sexta-feira, 11 de setembro de 2009

11 de Setembro - O Dia Que Não Acabou


O 11 de setembro é uma data emblemática. Não pelo ataque às Torres Gêmeas patrocinado por Bin Ladin, mas pelo dia que decidiu o fim da greve do maior pólo petroquímico das Américas, o Pólo Petroquímico de Camaçari, no dia 11 de setembro de 1985.

Também foi no dia 11 de setembro de 2008 que centenas de trabalhadores, sumariamente demitidos e implacavelmente perseguidos pela ditadura remanescente nos porões da Nova República, tiveram seu status de perseguidos políticos reconhecidos pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em julgamento ocorrido no auditório da Biblioteca Pública dos Barris. A reparação a qual fizeram jus, por maior que tenha sido, não apaga de suas almas os anos de privações e necessidades que passaram. A ditadura, através do braço que ficou no ramo químico/petroquímico (o general Geisel foi o seu principal mandatário até a reforma feita pelo Governo Collor), transformou-os num exército de párias, na legião dos condenados.

Hoje, aproveito a data, para publicar duas crônicas e um poema deste que vos escreve com o mote da greve. “UM MINUTO DE SILÊNCIO” foi escrito e publicado no Natal de 84 no jornal do sindicato, como forma de sensibilizar a classe patronal a fornecer nosso paradigma salarial que serviria como base de nossas reivindicações perante a Comissão de Anistia. “A GREVE QUE [NÃO] ABALOU O MUNDO” foi apresentada como tese no Congresso dos Petroleiros e Petroquímicos, realizada no ano passado. E “ORAÇÃO DO MORCEGO”, foi o poema que abalou as estruturas emocionais no dia 11 de setembro de 1985, na assembléia do Cine Nazaré. Lida pelo então secretário do Sindiquímica, Jacques Wagner, hoje governador da Bahia, não houve quem não fosse às lágrimas tamanho o impacto emocional. Esse poema foi publicado no jornal do sindicato e eu me tornei um proscrito.

“Morcego”, no jargão sindical, é aquele trabalhador que se alija do seu direito reivindicatório para se encostar à sombra daquele que luta por dias melhores.

UM MINUTO DE SILÊNCIO


Agosto de 1985. O Pólo Petroquímico de Camaçari vivia o seu apogeu produtivo. As unidades operavam a 150% de sua capacidade nominal de carga. Algumas indústrias, a exemplo da Copene, começavam a ampliar suas plantas operacionais. Duplicar era preciso. A demanda era maior do que a oferta.

O país vivia a distensão política, depois de duas décadas de ditadura militar. Embora se chorasse a morte de Tancredo Neves, ocorrida em situação misteriosa em 21 de abril desse mesmo ano, se respirava o alívio da Nova República, presidida por José Sarney e tendo Ulisses Guimarães como timoneiro do Congresso Nacional.

Os trabalhadores da indústria química/petroquímica lutavam pela equiparação salarial com a Petrobrás. O adicional de turno de 88,5% era a principal bandeira reivindicatória. Na época, os adicionais eram apenas de 56%, dois terços dos adicionais pagos na Petrobrás, a principal acionista das empresas do Pólo, através da Petroquisa. Era necessário se corrigir aquela injustiça. Afinal de contas, o patrão era o mesmo.

Não houve acordo. As empresas se mostraram intransigentes. O sindicato endureceu. Na queda de braço, levou a melhor este último, patrocinando o maior movimento paredista da história da petroquímica em todo o mundo. Havia em torno de sessenta indústrias no Pólo de Camaçari e todas elas pararam. Os patrões foram à Justiça. Perderam. O Tribunal Regional do Trabalho julgou a greve legal, decisão surpreendente para o modelo jurídico da época, atrelado, de corpo e alma, ao poder econômico. Davi vencia o Golias. Mais uma vitória do Sindiquímica.

Não demorou muito e veio a retaliação contundente e arbitrária dos donos do poder. De imediato foram demitidos 171 funcionários por justa causa, sendo que a Copene liderou a lista dos demitidos, com 71. Não tiveram direito a nada, nem mesmo de pegar seus pertences que ficaram nos armários de suas respectivas empresas. Os patrões, não satisfeitos com o final da greve, foram demitindo a conta-gotas, cada dia um, para não chamar a atenção da sociedade. A cada demitido, o estigma de uma lista negra invisível que negava o acesso do inditoso grevista a todo e qualquer meio produtivo, tornando o cidadão um pária social.

