sábado, 11 de julho de 2009

Arte Culinária É Com Minha Nêga



Quando conheci a minha cara-metade, vinte anos atrás, poder-se-ia dizer que ela não fora treinada nas prendas domésticas como são as mulheres do interior, cuja principal preocupação é a de arranjar marido. Sendo assim, se eu não tivesse atravessado o seu caminho, talvez ela continuasse solteira até hoje, haja vista o machismo brasileiro preferir a mulher que melhor serve petisco àquela com um bom papo-cabeça.


Para quem não goza da intimidade com a cozinha, fritar um ovo pode ser mais perigoso do que dar murro em ponta de faca. A verdade é que, nos primórdios dos tempos, quando ela voluntariamente se tornou aprendiz de cozinheira, levou um corte profundo no dedo, provocado por uma casca de ovo. Para a nossa felicidade, havia uma farmácia em frente de casa com um farmacêutico competente, que lhe costurou seis pontos e estancou a hemorragia.


Durante longos anos gozei a doce vida de solteiro, morando sozinho, e um curso intensivo de arte-culinária foi o caminho mais curto que encontrei para não passar fome. Rapidamente aprendi a interpretar o manual de sobrevivência na solidão da selva de pedra e em pouco tempo me tornei um expert em comida de baixo teor calórico, como feijoada, buchada, rabada, mocotó, sarapatel, dobradinha e todas as iguarias que um biriteiro precisa quando a ressaca aperta logo cedo da manhã.


Essas comidas, exceção apenas para o sarapatel, se guardadas devidamente na geladeira, duram sete dias sem alterar o sabor ou causar um estrago maior ao aparelho digestivo. Deste modo, seguindo na contramão da Criação do Mundo, mas honrando a saudável preguiça do baiano, cozinhava apenas um dia, e descansava os outros seis.


Dizem que o paulista vive para trabalhar, o carioca trabalha para viver e o baiano simplesmente vive. Não ousaria jamais contrariar essa máxima, vez que o cavalo, que trabalha pra burro, vive menos, bem menos, que uma tartaruga . O principal lema de um bom baiano é: não faça hoje o que pode ser feito amanhã. Baseado nessa premissa, nós levamos quinze dias para morrer de morte súbita. Por isso, a obrigação de cozinhar um dia na semana estava afetando meu estado mental. Consultado um analista, ele me sugeriu arranjar uma mulher de forno e fogão e aposentar meus manuais de culinária.


Obediente, saí à caça de uma fêmea à altura do meu paladar exigente e que pudesse chamar a minha mãe de sogra. Como a maioria das mulheres baianas só quer saber de festa de largo, pular de pipoca no bloco da Ivete Sangalo, soltar gritinhos histéricos no rebolado do Xande e esvaziar lata de cerveja na lavagem do Bonfim, embora vinte anos atrás ninguém soubesse quem era Ivete ou Xande, fui à caça em outros cantos, incluindo Maceió no roteiro. Em uma bela manhã de fevereiro, encontrava-me encostado no balcão de uma barraca na praia da Pajuçara, e achei engraçado o fato de duas banhistas fugirem da chuva que caiu de repente. Aproximei-me, ladino, e puxei conversa:


– Que interessante! Vocês duas estavam dentro d’água e saíram correndo para não se molhar na chuva! Que tal molhar a garganta agora?


Riram simpáticas e se declararam abstêmias. Após duas horas de conversa, descobri que nenhuma das duas sabia nada de fogão, eram apenas duas universitárias relaxando no fim das férias. Não perdi o rebolado por tão pouco, pois na minha terra também existe outro ditado dizendo que “quem não tem tu, vai tu mesmo” e não deixaria passar em brancas nuvens a minha estada em Maceió só porque as meninas não eram prendadas na arte do cozinhar. Nesta cidade deve existir bons restaurantes, pensei com os meus botões, apesar de trajar apenas uma sunga.


Não me senti no dilema “shakespeariano” e a minha escolha seguiu os preceitos da arte do melhor amar, apesar de ela trapacear a colega no jogo da porrinha. No amor e na guerra, vale tudo, se justificou inocentemente. Meses depois, por amor, ela se submeteu ao meu intensivo de culinária e hoje cozinha divinamente bem, a ponto de, incentivada por um compadre especialista em cozinha internacional, rascunhar um livro de receitas da comida alagoana, devidamente prefaciado pelo farmacêutico que costurou seu dedo quando se cortou na casca de ovo e mais outros pontos em suas mãos devido a cortes agudos no cabo da colher de pau.


Graças a esse seu gosto adquirido pelas prendas da cozinha, aprendemos a conjugar o verbo envelhecer juntos em sua plenitude: ela, tonalizando os cabelos de vez em quando; eu, deixando-os embranquecer naturalmente, pois, se é de agrado à vaidade feminina e do prazer masculino a mulher disfarçar a ação do tempo em produtos afins, ridículo se faz um homem renegar sua maturidade física manifesta nos cabelos brancos e sair por aí pingando tinta sobre os ombros, embora o Viagra possa negar a senilidade latente e nos tornar competentes amantes tais quais adolescentes que fomos um dia.





4 comentários:

Mislene Lopes disse...

esta ai uma grande receita para um bom casamento: "aprender a conjugar o verbo envelhecer juntos em sua plenitude"

Edna Lopes disse...

Rssrsrsrs, ainda bem que todos conhecem sua veia de bom contador de causo... e quando o livro sair terá uma parte dedicada as sopinhas, aos caldos, aos mingaus para quem envelhece junto.. rsrsrsr... BEIJO!!

josebahiana disse...

Interessante o que escreveste mas uma coisa que eu penso totalmente o contrário e que não entendo porque alguns "baianos" cultivam a idéia da preguiça (inventada por Caymmi - esse realmente um preguiçoso) que é uma terrível mentira. Desde que trabalhávamos no Pólo Petroquímico e íamos à praia todos os dias sabíamos da máxima (que irritava os companheiros paulistas) de que o paulista trabalhava para "bater ponto" e o baiano trabalhava "para viver". Eu não creio que no Brasil haja alguém que "viva para trabalhar". E pelas pesquisas nór trabalhamos - e vivemos muito bem, obrigado.

Anônimo disse...

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