segunda-feira, 27 de abril de 2009

CADA DOIDO COM SUA MANIA

O primeiro doido que conheci respondia pela alcunha de Doido Ursino, mas nunca o vi rasgando dinheiro. Pelo contrário, quando caía em suas mãos uns tostões vadios, o mesmo corria para a venda de Josias Cardoso e gastava com doces e pães. Também não jogava pedra nos outros nem ameaçava as criancinhas. Para não dizer que não tinha um comportamento atípico, gostava de soliloquiar. Mas quem, na amplidão daquela solidão, não tinha o hábito de falar sozinho?
Ao contrário dele, Zé Doidinho falava pelos cotovelos quando havia alguém disposto a escutá-lo. Apesar do apelido sugestivo, tinham-no como um sujeito normal. A diferença estava no fato de ser o Doido Ursino um cidadão sem eira nem beira, enquanto Zé Doidinho era herdeiro de algumas dezenas de cabeça de gado.
Neste entretanto Lindemberg de Enoque era um sujeito normal. Trabalhava para o Governo em Alagoinhas e quando tinha folga voltava para o arraial do Junco ao encontro dos pais e amigos da birita e da sinuca. E foi numa noite comum de folga, depois de desarrumar a mala, que ele surtou. Quebrou os móveis da casa e saiu correndo pela rua a jogar pedras nas pessoas. Deu muito trabalho para entrar no Jipe da Prefeitura e seguir viagem para uma clínica especializada em Alagoinhas.
Esses doidos da minha infância em nada se comparam aos doidos cibernéticos que conheço, que surtam de repente e aprontam mil loucuras sob o olhar complacente do monitor. Há os ladrões de identidade, os copiadores de textos, os que encarnam personagens de revistas em quadrinho e aqueles que pensam ser Manuel Bandeira ou Camões. É muita doideira virtual, principalmente nesses sites e grupos de Literatura.
Sexta-feira passada recebi uma mensagem de alguém que se dizia filho de uma dessas amigas virtuais anunciando a sua morte. Sem entrar em detalhes, dizia que a mãe havia se suicidado na noite anterior, que não haveria velório nem enterro. O corpo seria doado para uma faculdade de medicina. A mãe pedira apenas reza. Como bom cristão que sou, procurei uma igreja e mandei rezar missa na intenção de sua alma. A morte, por si só, é algo que nos deixa transtornado. Imagine receber a notícia do suicídio de uma amiga, apesar de virtual, logo cedo da manhã! Mesmo inocente, não há como se evitar certo sentimento de culpa pelo acontecido, principalmente quando se tem consciência de que o ato do suicídio está em envoltório de fatores externos e que falhamos como amigo.
Após dois dias de sofrido pesar, recebi a notícia de que tudo não passara de um surto psicótico da suicida. Ela mesma escrevera a mensagem para ver a reação dos amigos no seu post mortem. Estava vivinha da silva, gozando de plena saude e rindo do desespero das pessoas. Sendo escritora, confundiu-se com os personagens de suas estórias, achando que poderia morrer e ressuscitar quando bem quisesse, sem pensar nas consequências dessa loucura.
Achou magnífico ressurgir das cinzas como se de fato fosse o pássaro mitológico, sem levar em conta aquela estória do menino mentiroso, que no dia que estava se afogando de verdade ninguém o salvou pensando tratar-se de mais uma de suas mentiras. Assim, quando chegar a hora final da nossa Fênix, quem haverá de acreditar e chorar o acontecido? Se bem que, para mim, ela morreu mesmo na quinta-feira, 23.


6 comentários:

Silvia Mendonça disse...

Depois acusam a mima de querer fazer jogada de marketing para ser mais lida. Tem gente tentando se dar bem com o fato, como no teu caso. Parece que não esta dando certo. O único comentário até o momento é o meu, da ghost aqui, Fênix renascida. E tem mais: tu nunca foste meu amigo. Do conrário, procuraria entender o que realmente aconteceu e não fazer chachota com a dor alheia.
Ah, quase ia esquecendo de assinar: Silvia Mendonça, direto da Matrix.

ELTON NEVES O ANJO DAS LETRAS. disse...

Bela crônica Tom,e ela nos fala da alma humana.Como o ser humano pode ser as vezes gênial e outras doentio!Sua amiga realmente está perdendo o juizo se é que já não perdeu,além de sofrer de uma carência afetiva muito grande,pois para chamar atênção das pessoas inventou a própria morte,além é claro de ter a curiosidade mórbita de saber como seria a reação das pessoas ante seu óbito!Sabe como diz o velho ditado,toda ação tem a sua reação,eu temo muito pelas consequências que irá sofrer essa sua amiga,uma ela já sofreu,perdeu-te como amigo,e isso foi uma grande perda,afinal bons amigos não se acham facilmente pelas esquinas,mesmo as amizades virtuais. Abraços,um texto como sempre delicioso de ler,apesar dele nos narrar a pobreza de espirito humana em um dos seus estados mais criticos.

Mislene Lopes disse...

É Tom tem gente que não gostou! como diz o velho ditado:" nem Jesus Cristo agradou a todos"
Parabéns!!!você como sempre brilha com as palavras!!!!

Tom do Junco disse...

Mislene: por acaso era a própria.

Anônimo disse...

Ehh Tom...eu já desconfiava e juntava as peças de histórias assim. Essa penso, foi a pior que ouvi...já vi gente sendo operada toda hora, toda hora é um pobre coitado, gente que se faz de deprimido, mas adora ser o gostoso pra mulherada...neste tal site de literatura a coisa é mesmo estranha e muitas vezes maquiavélica...ehhh, bem assim. Já vi mulher falar que mora somente com a mãe que tá com a corda no pescoço, mas que depois a gente descobre q a maluca é casada e ainda tem uma penca de filhos...homem casado então...eitaaaaaaaaa pra lá de montes se achando o solteirão, o príncipe encantado da mulherada, homens que depois descobre-se em rede social com mulher e filhos, mas que já causou estragos num site inteirooooo...já teve um que escrevia tanto sobre morte que juro...eu ficava com medo dele se matar a qualquer momento. rss coisas de loucossss! Será que eu não sou uma louca também? Ai que medoooo rsrsrrsrs beijosss, Junya

Ronaldo Torres disse...

E ainda tem uns doidos que vêm aqui vestir a carapuça. Ê vida de louco, Junya!