Por alguns meses os desafortunados foram sustentados pelos colegas que tiveram a sorte de gozar dos loiros da vitória. Foi penoso, aviltante, humilhante e triste. Os demitidos, todos pais de família, tiveram suas vidas esfaceladas, moralmente destruídas. Alguns casamentos entraram em crise e muitos foram desfeitos. Filhos estranharam pais, colegas evitaram ex-colegas e a vida parecia não ter mais conserto. Alguns não resistiram e morreram clamando por justiça.

E hoje, dezenove anos passados, os patrões parecem que não perderam a intransigência nem arrefeceram o ânimo em prejudicar os herdeiros da Desdita. Ante a possibilidade dos mesmos serem beneficiados pela Lei da Anistia, negam fornecer um documento fundamental para que tal aconteça: o plano de cargo e salário praticado, hoje, pelas empresas. Sem esse documento, não há a menor chance de que os excluídos sociais um dia resgatem a sua dignidade de cidadão que em setembro de 1985 lhe foi usurpada.

Portanto, façamos um minuto de silêncio pelos que passam fome. Fome de Justiça e de Cidadania.



A GREVE QUE [NÃO] ABALOU O MUNDO


Embora hoje ninguém acredite, em 1985 houve uma greve que paralisou o então maior pólo petroquímico das Américas. O sindicato patronal não levou fé na força persuasiva do sindicato dos trabalhadores, na época denominado Sindiquímica, sob a presidência de Nilson Bahia, nem na união da peãozada, cansada de ser acachapada por seus superiores em seu idealismo utópico e no seu romantismo político, como se a empresa, apenas ela, fosse o começo, meio e fim, não havendo nenhuma brecha para abrigar o ideário econômico-social da massa oprimida e comprimida nas mazelas do capitalismo selvagem.

Eu era apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso e sem amigos importantes quando o sindicato bateu à minha porta pedindo guarida. Ou compreensão dos fatos. Operador de processo na Copene, vaticinei: este será um ano atípico, o ano dos morcegos e das cobras. Foi. Era cobra engolindo cobra, amigos traindo amigos, os morcegos mostrando suas mandíbulas. Nacionalmente havia a distensão política, com a posse de José Sarney na presidência da República. Enquanto ele planejava entrar para a ABL com o seu livro de poesias “Marimbondos de Fogo”, nós, peões do Pólo Petroquímico de Camaçari, vivíamos nossa prova de fogo, sem que nos dessem um fardão para vestir.

Os dias que antecederam a greve foram marcados por intensa angústia e assédio moral. Tanto por um lado, quanto pelo outro. Era o jogo de empurra, de informações truncadas, de disse-me-disse, guerra de nervos, espionagem e arapongagem. Companheiros seguravam a bandeira com força e fé, e prometiam marchar na unidade, comungar do princípio Uno que rege as forças naturais e mantém inalterada a harmonia do Universo. Seria “a união faz a força”, o axioma universal de todas as revoluções. Um peão sozinho não faz greve, no máximo, falta ao trabalho. Um por todos, todos por um: o sindicato.

Era preciso união, crescer o bolo dos grevistas e inchar. Inchar até explodir a veia aorta ou, antes disso, paralisar o coração. Era essa a lógica dos estrategistas de plantão. O grupo que estava trabalhando no horário de 15 às 23 horas seria rendido pelo grupo das 23 às 07 e, em vez de retornar à casa, ficaria no vestiário; o grupo que entraria às sete, se juntaria ao grupo que estava no vestiário e, não havendo rendição, o grupo que estava trabalhando teria que parar as unidades, por causa do cansaço, vez que o grupo que viria à tarde estava acampado no vestiário, ou, no jargão sindical, inchando. Isto foi o planejado.

Não houve transporte para o grupo da noite, o qual eu me incluía. Através de carros particulares, todos compareceram para render o grupo da tarde. O grupo da tarde, conforme o planejado, não saiu da Copene, ficando acampado no vestiário. No outro dia o grupo da manhã encontrou os portões fechados a cadeados. Não podia entrar. Criou-se um movimento na área externa. Depois de muito se conversar com o vigilante que tinha as chaves do portão, ele deu um vacilo, o pessoal tomou as chaves e abriu o portão principal e, em vez de aguardar no vestiário conforme o combinado, foi direto para as unidades, disposto a pôr a termo a angústia nossa daqueles dias. Exatamente às nove horas da manhã, o flare da Copene mostrou uma bola de fogo enorme, cujo calor se fez sentir a quilômetros de distância, sinal de que os compressores de eteno estavam parados. Este feito foi comemorado com urras e vivas, e muitos atiraram o capacete ao ar, à moda cowboy. Só faltaram dançar can-can.

