segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Lupicínio e você - Maria Helena Bandeira

"Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?"

Sim, você sabe e morre mil vezes e chuta latas pelas ruas esperando que a dor escorra pelos bueiros, baratas aflitas de Kafka, o amor é tão fantástico nos dois sentidos. Então você volta para casa, se senta no sofá grená e olha para o livro que nunca vai ler : a história da sua vida.

"Ter loucura por uma mulher"

Você sabe que não é possível viver assim, quer morrer, arrancar do peito esta doença e mais fundo ainda destruir as raízes retorcidas do desejo e abafar, estrangular e matar toda vida que ainda restou entre os dois.

"E depois encontrar este amor
Nos braços de um outro qualquer"

Então você sai de novo em direção ao drama, estaciona na calçada em frente ao prédio, entra sorrateiro, coração batendo na surdina: tum tum tum e você sobe as escadas, garganta de farinha, ervas daninhas crescendo no tórax, uma tosse de furor que não deságua em rios, uma canção sem volta.

"Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
E por ele quase morrer?"
E você senta na escada já sem forças, o sangue ruge nas têmporas, nas veias, nas caudalosas vias por onde escorre seu amor doente, aprisionado e louco, seu amor bandido, seu amor terreno na Barra sem dono e sem razão, seu amor esquilo aprisionado na armadilha, seu amor cansado da guerra e você passa pelas mil gotas que escondeu nos olhos e escorrega pelos degraus e escorre pelo ralo e nem assim desiste.

Continua a subir.
"E depois encontrá-lo em um braço

que nem um pedaço do seu pode ser"
Enfia a chave no buraco negro do seu desespero e você sabe que não pode acreditar nos olhos que mentem e cerra as pálpebras e as luzes fagulhantes desenham corpos enlaçados, a cama, os lençóis, o corpo branco dela e as flores do enterro das suas esperanças, os lírios infinitos, um caminho sem volta. Uma lápide negra e nela escrito - nunca mais. E os enlaçados pés, as pernas nuas e tudo muito claro. Você abre os olhos para não ver.

"Há pessoas de nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração"

Seus nervos são de papel crepom, são de elástico mole, se desfazem na chuva, você grita alguma coisa rude, alguma coisa torpe e ela se curva sobre o ventre - ah seu ventre que eu amava sua curva da morte, meu enterro. O som do coração tum tum tum, o sangue espirra pelo quarto, borra a cama, escorre pelo ralo junto com você, amigo, você foi embora antes de chegar.

"Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação"

Você olha a janela aberta, o céu lá fora, você sabe que existe alguma coisa em torno, mas é tão distante, menos o silencio. Subtraindo o som do que já foi, nada restou – dois corpos enlaçados, lençóis vermelhos, uma alma que escorre devagar e o ralo que você abriu no meio dos destroços do seu amor.

"Eu não sei se o que eu trago no peito
É ciúme, despeito, amizade ou horror"

Você joga o revólver no chão e vomita no banheiro a alma em pedaços. Você retorna do ralo, pega alguma coisa que sobrou de consciência, pede desculpas ao tempo, volta atrás, desfaz a cena e recomeça.

"Eu só sei é que quando eu a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor."

Então desliga o rádio, diz adeus Lupicínio, senta na realidade e descobre, aturdido, que o amor é, simplesmente, o ridículo da vida.


[N.B. - versos incidentais da música Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues]

2 comentários:

Merô disse...

Uma história e tanto. E uma conclusão patética. Mas verdadeira. O amor é o ridículo da vida.

Tom do Junco disse...

Pois é: atire a primeira pedra aquele que nunca amou.