quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Eu sou eu, nicuri é o Diabo



Tá lá um corpo estendido no chão. Em vez de um rosto, a foto estampada de um político sorrindo debochado para a sorte do eleitor. Antegoza o mórbido prazer de sacanear o povo. Mas o defunto não parece se importar com a foto nem se importunar com os homens de branco pisando seu corpo em pose para a posteridade. A multidão reunida, ora olha o corpo, ora olha o assassino, revólver fumegante na mão, em pose de valentão. Em outros tempos alguém gritaria:

- Corre que é Lampião! – e a galera debandava.

Mas não era o caso em questão. O morto, em vida, nunca tivera importância, por que teria agora que já não pode mais comer feijão? Morreu porque todos nós haveremos de morrer um dia e ele só fez se antecipar aos fatos. Pelo seu sorriso de morto estampado na cara, parece que morreu feliz. Mas, espere... não é o morto que sorri. É o seu assassino na fotografia que cobre o seu rosto.

Do meio da multidão surgiu serelepe o rapazinho do Site local. Finalmente uma crônica policial para ensanguentar o seu palavreado confuso. Antevia a manchete: “Dez tiros acidentais e à queima-roupa leva cidadão a conhecer o Paraíso antes da hora. O prefeito, autor dos disparos, pede desculpas à população por perturbar a ordem pública”. Não, assim não está bom. Está muito confuso. É melhor assim: “Prefeito atira no que não viu e mata quem queria matar. A família do morto pede perdão ao assassino pelo incômodo e promete pagar as balas que ele gastou”. Assim está melhor. Quem sabe se com essa manchete não ganhará o Prêmio Esso de Jornalismo?

O delegado, que ninguém nunca viu nem mais gordo nem mais fino, finalmente deu o ar de sua graça. Cumprimentou os homens de branco e puxou conversa com o assassino. Pareciam velhos amigos confabulando à mesa de um bar. Riram desenxabidos de uma piada sem graça. Os homens de branco também riram, e a multidão de puxa-sacos, que não ouviu a piada, aplaudiu. O delegado pediu aos homens de branco para se afastar, pois era necessário fotografar o morto para o laudo cadavérico. Era praxe. O caso já estava esclarecido: legítima defesa do prefeito.

Enquanto o delegado fotografava o corpo, o prefeito dava entrevista a uma rádio local. Estava no ar, ao vivo, pena que não fosse a cores. Falou e falou e falou bonito, disse um bajulador, mais tarde, à sua mulher. Ela não disse nem que sim, nem que não, só fez, “hum, hum”, e o bajulador interpretou como aprovação. 

Alguns vereadores apareceram distribuindo aparelho de rádio ao povo para que pudessem ouvir a entrevista. A torre de celular, que nunca funcionou, nessa hora liberou sinal para que se pudesse ligar para a Rádio e se solidarizar com o assassino, mas logo deixou de funcionar devido ao congestionamento da linha. Todo mundo queria dizer “Alô, prefeito, eu te amo!”, segundo o noticiado no Site local, horas depois.

O prefeito alegou legítima defesa da honra. O cidadão, logo cedo, estava no hospital esperando uma brecha na consulta, mas como só foi atendido três horas depois, reclamou das pessoas que furaram a fila. Ele, como prefeito e médico, podia atender de acordo com o grau de interesses políticos, vez que não precisava do financeiro para clinicar. Era rico. Podre de rico e podia tudo. E quem era aquele Zé Mané para contestar suas preferências? Dias antes deixara bem claro naquela rádio quem era que mandava no pedaço: uma paciente reclamou das longas horas de espera no consultório e ele a mandou tomar naquele lugar. Ela, e quem mais se atrevesse a reclamar do seu procedimento. Fazia um favor ao povo sendo prefeito daquela cidade e ai daquele que ousasse lhe contrariar. 

Nesse dia a Oposição o intitulou de Dr. Arrogância. Ah! Não. Não foi a Oposição. Esta se vendeu no segundo dia de mandato do Zeca Diabo do Sertão. Mas quem foi afinal?

O delegado deu os trabalhos por concluído, o repórter desligou o microfone, o rapaz do Site pediu a alguém para fotografá-lo beijando o prefeito, e este, antes de ser carregado nos braços do povo até o bar ao lado, receitou remédio para lombriga a um rapaz que se queixou de surdez temporária por causa dos estampidos.

Enquanto o carro do lixo não levava o corpo para o monturo, um cachorro se deliciou com o sangue espalhado na calçada.

3 comentários:

maria olimpia alves de melo disse...

Não tinha um contozinho de Natal para contar não? Nossas tristezas precisam de folga.

Tom do Junco disse...

Pois é: a desgraça não dá folga, minha amiga. Mas vou arranjar um conto de natal pra nós.
Beijos.

Barrabaz disse...

Poizé, Tom. Estamos praticamente vivendo nesses trágicos dias. Espero, de coração, que pelo menos em relação a esse post, a vida não imite a arte. Abraço pra ti, feliz natal!