Parada a Copene, as coligadas foram obrigadas a desligar seus motores. Quem não parou por livre e espontânea vontade, parou pela massa massacrada e humilhada. Pronor, Politeno, Nitrocarbono, Polialden, CPC, Acrinor, Metanor, Nitrofértil e todas as outras do conglomerado silenciaram suas máquinas em respeito ao maior movimento paredista da história da petroquímica que se tem notícia. E a relação capital/trabalho nunca mais foi a mesma, com os patrões engendrando mil maneiras de afastar o trabalhador de um convívio mais afetivo e harmônico, deixando-o isolado em sua área, sozinho com suas manobras operacionais e conversando com os fantasmas remanescentes de uma greve, cuja solidão dos últimos tempos o deixa na dúvida se ela foi, de fato, real ou apenas fruto de sua fértil imaginação.

Eu, que fiquei do lado de fora da cerca ao final da greve, impedido de gozar dos loiros da vitória, e, por conseguinte, alijado do processo produtivo do país no maior caça às bruxas promovido pelos resquícios da ditadura, chego à triste conclusão de que, se por um lado aquela greve não abalou a economia mundial, por outro promoveu um abalo sísmico no meu mundo e nas pessoas que giram em sua órbita.



Oração do Morcego


Meu Deus,
Quisera ter um coração grande
O quanto tanto a Tua bondade divina,
Para compreender a perfídia ignominiosa
Desses estranhos seres habitantes
Das profundezas obscuras das cavernas

E que fazem da noite o seu dia

Para tecer traições aos seus companheiros.

Meu Deus,
Que a minha mágoa de traído não seja menor
Que a angústia e os pesadelos do meu traidor,
Pois ela há de me fazer sorrir
Em algum momento, em algum lugar,
Quando por algum Judas eu passar
E os meus filhos compreenderem
Que os apertos materiais desses dias
Foi pelo pacto que fiz com minha consciência
E do compromisso que assumi como Homem.

Meu Deus,
Esse estranho ser
Que me induziu, que me cativou,
Que fingiu ser meu amigo e o meu drama compreender
E arrancou dos meus lábios o meu brado de guerra
Por melhores dias e uma justiça salarial
E depois recuou incontinenti,
Fascinado pelo brilho das trinta moedas
E acossado pela sua covarde traição,
Decerto, meu Deus, decerto,
Não viverá melhores dias
Que os dias daqueles que foram banidos
- Pais de família, honestos cidadãos,
Que, por culpa dele, foram jogados na rua
Como se fossem temíveis ladrões.

Meu Deus,
Quando a Tua ira se abater sobre o meu algoz
E o gosto pela vida ele não mais sentir,
Mesmo com os meus olhos vertendo lágrimas
E o meu coração dilacerado, estraçalhado,
Por mágoas profundas da traição,
Te peço, meu Deus, te imploro,
Tende piedade da consciência
E da alma desse estranho ser
Que me beijou como amigo
Pra sugar todo meu sangue.

Salvador, 11 de setembro de 1985.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A PRIMAVERA DE UM POVO






"Dai que meus sonhos não se banalizem, 
não sejam mortos em tão duras provas.." 
Adroaldo Ribeiro Costa

Primavera, teu nome é flores. Antigamente – e não tão antigamente assim – a chegada da Primavera era motivo de festas e de tema de redação nas escolas. No dia 22 de setembro os estudantes eram obrigados a se perfilar e a cantar o Hino da Primavera. Depois saíam em caminhada pelos parques e jardins em busca de inspiração para a redação. Namorados trocavam cartões, amantes enviavam flores e os jardins públicos e privados se esbaldavam em aroma floral. Havia também desfiles escolares pelas principais ruas e avenidas da cidade. 

