quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O Encosto





Carol chegou carregada. Literalmente carregada. De malas e de encostos. No aeroporto, a esteira de bagagens travou. O taxista lhe cobrou excesso de peso. O elevador do prédio se recusou a cumprir sua nobre função do sobe-desce. Sobrou para o zelador, que teve que se curvar para o peso das malas em dez andares.

De todos os males, o menor. Porém Carol optou pelo maior ao descumprir as recomendações do seu pai-de-santo: não levou oferenda pra Iemanjá no dia dois de fevereiro, não deu cachaça pro santo na primeira talagada do ano, nem vestiu branco na sexta-feira. Viajou sem tomar banho de folhas e se esqueceu dos seus patuás. O seu corpo ficou totalmente vulnerável ao olho-gordo, quebrantos e maus-olhados. Seus músculos esmoreceram, suas pernas se negaram a andar e sua boca só abria para seguidos bocejos. Seu olhar perdeu o brilho e suas pálpebras se recusaram a obedecer ao comando cerebral. Carol estava, mas não atinava. Existia, mas não participava. Via, mas suas retinas só enxergavam o vazio. Suas férias expiravam, em Maceió e, até então, não tinha percebido nada de interessante, nem mesmo a beleza do encontro das águas do Rio São Francisco com o mar. Era um encosto tamanho família, urucubaca para babalorixá nenhum botar defeito.

Carol, que no passado fora inspiração de música de ritmo alucinante, estava definhando. Mal inspirava réquiem.

Um dia, passeando pelos canais de tevê em busca de um que não falasse de corrupção, parou em um programa evangélico, onde cego dava testemunho de ter voltado a enxergar, surdo dizia que estava ouvindo muito bem e um paraplégico se levantou e chutou a cadeira de rodas, em urros alucinados de agradecimentos. Um perneta jogou as muletas fora e saiu andando, normalmente.

Não teve dúvidas: anotou o endereço da igreja, pegou um táxi e em meia hora participava da sessão de descarrego. Estava concorrida a sessão. Era o dia da vigília dos quatrocentos pastores. Aproximadamente um pastor para cada fiel. Foi atendida de imediato por um pastor jovem, com ares de louco, cara de ex-drogado arrependido:

- O que você sente, irmã?
- Queimação no estômago, azia, mal-estar, câimbras, formigamento, moleza no corpo, flatulência, febre, dor-de-cabeça, dores no ovário, muito sono quando não durmo direito e tensão pré-menstrual.
- Você vai se curar, irmã, aleluia! Ó Deus, exijo que cure esta mulher, expulse o Capeta do seu corpo, aleluia! Sai Capeta, do corpo desta mulher, pelos poderes sagrados de Jesus, filho de Jessé, cuja vara e cajado expulsaram Adão do Paraíso! Sai, Capeta, que esse corpo não te pertence mais! Retorna para o fogo do Inferno, onde Belzebu reina. Aleluia! Vá pra casa, irmã, que você já está curada. Aleluia! Antes, deixe a sua contribuição para ajudar nas obras de Cristo. Aleluia!

Voltou pra casa a pé porque a depenaram na igreja. Esvaziaram sua bolsa, os bolsos, e surrupiaram-lhe o relógio e a corrente de ouro, apesar de relutar por ter sido presentes de aniversário e de Natal, respectivamente. Tomaram-lhe também os cartões de crédito, sob a deslavada desculpa de que o dinheiro plástico simbolizava a vaidade e o consumismo, a própria representação do Capeta.

Ungida com óleo santo produzido, segundo o pastor, nas fontes termais de Jerusalém, onde Cristo se banhava aos domingos, seu corpo foi revestido por um escudo invisível polarizante que neutralizava as cargas negativas produzidas por invejosos e olhos-de-seca-pimenteira. A bênção e o óleo tinham garantia de sete dias, quando ela deveria retornar para mais uma sessão de descarrego.

Chegando a casa, exausta da longa caminhada, capotou no sofá. Dormiu vinte e quatro horas seguidas. Despertou alegre, disposta, descansada. Seu mal era sono atrasado, disse-lhe sua irmã Sílvia, companheira de viagem. Diagnóstico descoberto tardiamente. Além de ficar sem dinheiro, retornaria a São Paulo na manhã do dia seguinte.

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