terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Luís Pimentel - Rosa-Macabéa-Clarice

Rosa de casa para o trabalho. Do trabalho para casa. Para o fogão, comida feita às pressas, o banho de pingos regrados, a camisola que só possui o seu cheiro, jamais se misturou com o cheiro de um homem. Rosa para o vaso sanitário e o papel higiênico áspero. Do banheiro para o quarto. Do vaso para o colchão irregular. E ao fundo da noite. Ao calor que o ventilador de hélice quebrada não dá conta.

Rosa veio do sertão. De qual? De tantos. De casa, no quarto alugado na Tijuca, para o trabalho na Rua do Carmo, no Centro. Rosa-Macabéa no ônibus. No metrô. Queimando o corpo no calor do corpo que se esfrega no seu; é assim, vagão lotado. Calor de labaredas que vão com ela, presas às costelas. Alívio só no chuveiro pingapingando na testa.

“Você me lembra uma personagem de Clarice. Da hora da estrela”. Cantada mais besta.
Depois é se estirar na cama, esfregando a camisola entre as pernas, até não suportar mais o cheiro. Do trabalho para casa. Da noite para o dia. Rosa não conheceu Macabéa, nem Clarice. Já perdeu a hora, não viu a estrela.

De manhã bem cedo, o café preto quentinho. Diz para si mesma que um dia ainda vai prová-lo na mistura com veneno de rato.



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