Na Bahia de antigamente – e não tão antigamente assim – havia os jogos estudantis da Primavera e mobilizavam toda classe estudantil baiana em disputa de modalidades olímpicas. O auge acontecia no Ginásio de Esporte Antonio Balbino e na pista olímpica do estádio da Fonte Nova. Caravanas e caravanas de estudantes partiam em ruidosa romaria do interior para a capital e, durante duas semanas, Salvador abrigava milhares de rostos juvenis com suas alegrias e ansiedades características. Devo confessar que a Primavera, além de inspirar o espírito esportivo, aflorava nos corações o envolvente e mágico jogo da sedução. Houve inúmeros casos de casamento em data posterior ao evento. Casamentos estes que, às vezes, só duravam até o outono. Os jogos eram patrocinados pelo Governo do Estado, pelos Diários Associados – então a maior rede de notícias do Nordeste – e coordenados pelo saudoso professor Adroaldo Ribeiro Costa, um poeta dos maiores, autor do belíssimo e poético hino do Esporte Clube Bahia, educador de primeira linhagem e criador do projeto “Hora da Criança”, em 1943, no intuito de educar através da arte. Foi desse projeto que surgiram as irmãs canoras artisticamente conhecidas como “Quarteto em Cy”. O Hino da Primavera, também do professor Adroaldo Ribeiro Costa, era um hino ufanista e conclamava os baianos a sentir o amor pela pátria chamada Bahia. Advém daí o grande orgulho do baiano em ser baiano. 

Na Bahia somos doutrinados para sentir orgulho de nossa terra, de nosso povo, de nossa gente, desde os primórdios da infância. Antes de se estudar a História do Brasil ou de outros povos, estuda-se primeiro a História da Bahia, nossa geografia heróica, humana e social. Parte-se da premissa de que, se queremos ser valorizados pelos outros, primeiro temos que nos valorizar. 

Em sete de setembro de 1922 D. Pedro deu o Grito do Ipiranga e foi para um bordel tomar cachaça e fornicar com as putas. À sua sombra, soldados e bajuladores, pois isso não é coisa d’agora. Enquanto ele mostrava a sua espada para a Marquesa de Santos, o pau comia entre baianos e portugueses na província da Bahia. Por quase um ano o baiano lutou bravamente contra os homens d’el-rey para defender o então solo pátrio. Luta campal renhida e desigual, que ficou conhecida como a Batalha de Pirajá, por um acaso afortunado do destino os portugueses não levaram a melhor: vendo-se acossado, o comando em terra das forças baianas deu ordem ao soldado Lopes, corneteiro da tropa, para dar o toque de retirada e evitar mais mortes. O corneteiro se atrapalhou e, em vez do toque de retirada, mandou para o ar o toque de “avançar”. Os soldados índios, os soldados caboclos, os soldados negros escravos dos senhores de engenho do Recôncavo, aliados aos rotos soldados do Imperador, cresceram em coragem e fé e partiram com vontade para cima dos portugueses, que fugiram até o mar do Porto da Barra e lá entraram em suas naus e escafederam-se na Baía de Todos os Santos, perseguidos pelo almirante Lord Cochrane, contratado de última hora pelo Imperador para reforçar os bravos combatentes baianos na sua luta desigual. 

O Sete de Setembro na Bahia é apenas um feriado a mais, sem muitas comemorações. A festa cívica dos baianos acontece na data de aniversário em que o corneteiro Lopes pôs os lusos para correr. Apesar de ser Inverno, o Sol abre alas para as escolas desfilarem em trajes de gala. Alegorias revivem a trajetória vitoriosa, do Pirajá ao Campo Grande, local da última batalha, cujos monumentos lembram os heróis da independência da Bahia. 

Um dos bairros mais chiques de Salvador, a Vitória, ganhou esse nome em homenagem à data Magna baiana, inclusive a sua principal rua chama-se “Corredor da Vitória”, onde a tropa lusa levou as últimas bordoadas antes de fugir pelo Porto da Barra. 

Então, nesse histórico e inesquecível dia, 2 de Julho de 1823, teve início a Primavera do baiano, que lutou bravamente, não pelo seu Imperador, mas por uma pátria chamada Bahia.

(Agradecimentos ao compadre José Carlos Bahiana Machado Filho pelo empréstimo da fita k-7 com a música do Hino da Primavera da Bahia)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quase Um Deliquente

José Pedreira da Cruz



Foi num belo domingo de verão, na estação de trem “São Francisco” em Alagoinhas-Bahia, que um grupo de amigos e eu embarcamos num trem a vapor carinhosamente apelidado de Maria-Fumaça. Destino: Praia de Periperi, no subúrbio de Salvador.

Agarrado a um violão, eu fazia muito barulho, e me sentia o tal e qual. Não parava de tocar, cantar e de infernizar a vida dos passageiros do trem.

A viagem de ida foi tudo alegria, bagunça, sorrisos, música, enfim. Seria o meu primeiro contato com o mar. Tudo me parecia novo e divertido. Não via a hora de pisar na areia da praia, de catar conchinhas, de admirar o horizonte oceânico pela primeira vez e de me salgar nas águas do Atlântico.

