domingo, 13 de fevereiro de 2011

Atenda o chamado, irmão!


“Jesus vai voltar”
Pichadores de Cristo nos muros das cidades.

Dizem que abrir uma igreja, seja lá a que deus vá servir, é mais fácil do que abrir um botequim. Deve ser. Durante a minha viagem de férias, em janeiro, visitei mais de três dezenas de cidades, de Maceió a Santa Cruz de Cabrália, e nessas andanças vi mais igrejas do que botecos, algumas humildes, outras, verdadeiros monumentos baseados na arquitetura do Império Romano, como é o caso de certo templo a um passo de um shopping de Salvador. 

Os nomes, a maioria, incompreensíveis, talvez para facilitar na engabelação da fé dos crentes e tementes a Deus, seriam cômicos se não se tratasse de se enganar a gente humilde. Como sou um descrente em religião, fico a matutar o que vem a ser uma “Igreja a Serpente de Moisés, a que Engoliu as Outras” [RJ] ou “Igreja Evangélica Pentecostal Cuspe de Cristo” [SP]. Em Belém do Pará os pastores apelaram para a ignorância geográfica dos fiéis e tascaram o nome da igreja como “Jesus Nasceu em Belém”. Em Londrina, Paraná, o grupo GLBT não pode reclamar da perseguição urdida pelas religiões tradicionais. Foi fundada a igreja alternativa “Igreja Evangélica Florzinha de Jesus”. No mesmo caminho seguem os cariocas, com a “Igreja do Ministério Favos de Mel”. Em João Pessoa, capital da Paraíba, os pastores se superaram ao fundar a “Igreja Evangélica Assembleia dos Primogênitos”.

Conheço um cidadão, em Salvador, que ralou a vida inteira consertando fogão e geladeira e nunca conseguiu se aprumar na vida. Morava num bairro classe média baixa, andava de utilitário de segunda mão e os filhos estudavam em escola pública. Um dia resolveu fazer curso de pastor por correspondência, fundou uma igreja e um ano depois comprou apartamento de cobertura num bairro chique e passou a andar em carro importado. A última vez que o encontrei, era dono de três igrejas, vários carros do ano na garagem e ele, a mulher e os filhos andavam, cada um, com seu próprio motorista devidamente engravatado.

A igreja católica, que converteu seus fiéis a ferro e fogo, hoje também virou um balcão de negócios e por lá se vê padres negociando a fé tão descaradamente que chegou ao ponto de cobrar para colocar o nome do cristão em suas orações. Se você não sabe rezar ou tem preguiça de fazê-lo, não precisa se preocupar: mediante uma determinada quantia os padres rezam por você. Se você é cético e descrê do que digo, sintonize algumas emissoras de TV e verá os mercadores da fé em ação. Há programas que são verdadeiras máquinas de fazer dinheiro com as promessas de se realizar milagres. Só falta agora vender indulgências, porque já está faltando madeira pra se vender como “pedaço da Cruz de Caravaca”, que, por sinal, era feita de ouro, mas os incautos não sabem disso, e começa a faltar água em alguns rios onde se engarrafa a “água santa do Rio Jordão onde Cristo foi batizado”. Na Igreja do Bonfim, além das fitinhas com a medida do pé do Senhor do Bonfim, a igreja descobriu um filão de ouro: vender água benta engarrafada. 

Contudo nem tudo é pilantragem ou negociata da fé nas igrejas. Ao menos na ficção. Em Girassol, cidade em projeto, cujas operadoras de celular funcionam às mil maravilhas, tem um padre bonzinho, que cuida de muitas crianças e nunca foi acusado de pedofilia, apesar de ter um poderoso fazendeiro e o delegado como seus ferrenhos inimigos. O padre de Saramandaia era bonzinho. O de Sucupira e Asa Branca também. Porém, se depois de ler esta crônica você, leitor, se sentir angustiado, com gosto de sabão na boca e sem saber que rumo tomar, não se desespere porque certamente foram forças esotéricas que o guiaram até este blog para saber das boas novas: chegou a Igreja Desenvangélica Ingericana, a que libertará o homem dos grilhões dogmáticos e devolverá aquilo que lhe foi tirado pelas religiões: o livre arbítrio. 

Portanto, se a sua falta de fé lhe angustia ou se a fé excessiva lhe causa prejuízo, entre agora mesmo para a Igreja Desenvangélica Ingericana e sinta a plenitude cósmica em viagem transcendental ao encontro da Verdade sem a histeria coletiva dos trezentos e vinte e cinco pastores. Sua contribuição financeira será apenas um pequeno financiamento para a vinda de Cristo, pois, como é sabido de todos, Ele está voltando de ônibus intergaláctico e precisa de dinheiro para o bilhete de passagem.

Aleluia, irmão!





2 comentários:

Toninhobira disse...

Aleluia irmão!!! A coisa tá tão feia que é preciso um financiamento a longo prazo, para conseguir uma vaga nesta de esperar o reencontro do Criador por estas tantas igrejas espalhadas por este país.Eu lembro bem do crescimento destas evangelicas lá na minha pequena Itabira MG, uma cidade 100% catolica na epoca, foi uma verdadeira cruzada entre as igrejas.E assim num processo maluco, vi o crescimento e o enriquecimento dos pastores conhecidos nosso, e absorção de alguns elementos considerados "non gratos" pela sociedade coinservadora de lá. Estes elementos muitas vezes alcoolatras e desviados sexuais, foram convertidos no processo de patrulhamento de vida e ai se ouvia, que eles tinham o poder d curar e recuparar pessoas e assim deu-se toda esta parafernalia que assistimos nos dias de hoje.Creio que houve uma falha da catolica me não se modrnizar e promover uma abertura.E sabe que tem um dia que eles chamam o Dia da revolta, onde cada um dá tudo que tem para receber mais?
Entao, aleulia irmão!!!
Que nao sejamos colocados nas mãos de Torquemadas.
Um abraço.

Tom do Junco disse...

Salve, irmão das Gerais perdido em mares baianos. Depois que postei esta crônica, fiquei sabendo que uma amiga, aqui em Maceió, renegou o catolicismo e se entregou ao evangelismo. Levando vantagem, claro: a igreja evangélica foi fundada pelo genro. Assim todo mundo come em família.
Abraços.