quinta-feira, 21 de julho de 2011

MEA CULPA, MEA MÁXIMA CULPA


“A alegria é um dos mais reveladores traços humanos,
basta a alegria para revelar as pessoas dos pés à cabeça.”
Dostoievski, in 'O Adolescente'

Certa vez, quando eu escrevia em site coletivo, uma internauta me enviou um e-mail indignada por encontrar algumas piadas na minha página, cuja mensagem deixo abaixo, na íntegra:

“Li na sua pg algumas piadas que, naturalmente não são suas, muitas delas com arquétipos, ou que mesmo não têm nada a ver com cultura, literatura, inapropriadas, portanto, para estarem em páginas que aventam cultura literária, até pq tb e principalmente não são piadas suas. Isso é ético? Sim, pq é preciso ética acima de tudo, se não nunca podemos nos manifestar, principalmente criticando. Os seus textos, por outro lado, entre causos, contos, são razoáveis.”

Nos tempos em que eu andava pelos chamados e-groups, houve alguém que questionou a inserção de piadas na chamada lista, pois eu, todas as manhãs, saudava o povo contando uma piada. Achava ela que piada não era literatura e, para amenizar um pouco, fez uma concessão: piada só com autoria. Tal transigência, em que pese a generosidade da reclamante, por si só já era uma piada. 

Distimia é o nome para a doença chamada mau humor, uma forma light de depressão crônica. Um transtorno mental. Por causa desses transtornados que se escondem por trás de um monitor que meu gás acabou para esses grupos de bate-papo literário. Mas, antes de abandonar o barco das vaidades e veleidades, enviei meu recado ao grupo, cujo teor se enquadra na resposta da minha missivista virtual:

“Façamos um hiato nas nossas prolixas produções literárias e vejamos uma curiosidade obscena chamada de “Gênero Literário”. 

Gênero Literário é aquele negócio que faz você, leitor, identificar, sem medo de errar, o que é um poema, um conto, uma crônica e por aí vai. São quatro, os gêneros: Lírico; Épico; Dramático e Especiais. 

Mas aqui só me interessa um: o Épico.

A principal característica do Gênero Épico é o texto em forma de narração. Divide-se em: Romance; Novela; Conto; Crônica; Anedota; Fábula; Parábola.

Anedota????????????? Pois é. Anedota.

E assim nos ensina o professor Wilson Roberto C. Almeida, em seu livro “Língua e Linguagem”:

“Anedota:
Tem por finalidade despertar graça e seu significado literal é ‘algo inédito’. Hoje, anedota é uma pequena história de conteúdo humorístico”.

Por outro lado, o Aurélio diz:  Anedota -  P. ext. Piada (3).   E o Houaiss? Que será que diz o  grande Houaiss em seu dicionário com mais de duzentos e cinqüenta mil verbetes e que me custou cem reais o cd-rom? Vejamos o que diz em “sinônimos variantes” de anedota: conto, episódio, historieta, piada”. Piada???? Esse Houaiss maluqueceu! Acho que joguei meu dinheiro fora!”

Decerto que as piadas não são minhas, conforme dedução da reclamante. Como não existia o gênero “piada”, no referido site, fiz uso repetido do título daquela revista americana “Seleções Readers Digest” para o tópico de piadas: “Rir é o melhor remédio”. A primeira vez que li a Seleções tinha dez anos de idade, e tenho certeza que a maioria dos internautas já leu uma, alguma vez na vida. E, apesar de ter muitas piadas, é uma revista mais séria do que qualquer site de Literatura. E eles ainda pagam por uma boa piada. A revista Playboy, cuja essência é a nudez feminina, também paga bem por uma piada. E eu escrevia de graça.  A reclamante, em vez de me acusar de aético, devia me agradecer por ter alegrado um instante de sua existência.

As piadas são de domínio público, não têm autoria, e são os textos mais corrompidos que se tem notícia. Cada um conta ou escreve a seu modo e jeito: um, mais engraçado; outro, menos. Nenhum autor se sente diminuído por escrever piada, principalmente os cronistas, quando lhes falta inspiração. Quem nunca viu uma piada em gibi, em algum livro, em alguns contistas e cronistas famosos? No dia que alguém se intitular dono de uma piada, outro anunciará de algum lugar, entristecido com o fenômeno: “Este É o Dia Que o Riso Acabou”.

O riso é sagrado. São Tomás de Aquino, o santo filósofo, dizia que "brincar é necessário para levar uma vida humana".  O riso é uma coisa tão séria que mereceram estudos de Platão e Freud. Desopila o fígado, faz fluir o sangue pelas veias aliviando a pressão arterial, fertilizando a mente e o espírito. Mas, rir ou não, é um direito de cada um. Ninguém é obrigado a rir ou a gostar de piadas. Mas não reconhecer nenhum mérito literário nelas, é negar o obvio e comprometer-se em teorias esdrúxulas, embasadas no desconhecimento ou na pura ignorância dos enunciados da teoria literária.

Quero aproveitar o ensejo e agradecer à minha leitora que, dentro de seu vasto mar de conhecimento crítico, teve a generosidade de achar os meus textos razoáveis.


2 comentários:

Anônimo disse...

Enquanto lia seu artigo,lembrava de Edna,e dizia em meu pensamento:"-Como é bonito argumentar sem perder a elegancia!"Olha,continue fazendo ponte pra o riso acontecer, porque faz bem ao coração, aos olhos da alma...além de preencher vazio e vestir a tristeza de momentos agradaveis.Meu abraço!Zilma.

Tom do Junco disse...

Obrigado, Zilma. Volte sempre.