A minha expectativa dentro do trem era intensa e, pela janela, os meus olhos varriam a paisagem à procura do tal mar, o qual eu imaginava estar escondido entre as verdejantes montanhas daqueles campos baianos.

A viagem parecia nunca acabar e a minha ansiedade aumentava a cada instante. Jamais havia me afastado da saia da minha mãe e me preocupava em ser tragado pelas ondas do mar, que na minha imaginação tinham vida e engoliam gente.

Chegamos a Periperi embaixo de chuva. Tempo fechado. Como praia e chuva não se combinam, não houve banho. Ficamos abrigados em casa de amigos, bebendo cerveja e cantarolando canções da época. Tudo transcorria num clima de festiva felicidade digna de nossas adolescências.

Em dado momento uma das cordas do violão se quebrou, interrompendo a cantoria.

– Acabou-se a festa! – falou alguém.

– Não! Não acabou. Vai continuar!

Encostei o violão numa cadeira e saí à procura de cordas. Entrei numa quitanda, se é que se podia chamar assim aquele barraco de tábuas velhas com algumas prateleiras apinhadas de garrafas de cachaça. O odor da aguardente se irradiava. Mal perguntei se havia cordas de violão ao balconista, alguém me segurou pelo braço e anunciou:

– Polícia! Mãos na cabeça e não se mexa.

Virei bruscamente a cabeça e dei de cara com um monte de policiais me apontando armas de fogo de todos os tipos e calibres. Exigiram meus documentos. Estava sem. Havia deixado juntos ao violão.

Depois de longo interrogatório, um dos policiais aproxima-se do meu cangote e, apontado sua arma para meus pés, sussurrou:

– Calma seu vagabundo! Não tente correr senão eu dou um tiro no seu pé, tá legal?

Outro, olhando dentro dos meus olhos, deduziu:

– Ele não é aquele sujeito que roubou a padaria do espanhol?

– É… Ele parece mesmo! – concordou seu parceiro.

– Diga pra mim, seu cafajeste: você não é fulano? – gritou, me chamando pelo nome do suposto ladrão da tal padaria do espanhol, e continuou me massacrando:

– Fala, cara, fala: como é o seu nome? Cadê seus documentos? E eu, no meio da roda daquele batalhão armado até os dentes, me borrava de medo. Respondi, gaguejando:

– Nam-nam, não, não, seu polícia! Eu não sou esse tal fulano, não! Eu me chamo Zé... - falei o meu nome e sobrenome, e acrescentei: nasci no Junco. Sou estudante. Moro em Alagoinhas. Vim pra cá de maria-fumaça; trabalho na funerária do seu Nenzinho. – e ainda apelei – o moço ai, do balcão, viu a hora que passei por aqui, bem cedo, tocando violão e cantando com um monte de garotas, não foi? Não foi? Pergunte a ele, pergunte, pergunte.

Recebi um tapa no pé-do-ouvido, em meio aos berros.

– Calaaado, seu filho-da-puta!

Rodopiei, quase caí, e nem pude sequer explicar quem eu era e onde estavam meus documentos. Mas de nada adiantava a minha palavra. Ela nada valia frente à ditadura. Não haveria acordo e eu provavelmente dormiria no xilindró. Já havia tomado um murro no pé-do-ouvido e a coisa estava feia.

E a minha mãe? Eu quero é a minha mãe - era somente o que eu pensava.

Ah! velhos tempos ditatoriais, onde qualquer farda tinha mais poder que a palavra!

Tentando me tirar daquela encrenca, o quitandeiro interveio a meu favor:

– Não, “seu” tenente! Acho que ele não é o tal ladrão que o senhor procura. – e concluiu – Eu vi a hora que ele passou por aqui, bem cedo, tocando violão e cantando com um monte de garotas. O que ele diz é verdade!

– É mesmo? Qual música você estava cantando? – um dos tiras me dirigiu a palavra, exigindo maior explicação. Creio que foi por mera gozação, mas, mesmo assim, cantarolei um trechinho:

– “… só quero que você me aqueça nesse inverno e que tudo mais vá pro inferno, ou,ou,ou.”

– Caalaado! - Gritou o chefe do grupo, o tal tenente, pondo ordem no recinto.

Por pouco, muito pouco, eu não me transformei em mais um turista de camburão. E isto graças a alguns colegas que percebendo a minha demora foram me salvar levando meus documentos e o violão.

Sentindo-me aliviado, parei de tremer. Um dos tiras ainda foi gentil ao me dizer:

– Cai fora seu fedelho!

