alagoinhas, novembro de 2010.


            
                                               1.

Comecemos por um episódio extraído da página 73 do Dicionário amoroso da língua portuguesa, livro organizado pelo escritor carioca Marcelo Moutinho, juntamente com o português Jorge Reis-Sá, e publicado em 2009 pela editora Casa da Palavra, do Rio de Janeiro. O episódio em questão está no capítulo dedicado à palavra Saudade, no qual ela mesma, no papel de narradora de sua própria história, evoca um professor que sofre de nostalgia do tempo em que a escola era risonha e franca, com a cantoria de hinos (Avante, camaradas, ao tremular do nosso pendão... Glória aos homens, heróis dessa terra, essa pátria querida, que o nosso Brasil...), e a declamação de poemas de igual fervor patriótico.  

 Na evocação da personagem chamada Saudade, o professor pigarreia, para desembargar a sua emocionada voz, e pergunta para uma platéia imaginária:

- Quem poderá aprofundar melhor do que qualquer outra pessoa as singularidades poéticas que se enrodilham na essencialidade dos sentimentos humanos e suas expressões vocabulares, senão um poeta?

Um coro de meninos responde:

Ai que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais

           Quem nunca teve saudade da escola onde se aprendia a ler... lendo em voz alta, recitando e cantando, que atire a primeira pedra! Os tempos são outros, claro. E outras são as escolas e as poesias. Do tom nostálgico do romântico Casimiro de Abreu chega-se à consciência do mundo no modernismo de Lêdo Ivo, cuja obra poética está reunida numa edição da Topbooks* de mais de mil páginas. É dele um caso exemplar de representação do cotidiano escolar num texto literário, e que, ao mesmo tempo, comprova que para a modernidade o que importa é observar a singularidade na qual o sujeito se insere num tempo e espaço determinados, reinventando as coisas, as relações humanas, enquanto busca tratar os velhos sentimentos de uma forma nova. Já o romantismo valoriza a emoção, o individualismo, o sofrimento amoroso, o passado etc. Agora, passemos a palavra ao nosso contemporâneo Lêdo Ivo:

Primeira lição

Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler.

Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar.

E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes.

Um dia num muro
Ivo soletrou
a lição da plebe.

E aprendeu a ver.
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?

Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.

Neste poema, a memória do aprendizado das primeiras letras leva ao processo dialético do crescimento humano, da formação do cidadão (Um dia num muro/ Ivo soletrou/ a lição da plebe). Como se o poeta quisesse nos dizer que nunca é demais lembrar que tudo começa mesmo é na escola, onde Ivo viu a uva/ e aprendeu a ler.

                                                2.  

                        Essa escola, porém, demorou a entrar nas nossas vidas. O sertão onde nasci – por exemplo -, só passou a ter ensino público na década de 1940. Antes, ali havia apenas um abnegado e severo professor particular, com o qual se aprendia a assinar o nome e pronto. Ele se chamava Laudelino Mendonça, o “Pai Lau”, que hoje é nome de rua. Mas quando apareceu a professora Serafina, tudo mudou. Já no seu primeiro 7 de setembro no comando daquela escola, ela pôs os meninos em cima de um palanque para recitar Castro Alves (Auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança, estandarte que a luz do sol encerra, as divinas promessas da esperança), Olavo Bilac (Criança, ama com fé e orgulho a terra em que nasceste!) e tantos mais. E o povo chorou. Era a chegada de um novo tempo. Agora os meninos dali iam aprender mais do que assinar os seus nomes.

            Recuando a anos anteriores, chegaremos à escola do professor Padilha, no romance “São Bernardo”**, de Graciliano Ramos, cuja primeira edição é de 1937. Ela rende entrechos decisivos na história de Paulo Honório, um criminoso que, ao deixar a prisão, passa por cima de tudo e de todos, até se transformar num grande fazendeiro no estado de Alagoas, tornando-se “o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente, empreendedor, cruel, que não vacila diante dos meios e se apossa do que tem pela frente, dinâmico e transformador”, nas palavras de João Luiz Lafetá. Tanto que ele constrói a escola visando um bom negócio, que agradaria ao governador e, portanto, poderia lhe render alguma vantagem. Coincidentemente, ao tomar essa decisão, Paulo Honório ouve uma conversa “elogiando umas pernas e uns peitos”. Pergunta: “De quem são as pernas?” Então fica sabendo que são de Madalena, uma professora, bonita, loura, que está entre os vinte e os trinta anos. A partir desse momento Paulo Honório começa a pensar em se casar  

            Páginas adiante, ele conhecerá dona Glória, tia de Madalena, que lhe diz sentir pena da sobrinha “encafuar-se num buraco”, pois havia feito um curso brilhante.

