quinta-feira, 3 de junho de 2010

Que Fim Levou Ana Maria?

De Cavaleiros Medievais

Compreendi a dor da solidão depois que os bárbaros tomaram de assalto a nossa casa e levaram a minha prima Ana Maria para um mundo além de nossa imaginação. Nessa hora o sol se escondia atrás do Cruzeiro dos Montes, formando um clarão avermelhado e triste. O Cruzeiro era uma tosca cruz de madeira, fincada no topo do morro mais alto e podia ser vista de mais de légua de distância. Ou, como diziam os primitivos, “até onde o olhar do homem pode enxergar as criações divinas”.

Naquela tarde as galinhas se aninharam mais cedo no poleiro. Os pássaros procuraram abrigo seguro entre as folhagens das árvores que resistiam ao verão inclemente. As cigarras cantaram réquiens metálicos como carpideiras em noite de luto. Pareciam adivinhar a minha tragédia particular, embora não fossem elas insetos de mau agouro.

Ana Maria era a filha mais nova do meu tio Oduvaldo. Sua casa ficava perto da nossa, menos de meia légua, por isso suas visitas eram constantes, com ou sem companhia. Eram os tempos da inocência, não havia roubo nem violência física. Fomos criados unidos na mesma traquinagem e gozando da liberdade que o campo nos oferecia. Porém, naquela tarde, Ana Maria andava reticente e triste, sem seu riso brejeiro e a espontaneidade inocente da pré-adolescência.

– Você está esquisita, Ana. Que bicho lhe mordeu?
– Não sei, Tomás. Estou sentindo uma coisa no peito.
– Como assim?
– Minha mãe disse que virei mulher e terei que casar.
– Casar? Você não tem nem namorado. Quer se casar comigo?
– Ora! Deixe disso! Somos primos, se esqueceu? Minha mãe disse que primo que casa com prima os filhos nascem aleijados.
– E como é que os filhos nascem?
– Não sei. Ouvi minha irmã Maristela comentar que é por entre as pernas, onde a gente faz xixi.
– E por que tia Florinda disse que você agora era mulher?
– Também não sei. Mas ela disse isso no dia que acordei de manhã e a cama estava empapada de sangue. Me assustei e gritei por socorro. Minha mãe apareceu sorrindo e disse que era o “chico” que tinha chegado e que todos os meses isso ia acontecer, que era coisa de mulher. Depois ficou cochichando com minhas irmãs e, quando meu pai chegou da roça, ela disse assim: “Oduvaldo, Ana Maria virou mulher e já pode se casar”. E ele fez uma cara de satisfação e disse: “Bom, nesse caso vou falar com Malaquias pra marcar a data do casamento”.
– Malaquias? Quem é ele?
– Não sei. Nunca ouvi falar.
– Vamos brincar de pega-pega?
– Vamos. Você me pega primeiro. – disse e saiu correndo pelo terreiro, esquecida que virara mulher e podia se casar. A gente não entendia nada disso. E não queria entender. Tudo ao seu tempo, dizia meu pai. Crianças não precisam entender os problemas dos adultos. Como em Eclesiastes: “Há tempo para plantar e tempo para colher”. Nosso tempo, embora não estivesse escrito nas Sagradas Escrituras, era só para brincar.

Havia três dias que Ana Maria estava lá em casa sem que eu atinasse o motivo dessa longa hospedagem. Isso só acontecia quando os meus tios viajavam e os meus primos ficavam sob os cuidados dos meus pais. Mas iam todos eles, do menor ao maior, no total de oito. A mais velha era Maristela, com dezessete anos. O mais novo dos homens era Edilson, e tinha uma enorme hérnia no umbigo, lembrando uma laranja de caroço. Havia também: Totonho, Jackson, Regina, Berivaldo e Raimundo, mais conhecido por Mundinho.

Ana Maria era da minha idade: doze anos. Nascemos no mesmo dia e mês. Comemorávamos nosso aniversário na mesma casa, para não ter que dividir os convidados. Um ano era na minha, no outro, na sua. Diziam sermos primos-gêmeos.
– Será que esse ano vem todo mundo pro nosso aniversário? – perguntei
– Hein?! Ah! sim! Mas ainda está longe.
– Eu sei. É que não estou agüentando esperar esse tempo todo.
– A gente devia ter nascido com seis meses de diferença.
– Por quê?
– Assim não precisava esperar um ano pra reunir todos os primos.
– É mesmo.

