quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Luís Pimentel - Wilson Batista - Samba e malandragem

Nota do blog: em 1935 Noel Rosa e Wilson Batista se digladiaram musicalmente, enriquecendo a nossa MPB. Em 1956 a Odeon registrou essa polêmica na voz de Roberto Paiva (Wilson Batista) e Francisco Egydio (Noel Rosa). Em 1999, em show dedicado a Noel Rosa, Henrique Cazes e Cristina Buarque de Holanda colocaram no repertório essa polêmica. Se você gosta da MPB, eis a grande oportunidade de conhecer um pouco dos bastidores na criação da nossa Música Popular Brasileira. O show de Cazes e Cristina foi registrado em disco com o nome Sem tostão 2... a crise continua - Canções de Noel Rosa. Em 2001 foi lançado em cd.



O Rio de Janeiro já hospedou, em tempos idos, alguns malandros de renome, a maioria com livre trânsito no mundo da música. Basta citar Valdemar da Babilônia, João Cobra, Mané da Carretilha, Nina do Estácio, Brancura, Gaguinho Bicheiro e Madame Satã. Este último, tão próximo viveu de artistas, compositores e cantores, que veio a ser mais tarde acusado de provocar a morte do sambista Geraldo Pereira (1918-1955), após uma briga de bar na Lapa. Madame Satã não negava o imbróglio, pelo contrário. Gabava-se da façanha, por pura malandragem.

Mas entre os compositores, praticamente não havia malandro. Neguinho ralava (como rala até hoje), e muito. A honrosa exceção deve ser feita a Wilson Batista. Apesar de carioca por adoção, Wilson nasceu em Campos, em 1913. Adolescente, desembarcou no Rio de Janeiro para morar com um tio, no subúrbio. Pressionado pelos parentes, que queriam a todo custo empregá-lo numa oficina mecânica, saiu de casa e foi morar sozinho nas proximidades da Lapa, onde logo começou a frequentar a vida noturna, fazendo amizade com figuras conhecidas e respeitadas na “área”, como Madame Satã, Jorge Goulart, Boi (um misto de porteiro e leão-de-chácara dos cabarés), Ataulfo Alves e Miguelzinho Camisa Preta, entre outros mais ou menos votados.

Autor de sambas geniais como Nega Luzia (“Lá vem a Nega Luzia/No meio da cavalaria/Vai correr lista lá na vizinhança/Pra pagar mais uma fiança/Foi calibrina demais/Lá no xadrez ninguém vai dormir em paz”), Mundo de zinco, Chico Brito (“Lá vem o Chico Brito/Descendo o morro na mão do Peçanha”), Samba rubro-negro (“Flamengo joga amanhã/Eu vou pra lá/Vai haver mais um baile/No Maracanã/O mais querido tem Rubens, Dequinha e Pavão/Eu já rezei pra São Jorge/Pro Mengo ser campeão”) e tantos, tantos outros, Wilson Batista encarnou como ninguém o espírito malandro carioca, passando a vida a complementar os minguados trocados dos direitos autorais com os chamados “pequenos expedientes”: venda de samba, cafetinagem, empréstimos jamais honrados, trambiques e aprontos de toda espécie. Vivia literalmente na malandragem, de corpo e alma. Seu espírito, sua linguagem e brincadeiras procuravam reproduzir as gírias e as emoções dos grandes malandros de sua época, a quem ele tanto admirava.

Wilson viveu várias polêmicas em sua vida atribulada: com “comprositores” que lhe compraram sambas e não quiseram pagar, com mulheres e com traficantes de quem, no fim da vida, comprava drogas na ilusão de aliviar a angústia provocada pelo esquecimento profissional. A mais importante foi a polêmica com Noel Rosa, já registrada em disco. Wilson compôs um samba chamado Meu chapéu de lado (“Meu chapéu de lado/Tamanco arrastando/Lenço no pescoço/navalha no bolso”), Noel rebateu com Rapaz folgado (“Deixa de arrastar o teu tamanco/ Pois tamanco nunca foi sandália/.../E guarda essa navalha/Que só te atrapalha”) e o zunzunzum começou, com a produção de belas canções como Feitiço da Vila, Conversa fiada, Palpite infeliz e Terra de cego.

Como a grande maioria dos malandros, e boa parte dos artistas que fizeram o prestígio da MPB, Wilson Batista morreu na miséria. Consumido pela droga, o álcool e a depressão, lesado pelas sociedades arrecadadoras de direitos autorais e abandonado pela maioria dos amigos. A chama se apagou no dia 7 de julho de 1968, numa enfermaria coletiva do Hospital Souza Aguiar, no Rio de Janeiro. Mas está por aí, pois qualquer malandrinho de porta de tinturaria sabe: quem samba fica.




2 comentários:

Leni David disse...

Olá Tom!
Feliz de reencontrar você e de recuperar o seu e-mail. Amei o artigo, mas fiquei com vontade de ver o vídeo que você montou. Aproveito para dizer que o link do meu blog mudou. Agora é o Baú da Princesa: http://lenidavid.com.br
Um abraço, Leni

maria olimpia alves de melo disse...

Bem legal!