            - Faz pena – concorda Paulo Honório. E acrescenta: - Isso de ensinar bê-a-bá é tolice. Perdoe a indiscrição, quanto ganha sua sobrinha ensinando bê-a-bá?

          Dona Glória baixou a voz para confessar que as professoras de primeira entrância tinham apenas cento e oitenta mil-réis.

          - Quanto?

            - Cento e oitenta mil-réis.
           
            Ele se espanta e diz que “faz até raiva ver uma pessoa de certa ordem sujeitar-se a semelhante miséria”, e se gaba de ter empregados que nunca estudaram e são mais bem pagos. E pergunta por que dona Glória não aconselha a sobrinha a procurar outra profissão. E pior: recomenda um meio de as duas, tia e sobrinha, ganhar dinheiro a rodo: criando galinhas.

            O duro realismo desse diálogo nos faz lembrar que quem o escreveu tinha conhecimento de causa. Como sabemos, Graciliano Ramos foi presidente da Junta Escolar de Palmeira dos Índios, em 1927, na qual se elegeria prefeito, em 1928, e onde, em 1932, fundou uma escola na sacristia da Igreja Matriz. E para completar, ele foi nomeado Inspetor Federal do Ensino Secundário, em 1939, ou seja, já depois da publicação do “São Bernardo”. Quanto à sua criatura, estava mesmo era fazendo rodeios para chegar à Madalena, secretamente desejando tê-la como moradora da sua fazenda, não como professora, mas como esposa. E assim Madalena entra para a história como uma personagem nuclear de um drama rural brasileiro de alguma maneira comparável ao da Desdêmona de “Othelo”, a célebre peça teatral de William Shakespeare.

             A diferença de sensibilidades, para não dizer de estatura intelectual, moral e etc, levaria Paulo Honório e Madalena a atritos que culminariam num desfecho trágico. E a escola sempre entrava no rol das desinteligências do casal, conforme podemos ler no capítulo 21 de “São Bernardo”:

“Foi à escola, criticou o método de ensino do Padilha e entrou a amolar-me reclamando um globo, mapas, outros arreios [...] Quando a fatura chegou, tremi. Um buraco: seis contos de reis. Seis contos de folhetos, cartões e pedacinhos de tábuas para os filhos dos trabalhadores. Calculem. Uma dinheirama tão grande gasta por um homem que aprendeu leituras na cadeia, em carta de ABC, em almanaques, numa bíblia da capa preta. Mas contive-me. Contive-me porque tinha feito tenção de evitar dissidências com minha mulher e porque imaginei mostrar aquelas complicações ao governador quando ele aparecesse aqui. Em todo caso, era despesa supérflua.”
 
            Quer dizer, Paulo Honório não achava os custos do material escolar um investimento, mas despesa. E supérflua. Qualquer semelhança com pessoas do Brasil de hoje não será mera coincidência.
                                                       
                                                                   3.

            Agora passemos à escola de Jorge Amado:

            “Para o menino grapiúna*** – arrancado da liberdade das ruas e do campo, das plantações e dos animais, dos coqueirais e dos povoados recém-surgidos – o internato no colégio dos jesuítas foi o encarceramento, a tentativa de domá-lo, de reduzi-lo, de obrigá-lo a pensar pela cabeça dos outros”.            
                    
             E nos estreitos limites do internato, ele seria salvo pela lembrança do mar de Ilhéus, da praia do Pontal, das marés mansas e das tempestades, enquanto um padre chamado Luiz Gonzaga Cabral – que substituíra o professor de português -, declamava para os alunos episódios de “Os Lusíadas”, em vez de sacrificá-los com análises gramaticais, tentando descobrir o sujeito oculto e dividir as orações da epopéia lusitana.