Os camburões partiram festivamente cantando: ui-ui-ui-ui-ui-ui-ui.

Finalzinho da tarde. A noite descia uma escuridão pesada. Com uma tristeza danada, embarquei no Maria-Fumaça sem motivos para cantorias; sem me molhar no mar, sem paisagens a vislumbrar no negrume da noite e tendo tão-somente o barulho intermitente do trem a me distrair.




quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Saudade*





Por
Antônio Torres



Imagem: http://zurvan.files.wordpress.com/2009/05/saudade.jpg


Esta pequena dor à portuguesa

tão mansa quase vegetal

Alexandre O’Neill


Para isso fomos feitos.

Por isso temos longos braços para os adeuses.

Vinicius de Moraes


Eis o meu inescapável destino: ser ambígua por natureza. Trago no coração alegria e martírio, de que decorre uma tristeza que rima com beleza, a enovelar um sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações bem vividas. Em outras palavras: privação da presença de alguém ou de algo que muito se quer, ou a ausência de certas experiências e prazeres do passado, que se deseja reviver. Saudade assim até que não é ruim, eu tiro isso por mim, cantava o saudoso Luiz Gonzaga, o rei do baião, numa música popular que também dizia que saudade faz doer, amarga que nem jiló. Pode me chamar de uma faca de dois legumes, que corta na alma, ui!


Modéstias à parte, sou uma palavra para muita prosa e verso, ponteio de viola, conversa mole, papo perfunctório (perdão, leitores), devaneio, pieguice, riso e lágrima. E é aí que mora o perigo. O de ser a musa inspiradora dos suspiros e ais das mais compungidas almas deste mundo: Saudade, palavra triste, quando se perde um grande amor... Daí um célebre vate dantanho haver me definido como a presença da ausência. Outro, de gosto mais duvidoso, cravou-me um espinho cheirando a flor. E tome metáfora enternecedora servida em frasco de xarope e frases lapidares como as tumbas: Punge-me agora trágica saudade...


(Com a palavra um professor, saudoso das aulas de civismo, que incluíam a cantoria de hinos patrióticos e a declamação de poemas tão inolvidáveis quanto os boleros que ele gostava de dançar).


O professor pigarreia, para desembargar a sua emocionada voz. E ensina: “Quem poderá aprofundar melhor do que qualquer outra pessoa as singularidades poéticas que se enrodilham na essencialidade dos sentimentos humanos e suas expressões vocabulares, se não um poeta? E não precisa ser dos maiores. Basta que seja poeta”. Os meninos: “Ai que saudades que eu tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”. Vossos aplausos, por favor.


Ora dizem que sou intraduzível. Ora, que estou entre as dez palavras da língua portuguesa de mais difícil tradução. Ambiguidade é isso aí: altamente valorizada para consumo interno, não possuo valor de troca no mercadão universal das Letras. Tirando-se nuestros hermanos de habla hispânica, que têm lá a saudosinha Soledad, os demais tradutores devem me achar uma encrenca, uma pedra na língua deles. Mas quer saber mesmo? Meto-me em sapatos altos, vaidosíssima, toda vez que ouço essa história de que sou uma autêntica filha da última flor do Lácio, significando isto que tenho o latim no meu DNA. Descendo de Solitas e Sólus, quer dizer, de uma família chamada Solidão. É preciso dizer mais?


Mas digo: vindo há muito do tempo, não posso afirmar com exatidão em que dia, hora, mês e ano nasci, e se foi já no século VII, quando surgiu um conjunto dialetal galego-português no noroeste da Península Ibérica, ou mais tarde, quando os portugueses investiram contra os árabes, para a reconquista de suas terras dominadas por eles, e com isso o idioma alastrou-se pelo sul, lá pelas bandas dos Algarves, separando-se do galego e tornando-se o veículo de expressão de um novo reino; ou se foi quando o português se consolidou como língua literária, entre os séculos XV e XVI, cujo coroamento viria a acontecer com a publicação de Os Lusíadas, em 1572. Antes disso ele, o português, já havia feito muita travessia pelos mares, na voz dos intrépidos marinheiros que atingiram o Cabo Bojador em 1434, chegaram à foz do Congo em 1483, dobraram o Cabo da Boa Esperança em 1487, e deram com seus costados no Brasil em 1500. Eu fiquei em terra e me fiz ao mar ao mesmo tempo, a recitar: Cantando [me] espalharei por toda a parte, se a tanto me ajudar o engenho e a arte. Em terra, com os olhos cansados de olhar para o além, cantava La barca, um bolero que ainda ia ser inventado, séculos adiante, enquanto outra parte de mim seguia as pegadas em Ceuta do soldado Luís de Camões, e nos quinze anos mais em que ele se meteu em guerras na Índia, tendo sido ele próprio um herói da epopéia que escreveu. No regresso, pegou o mote Se me levam águas, nos olhos as levo, e disso saiu um poema que começa assim: Se de saudade morrerei ou não, meus olhos dirão... E nessas suas linhas, que podem me servir se não de certidão de nascimento, mas de batismo, ele via no espelho das águas a minha condição ambígua: Todas são salgadas, porém as choradas, doces me parecem. Enfim, se eram do mar, da saudade seriam. Navegar era preciso.


