segunda-feira, 8 de junho de 2009

Antonio Torres e a arte de ser um boa praça - Marta Barcelos


Marta Barcellos*

O jovem romancista Antônio Torres escrevia “Carta ao bispo” quando percebeu que precisaria da autorização de Vinícius de Morais para usar um poema dele no livro. “A hora íntima” (Quem pagará o enterro e as flores/Se eu me morrer de amores?) seria recitado por um personagem, se não houvesse restrições.


O ano era 1979, e Vinícius estava cercado de fãs no lançamento da revista masculina Status, com fotos de Fafá de Belém e texto do poetinha. Torres faz que ficou encabulado na hora de abordar o seu ídolo, e a platéia da Casa do Saber acredita, relevando se tratar do mesmo orador desenvolto e carismático à sua frente. O fato é que, nessa história, o escritor apresentou-se timidamente e surpreendeu-se com a receptividade de Vinícius.


“Que poema você quer citar no livro?”, indagou o poeta. Diante da resposta, exacerbou-se: “É o meu melhor poema! Claro que você pode publicar!” Torres ficou feliz da vida, pelo encontro festivo e pela revelação. Mas não demorou para descobrir, por Antônio Callado, que Vinícius sempre afirmava entusiasticamente ser “aquele” poema, escolhido por seu interlocutor, também o seu preferido.
Em outro “causo” contado mais adiante, para deleite dos alunos, Torres mostrou como pegou o jeito, e inverteu a situação, anos depois. Diante de um carrancudo João Cabral de Melo Neto, convicto de ser odiado pelos paulistas, apesar de todas as argumentações em contrário, Antônio Torres mudou de estratégia: “Os paulistas têm razão de odiá-lo”, afirmou. “Afinal, São Paulo não tem um ‘João Cabral de Melo Neto’.” E finalmente conquistou a simpatia do poeta. “Nunca tinha pensado nisso”, rendeu-se ele, num muxoxo.


Enquanto Torres falava, fiquei pensando em como artistas cheios de talento, como ele e Vinícius, que bem podiam cultivar o enorme ego típico da categoria, tornam-se autênticos boas-praças. Imagino que, com o tempo, eles desenvolvam o talento (de novo!) de falar o que amigos e conhecidos gostariam de ouvir.


Veja bem, eles não ‘precisam’ fazer isso. O boa-praça não é absolutamente um puxa-saco, até porque não precisa ser. Ele apenas descobriu a delícia de ser generoso com os outros, todos os outros, com o mundo, que, afinal, é sua matéria-prima. Despeja simplicidade, generosidade e “boa-pracice” por aí, e, em troca, realimenta o seu próprio bom-humor, ganha o dia, quem sabe a inspiração para um personagem ou uma perspectiva diferente sobre o poder avassalador da vaidade humana.
Ah, a vaidade.


Depois dessa aula, lembrei da outra oficina que fiz, com um escritor com o qual sou ainda mais familiarizada, para não dizer fã de carteirinha. Moacyr Scliar também se deixava levar pelas perguntas dos alunos/admiradores, sempre ávidos por “causos”, quando revelou como se inspirava para dar conta da fila de autógrafos nos lançamentos de seus livros, sem melindrar ninguém. “O segredo é exaltar as qualidades da pessoa que pede a dedicatória”, ensinou. Gelei.


Na véspera, eu tinha ficado toda prosa com seus elogios a uma crônica do blog, lida em voz alta. “Você tem alma de cronista”, chegou a dizer. Na saída, saquei da bolsa o volume de “O texto, ou: a vida – uma trajetória literária” e pedi seu autógrafo. Ele caprichou: “À Marta, uma homenagem ao seu talento literário”. Não preciso dizer que os elogios rasgados ficaram reverberando em meu quarto, noite adentro, dificultando o meu sono.


Sem dúvida, outro boa-praça, o fabuloso Scliar.



Marta Barcellos
http://blog.contextofinal.com.br

*Marta Barcellos é jornalista, trabalhou em redação por quase 20 anos e hoje consegue conciliar realização no trabalho com qualidade de vida. Nesta nova fase, já escreveu três livros encomendados por empresas. Presta serviços jornalísticos, por meio da Contexto Final, é colaboradora do jornal Valor Econômico e mantém colunas na revista Capital Aberto e no site Digestivo Cultural.

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