            “O primeiro dever passado pelo novo professor de português foi uma descrição tendo o mar como tema. A classe se inspirou, toda ela, nos encapelados mares de Camões, aqueles nunca dantes navegados [...] Prisioneiro no internato, eu vivia na saudade das praias do Pontal onde conhecera a liberdade e o sonho. O mar de Ilhéus foi o tema da minha descrição”.

             Como o padre levara os deveres para corrigir em sua cela, na aula seguinte ele anunciou a existência de uma autêntica vocação de escritor naquela sala de aula. E pediu que os alunos escutassem com atenção o dever que ele ia ler, afirmando que o autor daquela página (que acabara de fazer 11 anos) seria no futuro um escritor conhecido.

            “Passei a ser uma personalidade, segundo os cânones do colégio, ao lado dos futebolistas, dos campeões de matemática e de religião, dos que obtinham medalhas. Fui admitido numa espécie de Círculo Literário onde brilhavam alunos mais velhos. [...] O padre Cabral tomou-me sob sua proteção e colocou em minhas mãos livros de sua estante. Primeiro ‘As viagens de Gulliver’, depois, clássicos portugueses, traduções de ficcionistas ingleses e franceses. Data dessa época minha paixão por Charles Dickens [...] Recordo com carinho a figura do jesuíta português erudito e amável... sobretudo por me haver dado o amor aos livros, por me haver revelado o amor da criação literária, que me ajudou a suportar aqueles dois anos de internato, a fazer mais leve a minha prisão, minha primeira prisão.”              

                                                                        4.

As memórias de Jorge Amado nos pedem um rápido retorno à escola de Graciliano Ramos, não a que ele “construiu” em “São Bernardo”, mas a rememorada numa crônica intitulada “O Barão de Macaúbas”, do seu livro “Infância”****:

            “Foi por esse tempo que me infligiram Camões, no manuscrito. Sim senhor: Camões, em medonhos caracteres borrados – e manuscritos. Aos sete anos, no interior do Nordeste, ignorante da minha língua, fui compelido a adivinhar, em língua estranha, as filhas de Mondego, a linda Inês, as armas e os barões assinalados. [...] Deus me perdoe. Abominei Camões...”              

            Rubem Braga também nos legou uma memorável representação do cotidiano escolar. Em sua crônica “Aula de inglês”*****, com toques amenos que chegam a lembrar os de Machado de Assis, ele dá uma verdadeira aula... de como escrever com sagacidade e leveza. Começa com uma professora a mostrar um objeto para o aluno, perguntando: - Is this an elephant? Como o aluno demora na análise do objeto, a professora fica apreensiva. Mas quando afinal responde, negativamente, e com convicção, ela suspira, satisfeita. A aula prossegue como um teste de conhecimento vocabular na língua inglesa, marcado pelo suspense no silêncio entre pergunta e resposta. Ao final, a professora festeja a vitória do aluno tão efusivamente que o deixa perturbado, sentindo, ao mesmo tempo, vergonha e orgulho.

            “Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja, alguns belos cachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o embaixador britânico, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:

            - It’s not an ash-tray!”

                                                                        5.

                                         O estojo escolar de Cony

            Está no livro “Crônicas para ler na escola”, de Carlos Heitor Cony, publicado pela Editora Objetiva, com apresentação da professora Marisa Lajolo. E vai aqui na íntegra, com autorização do autor:

            Noite dessas, ciscando num desses canais a cabo, vi uns caras oferecendo maravilhas eletrônicas. Bastava telefonar, e eu receberia um notebook capaz de me ajudar a fabricar um navio, uma usina nuclear, uma estação espacial.

            Minhas necessidades são mais modestas: tenho um PC mastodôntico, contemporâneo das cavernas da informática. E um notebook da mesma época que começa a me deixar na mão. Como pretendo viajar esses dias, habilitei-me a comprar aquilo que os caras anunciavam como o top do top em matéria de computador portátil.

            No sábado, recebi um embrulho complicado que necessitava de um manual de instruções para ser aberto. Depois de mil operações sofisticadas para minhas limitações, retirei das entranhas de isopor o novo notebook e coloquei-o em cima da mesa. De repente, como vem acontecendo nos últimos tempos, houve um corte na memória. Tinha 5 anos e ia para o jardim de infância. E vi diante de mim o meu primeiro estojo escolar.
             
