segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Carta de apresentação

Sou Ronaldo Antonio por obra e graça de Maricas Coxeba, a escrivã do arraial do Junco, e do meu irmão mais velho, na época, jornalista do Jornal da Bahia, que um dia resolveu matar a saudade da roça e se arrepiou quando soube o meu nome:

- Mamãe, não tá vendo que Toninho não pode se chamar Tonho de Lisboa?! Isso é uma ofensa a qualquer cristão.

- Foi uma promessa que fiz, pra Santo Antonio de Lisboa, porque ele nasceu muito feio e fiquei com medo do seu pai fazer alguma maldade a ele pensando tratar-se de um monstro.

- Mas a senhora não sabe que é melhor ser feio com nome bonito do que bonito com nome feio?!

Dito isso, ganhou o caminho da cidade, o pequeno arraial do Junco, um amontoado de casas a desafiar a poeira, a seca e a solidão do sertão nordestino. Voltou quando a vermelhidão do crepúsculo cedia ao azeviche noturno. Trazia novidades:

- Conversei com Maricas Coxeba. Ela concordou em mudar o nome de Toninho. Tonho de Lisboa é coisa do passado. O nome dele agora é Antonio Ronaldo. “Antonio”, do seu santo, e “Ronaldo”, em homenagem a um grande amigo meu.

Maricas Coxeba, a escrivã, podia tudo. Ganhou esse nome por causa de um defeito na perna direita, que a deixava com o andar capenga, coxo. Achava-a ranzinza, implicante, metida a besta. Com o passar do tempo compreendi que era instinto de autodefesa. Vivia só, entre homens rudes, e a falta de companhia devia lhe consumir o espírito solitário. E a solitude da terra contagiava. As noites no arraial do Junco são tão silenciosas e melancólicas que até se ouve densamente as conversas dos fantasmas errantes que povoam a solidão noturna.

Ela teve a chance de me ferrar em duas oportunidades, porém não tomou nenhuma atitude hostil. Uma, foi quando descobriu dois sapinhos no leite que eu lhe entregava, mal o sol raiava, trazido da roça no lombo de um jegue. Era o truque de multiplicar o leite no tanque de Zeca Vieira, localizado no caminho entre a roça e a cidade. Em vez de contar para o meu pai, preferiu me pregar um sermão memorável, citando todos os preceitos morais, éticos, espirituais e religiosos que norteiam a vida do cidadão. Duas horas e meia de falatório. A outra, a qual lhe devo eterno agradecimento, foi ter me livrado do estigma de Tonho de Lisboa. Antonio Ronaldo, este sim, é que é nome!

Sendo Tonho de Lisboa de batismo e Antonio Ronaldo de registro, não senti nada mudar. Afora a professora Serafina que me chamava de Antonio, o resto da população me chamava de Toninho. Um ano depois nos mudamos para Alagoinhas e as professoras preferiram me chamar pelo sobrenome Torres. Os novos colegas acompanharam as mestras. Quando concluí o quinto ano primário, foi preciso me inscrever pro exame de admissão ao ginásio, uma espécie de vestibular de acesso ao ensino ginasial. Tive uma surpresa na hora de anexar a certidão de nascimento aos documentos exigidos: Antonio Ronaldo era mera fantasia.

A partir de então passei a existir, oficialmente, com o mesmo nome que trago até hoje. Nascido em 21 de fevereiro de 1956, sob o signo de Peixes, fui registrado em 21 de janeiro do mesmo ano, sob a regência de Aquário. Antes de ser, eu já existia. Sobrou a vantagem de poder escolher o signo de Aquário quando a maré não estiver pra Peixes. Ou vice-versa.

Em 1977, quando precisei do batistério pra me casar, tinha Ronaldo Antonio por nome oficial e Tonho de Lisboa por de batismo. A Igreja relutava em aceitar as minhas alegações da troca de nome. “Você é um meliante, um falsário, um transgressor das Leis e merece ser preso por falsidade ideológica”, me disse um bispo de Salvador. No meu caso, não valia a máxima: “Quem não tem a quem reclamar, reclama ao bispo”. Recorri ao padre Machado - que não cortava pau, porém estava na iminência de quebrar um grande galho - na paróquia do Rio Vermelho, companheiro de copo nas farras homéricas no bar de Diolino, que, depois de duas talagadas da batida de tamarindo mais famosa da Bahia, mandou o bispo às favas, ignorou os severos regulamentos eclesiais e autorizou a minha entrada na igreja de Nossa Senhora Santana de terno e gravata, protagonizando o cortejo nupcial. Tinha pressa. Muita pressa. A protuberância do ventre da noiva aumentava em proporcionalidade direta ao tempo e o meu sogro ameaçava desengavetar o trabuco, a bem da honra e dos bons costumes.

Por castigo divino, o meu amigo Machado se apaixonou por uma beata, abandonou a batina, a cachaça, os amigos de farra, amarrou a trouxa e foi morar com ela. Perderam: os fiéis, um padre bom de missa; perderam: os bêbados errantes, seu padre confessor. Anos depois, deprimido pela falta do vinho canônico e do bate-papo mesclado a fumo e a álcool das noites boêmias do Rio Vermelho, o meu amigo não resistiu à pressão interna da psicopatologia e se enforcou. Não deixou testamento nem carta de despedida, porém houve muita cachaça no seu velório.

“Seria essa a sua última vontade”, nos disse, entre soluços, a viúva. Alguém se lembrou de erguer um brinde fúnebre ao ausente Kléber, morto um mês antes. Não seguiu o exemplo do ex-padre, contudo bebia feito um condenado. Morreu de cirrose hepática antes de completar os trinta anos. Lembrei-me da teoria do meu irmão, nos primórdios dos tempos. Talvez ele tivesse razão. Kléber era um sujeito feio, horrendo, todavia tinha um nome bonito. E por causa do seu nome ninguém dava importância à sua feiúra.

Intimamente agradeci a Maricas Coxeba e ao meu irmão. Sem a conspiração dos dois, quem seria eu afinal? Qual patrão daria emprego a um Tonho de Lisboa? Qual mulher dormiria, em sã consciência, com um Tonho de Lisboa? Que igreja daria guarida a um Tonho de Lisboa? Pedi silêncio aos presentes no velório para um breve discurso de despedida, a elegia final:

- Meus amigos, peço-lhes que façamos um brinde ao meu irmão mais velho e a Maricas Coxeba, a escrivã de minha terra. Devo a eles a dádiva de poder estar aqui, hoje, com vocês. Sem a intervenção dos dois, eu seria um suicida em potencial, provavelmente um morto-vivo. Ergamos os copos para o céu e digamos amém!

Ninguém entendeu nada do que falei, mas brindaram assim mesmo. Quando estamos diante de um morto, estar vivo é um bom motivo para se comemorar.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ilustre amigo lusitano do Junco!
A vida e seus mistérios...
Acho que você tem todos esses nomes como uma forma de multiplicá-lo, porque normalmente não cabe em um único ser, tanta alegria, tanto bom humor.
Precisa ser mais de um no mesmo - uma espécie de Fernando Pessoa, outro lusitano como você. Um abraço!
Ivana.

Nana Okida disse...

História fascinante Tom. Graças ao teu irmão e à Maricas Coxeba, tens um belo nome...Parabéns pelo niver!!!!!