Nossa conversa fora interrompida por um chamado de minha mãe:

– Ana Maria, venha aqui experimentar o vestido!
– Que vestido?! – perguntei.
– O de noiva. Você não sabe que sua prima vai se casar amanhã? Ela está aqui porque estou costurando seu vestido.
– Eu?! Estou sabendo agora. Não sabia nem que ela tinha namorado.
Ana Maria caiu em soluço. Daqueles três dias, somente naquele momento se dera conta de sua sorte.
– Não quero me casar não, tia! Fale com minha mãe. Ainda sou muito nova e nem conheço meu noivo. Minhas irmãs são mais velhas que eu, por que não elas? Por favor, me ajude, tia!
Senti minha mãe hesitar. Amarelou penalizada. Abraçou Ana Maria e falou rouca de emoção:
– Não posso, minha filha! Essa é a nossa sina de mulher. Conforme-se com seu destino e vamos entrar que Oduvaldo vem já lhe buscar.

Ana Maria caminhou trôpega, como se carregasse o mundo nas costas. Sentei-me no avarandado e fiquei matutando, tentando entender o que se passava. Não podia ser verdade. As duas estavam brincando, tentavam me assustar. Só podia ser isso. Diziam que Ana Maria ainda fazia xixi na cama, como era que podia se casar?

Não queria imaginar a vastidão daquela campina sem as suas alegres peraltices. Desde quando nos entendíamos por gente que brincávamos ali, de pega-pega, peteca, pula-corda. No fim do dia, sentávamos no oitão da casa para nos extasiar com o entardecer no horizonte. Como naquele momento, antes de sermos interrompidos pela minha mãe. Éramos crianças felizes e imaginávamos que assim seria para todo o sempre.

O fim veio a galope. Dois cavaleiros apearam à porta. À sombra da quase noite, lembravam dois bárbaros em missão de rapto da princesa na torre do castelo.

– Ô de casa! Doralice!

Minha mãe saiu segurando a mão de Ana Maria. Ambas choravam.

– Não me deixe ir, tia! – implorou minha prima.
– Nada há a se fazer, Ana. Você vai se acostumar. É só uma questão de tempo. Oduvaldo, converse com o noivo e peça pra ter paciência. Ana ainda é uma criança.
– Já conversei, Doralice. Fique sossegada. Vamos, Ana! Antes, se despeça do seu primo Tomás. Esta será a última vez que vocês poderão conversar. Depois do casamento você vai pra longe.

Ana Maria correu ao meu encontro e me abraçou soluçando. Pediu-me para rezar por ela. Disse para eu não me esquecer dos nossos momentos, porque eu estaria sempre em suas lembranças, principalmente no nosso aniversário. Montou na garupa do irmão enquanto o meu tio levava com extremo zelo o vestido de noiva. Antes de desaparecer no horizonte, virou-se e jogou um beijo. O primeiro e único de nossas vidas.

No dia seguinte acordei entre soluços. Sentia uma dor no peito, um nó na garganta, uma vontade de sair correndo gritando por ela. Levantei-me e a casa estava em alvoroço. Todo mundo se preparava para o casamento, cada um envolvido em cuidar de sua própria vaidade. Esqueceram-se de mim. Minha mãe levou um susto quando me viu.

– Tomás, você ainda está assim! Corra, vá se aprontar que o casamento é daqui a duas horas e ainda temos que ir pra rua!


A igreja estava enfeitada para o evento. Havia um tapete vermelho estendido até o altar. Chegamos a tempo de nos acomodarmos no banco da frente. Era o primeiro casamento que eu participava e tinha que ser justamente o dela. O mundo não era justo.

A organista dedilhou a marcha nupcial e o povo se levantou em obediência ao comando musical. Todos olhavam numa só direção: a porta da frente e a entrada compassada de Ana Maria. Parecia assustada dentro do vestido de noiva, que me lembrou uma mortalha. Caminhava trêmula, vacilante. Em suas mãos, em vez de um buquê de flores, a boneca de matéria plástica por mim arrematada no último leilão beneficente da igreja. Sua boca, ressecada pela desdita, sufocava um grito de agonia. Ao passar por mim, seu olhar refletia a angústia aguda de quem está prestes a selar aliança com o próprio carrasco.

Um comentário:

maria olimpia alves de melo disse...

Tom, precisava escrever uma história assim tão triste?Ficar bonita ficou, uma lindeza só, mas deu até vontade de parar de ler. Ignorãncia. Esse sempre foi o grande mal dos homens.