Eu nasci para marinheiro,

Mas pus os óculos e fiquei em terra.

Alexandre O’Neill


A esta altura parece claro que minha biografia começa mesmo é no tempo das grandes navegações. Quanta aventura, tanta desventura, conquistas e espantos, cobiça e sonhos. Feliz o tempo que passou, passou. Tempo tão cheio de recordações... Bota saudade nisso.


Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!


(Lágrimas de Portugal? Cá entre nós, isso não parece lavrado numa tabacaria da zona portuária, por um bardo alambicado que queria se passar por outra pessoa? E pessoa cujo estro iria deixar a posteridade a babar nas gravatas?).


Mas sim, assim me vêem, por séculos, seculorum, amém. Uma enlutada viúva à beira do cais, a salgar o mar de fados, boleros e guarânias, sambas-canções, toadas, valsas, xotes, maracatus e baiões, e a acenar para o navio que lá vai à linha do horizonte, já a adentrar a fronteira da nostalgia. E, enquanto o mundo gira e a lusitana roda, Portugal volta a cantar um dos maiores sucessos de sua música ligeira: Ó tempo, volta pra trás. Quem anda em busca do tempo perdido está sentindo o que? Sodade, mô bem, sodade.


Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Fernando Pessoa


Do heróico tempo ficou-se a ver navios. E com olhar esfíngico e fatal. E a fitar o futuro do passado, vendo entre a cerração um vulto baço, que torna. E de quem seria esse saudoso vulto cujo retorno se esperou, dia após dia, ano após ano, século após século? De quem poderia ser se não de O Desejado, o rei morto no campo de batalha em Alcácer-Quibir, no dia 4 de agosto de 1578, seis anos depois da publicação de Os Lusíadas?! Este, sim, salgou o mar com o mais transatlântico saudosismo legado ao mundo que o português criou, ao passar além da dor.


Eis-me aí: passar além da dor. Agora, sim, dá saudade da pessoa que escreveu isto, e não aqueles bafios marinhos lacrimosos e filosofantes, tudo vale a pena se a alma não é pequena, valei-me minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.


Haverá santa que me salve da poesia barata, a que deveras afaga e consola, e da qual nem aquela venerável pessoa ficou imune? Mas vamos combinar: uma coisa é o saudosismo individual, para consumo privado, sem perturbações da ordem pública; outra é o coletivo, que vem em cruzadas assustadoras em busca do futuro do passado, heil! Ideologicamente, porém, não favoreço apenas as margens direitas do mundo. Estou em todos os lados, todas as torcidas, correntes de pensamento, credos etc., onde quer que haja um coração que a seu modo sente saudade de tempos mais felizes – eis aí porque atualmente estou arrebentando nas bolsas dos sentimentos, nas quais a minha cotação atinge índices nunca dantes imaginados.


Recentemente encontrei num romance brasileiro um personagem a dizer para o retrato oval do seu finado avô – um fervoroso fiel à igreja católica, apostólica, romana -, que só sentia saudade de duas coisas: o tempo dos boleros e o tempo dos comunistas, embora não soubesse exatamente por que; talvez houvesse mais sonhos naquele tempo, ele acabou por concluir, ao final de seu solilóquio. Pode-se deduzir que uma saudade como essa é conseqüência dos estilhaços projetados pela queda do Muro de Berlim, acontecida em anos recentes do passado. Mas veja: um mapa mundi que não inclua a Utopia não é digno de consulta. Quem escreveu isso foi Oscar Wilde. E ele morreu no ano de 1900. Eu vim de longe e para longe vou, porque o ser humano está sempre sentindo falta de alguma coisa que acha que já teve melhor.


O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera.