            Era uma caixinha comprida, envernizada, com uma tampa que corria nas bordas do corpo principal. Dentro, arrumadas em divisões, havia lápis coloridos, um apontador, uma lapiseira cromada, uma régua de vinte centímetros e uma borracha para apagar meus erros.

            Da caixinha vinha um cheiro gostoso, cheiro que nunca esqueci e que me tonteava de prazer. Fechei o estojo para proteger aquele cheiro, que ele ficasse ali para sempre, prometi-me economizá-lo. Com avareza, só o cheirava em momentos especiais.

            Na tampa que protegia estojo e cheiro, havia estampado um ramo de rosas vermelhas que se destacavam do fundo creme. Amei aquele ramalhete – olhava aquelas rosas e achava que nada no mundo podia ser mais bonito.

            O notebook que agora abro é negro, não tem nenhuma rosa na tampa. E em matéria de cheiro, é abominável. Cheira a telefone celular, a cabine de avião, ao aparelho de ultrassonografia onde outro dia uma moça veio ver como sou por dentro.

            Piorei de estojo e de vida.

                                                                        6.
                                                                                 
                       Duas representações teatrais inesquecíveis

             A primeira: “Apareceu a Margarida”, de Roberto Athayde. Escrita quando o autor tinha apenas 22 anos, esta peça fez um extraordinário sucesso no Brasil na década de 1970, e foi encenada em mais de 30 países. Trata-se de um monólogo em que a metáfora do poder se encarna em Dona Margarida, professora primária que diz ser uma segunda mãe para os alunos, e só querer o bem deles, mas que usa métodos autoritários, ilógicos, neuróticos e violentos. À medida que a aula avança, os alunos-espectadores se vêm dominados pelo terror, entre o espanto e situações cômicas. Esta peça marcou profundamente a carreira teatral de Marília Pêra, que nela, segundo a crítica da época, revelou qualidades de atleta, acrobata, palhaço, mulher atraentíssima, monstro, e atriz completa, que coloriu o longo discurso da professora Margarida com surpreendentes mudanças de tom, tempo e intenção.

Segunda: “A aurora da minha vida”, de Naum Alves de Souza. Ano: 1981.
             O título foi, obviamente, inspirado em “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu. Trata-se de um texto teatral que nasce das recordações de um senhor sobre a sua infância, ao visitar a sua velha escola, quando revive o seu passado escolar. Articulada em quadros independentes, nos quais decorre um longo período de tempo, a peça oferece a cada integrante da classe de aulas o aprofundamento de suas relações consigo mesmo e com o mundo.

            São oito personagens/alunos que se alternam com alguns professores, envolvendo um retrospecto às vezes nostálgico, às vezes cômico ou crítico, quando associa as deformações provocadas pelo regime militar ao ambiente das escolas.   

            Pela sua alta comunicabilidade, “A aurora da minha vida” foi um dos maiores sucessos teatrais da década de 1980, “despertando no espectador a lembrança de fatos muito vistos e vividos, e acumulando impressões, conclusões, associações de idéias que remetem à ternura das coisas familiares”, de acordo com a revista “IstoÉ” de 6 de julho de 1981. Arquétipos, os personagens revelam tipos comuns nas salas de aula de todos os tempos, e os condicionamentos que justificam as suas condutas. E as platéias, que vivem em outros padrões, mesmo se comovendo ao relembrar vivências passadas, não deixam de confrontar, criticamente, o mundo velho com o novo.

E assim concluímos: nem todas as representações da escola risonha e franca são só nostálgicas. Há também as que se manifestam risonhas e críticas.
                                    ***********
*Ivo, Lêdo. Poesia completa. RJ: Editora Topbooks/ Braskem, 2004.               
**Ramos, Graciliano. São Bernardo: RJ, Editora Record. 1985, 44ª. ed.
***Amado, Jorge. O menino grapiúna: RJ, Editora Record. 2004, 22ª. ed.
****Ramos, Graciliano. Infância. RJ: Editora Record, S/d.
*****Braga, Rubem. 200 crônicas escolhidas: RJ, 2004, 22ª. edição.