sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Oração do Morcego


Meu Deus,
Quisera ter um coração grande
O quanto tanto a Tua bondade divina,
Para compreender a perfídia ignominiosa
Desses estranhos seres habitantes
Das profundezas obscuras das cavernas

E que fazem da noite o seu dia

Para tecer traições aos seus companheiros.

Meu Deus,
Que a minha mágoa de traído não seja menor
Que a angústia e os pesadelos do meu traidor,
Pois ela há de me fazer sorrir
Em algum momento, em algum lugar,
Quando por algum Judas eu passar
E os meus filhos compreenderem
Que os apertos materiais desses dias
Foi pelo pacto que fiz com minha consciência
E do compromisso que assumi como Homem.

Meu Deus,
Esse estranho ser
Que me induziu, que me cativou,
Que fingiu ser meu amigo e o meu drama compreender
E arrancou dos meus lábios o meu brado de guerra
Por melhores dias e uma justiça salarial
E depois recuou incontinenti,
Fascinado pelo brilho das trinta moedas
E acossado pela sua covarde traição,
Decerto, meu Deus, decerto,
Não viverá melhores dias
Que os dias daqueles que foram banidos
- Pais de família, honestos cidadãos,
Que, por culpa dele, foram jogados na rua
Como se fossem temíveis ladrões.

Meu Deus,
Quando a Tua ira se abater sobre o meu algoz
E o gosto pela vida ele não mais sentir,
Mesmo com os meus olhos vertendo lágrimas
E o meu coração dilacerado, estraçalhado,
Por mágoas profundas da traição,
Te peço, meu Deus, te imploro,
Tende piedade da consciência
E da alma desse estranho ser
Que me beijou como amigo
Pra sugar todo meu sangue.

Salvador, 11 de setembro de 1985.

2 comentários:

A R Gurgel disse...

Parece que no passado nossos sonhos para o futuro eram mais bonitos. Lendo suas crônicas sobre a greve (na época meu esposo,que eu ainda não conhecia, trabalhava em Salvador - Petroleiro) e esta poesia lembrei da primeira grande greve dos trabalhadores em educação do RN, paralisamos 100% dos munucípios, fato nunca visto antes, nem depois. Hoje me pergunto onde foram parar os líderes sindicais, estudantis comprometidos com as causas de suas categorias. Assombra-me a forma como alguns sindicatos estão sendo conduzidos, a serviço deste ou daquele político. Chega de saudadosismo rss. Parabéns e obrigada pelos textos. Abraços.

Tom do Junco disse...

Nós paramos o maior Pólo Petroquímico da América Latina e o segunda maior do mundo. Nosso chefe maior era nada mais nada menos que o General Geisel e as consequências foram terríveis, sob o manto da Nova República. Em 11 de setembro de 2008 conseguimos o reconhecimento de perseguidos políticos e recebemos a anistia. Só que isso não repara, de modo algum, o sofrimento ao longo desses anos.
Obrigado pela visita.