Castro Alves


Presumivelmente cheguei ao Brasil acompanhando o movimento utópico dos barcos. Aqui me espraiei. Tanto mar, tanto chão, quanta selva. Então me desdobrei em duplo sentimento: oceânico e telúrico. Juntando os dois em um, dá a solidão de um país grande. No ano de 1836 tive a subida honra de ser homenageada em um livro que entraria para a história literária como o marco inicial do Romantismo brasileiro. Título: Suspiros poéticos e saudades. Chamemos isso de um desconvite à leitura. Autor: Gonçalves de Magalhães. Era o precursor de uma corrente que cantava o desgosto da vida, a infância, o amor impossível, a melancolia, a tristeza, ufa! O inefável poeta veio a se superar em outro volume, intitulado Cantos fúnebres.


Passos mais adiante, eu viria a me sentir muito mais bem tratada (ou retratada) nas mãos do maranhense Gonçalves Dias, que se consagrou como o primeiro grande poeta romântico do Brasil, e que sentia orgulho de ter em seu sangue as três raças formadoras do povo brasileiro, por ser filho de um comerciante português com uma mestiça de índios e negros. Pelo menos dois de seus poemas puxam a brasa para a minha sardinha: Ainda uma vez, adeus e Canção do exílio, este escrito quando ele cursava direito na Universidade de Coimbra e morria de saudades do Brasil: Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Com essa estrofe fica a sugestão de mote para o seguinte capítulo: Do quanto a saudade esteve, está e sempre estará no coração dos exilados. Mestrandos e doutorandos, mãos às teses.


Sim, sim, também tive alguma influência na lírica do pop star do Romantismo made in Brazil, e sua mais bela cabeleira, o baiano Castro Alves, que, embora tivesse colocado a sua pena a serviço de um mundo mais justo, comprometida com a construção de uma nova ordem social, e com a causa republicana e abolicionista, não deixou de ser também um flamejante poeta do amor e da melancolia. Na sua obra há pelo menos uns sete poemas com um Adeus no título. Em Horas de saudade, escreveu: No piano saudoso, à tua espera/ Dormem sono de morte as harmonias/ E a valsa entreaberta mostra a frase/ A doce frase qu’inda há pouco lias. Castro Alves e Gonçalves Dias foram os românticos brasileiros que deixaram saudades.


No Brasil se diz: “Triste é não ter de que sentir saudade”. E mais: “Saudade não tem idade”. Aqui me mimam, fazem-me cafunés, carregam-me nos colos, ora como vó coruja, ora como mãe gentil, ou mana do peito, ou filha querida, amada amante. E até me puseram no andor das 100 palavras para melhor conhecer o Brasil, espécie de breve dicionário afetivo japonês-português, publicado em 2008 dentro das comemorações do centenário da imigração japonesa. Não deu para entender nos caracteres nipônicos que palavra corresponde à saudade, mas o certo é que ganhei um verbete amoroso, assinado por Paulo Nathanael Pereira de Souza, um educador paulista já premiado pela Academia Brasileira de Letras. Arigatô.


Aqui tenho data: 30 de janeiro. É o Dia Nacional da Saudade. Por que 30 de janeiro? Naveguei (nada a ver com uma volta às minhas origens, pois, pois) na Internet e não encontrei nenhuma pista. Escolheram uma data e pronto, estamos conversados. Homenagem é igual a cavalo dado: não se olha os dentes. Além do mais, em vez de continuar a pesquisa em outras vias, liguei-me catatonicamente a um programa dedicado ao assunto, na televisão. Um repórter saiu às ruas para saber de que as pessoas mais sentem saudades. Um nordestino que mora no Rio disse que de sua terra natal. Um carioca mostrou-se saudoso do tempo em que sua cidade vivia em paz, sem a violência atual. Outros, de um passado mais glorioso no futebol brasileiro. La nave vá. Ontem os heróis eram os dos mares. Hoje, os dos gramados.


Por fim, mas não por último, registre-se que há brasileiros que passam por mim fingindo que não me conhecem. Para estes, saudade e melancolia são sentimentos retrógrados, reacionários, bregas. Múmias paralisantes. Melhor devolvê-las a Portugal - de onde nunca deveriam ter saído -, aos cuidados da alma imortal de Fernando Pessoa, aquele que em vida carregou nos dedos três anéis irreversíveis: a tristeza, a desgraça, a solidão.


Chega de saudade, decretou a dupla Vinícius de Moraes-Tom Jobim, ao compor a música tida e havida como o marco da Bossa Nova. Mas olha que coisa mais linda, mais cheia de graça: saudades do tempo de Tom e Vinicius. Cordiais saudações.


*Do livro Dicionário amoroso da língua portuguesa. Organização: Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá/ Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2009.