quinta-feira, 2 de julho de 2009

O arraial do Junco ou Sátiro Dias



Localização Geográfica


Distante 205 Km de Salvador, o município de Sátiro Dias situa-se no litoral norte baiano, no nordeste da micro-região de Alagoinhas. Faz divisa, ao norte, com Tucano, Nova Soure e Olindina; ao sul, com Água Fria e Inhambupe; a leste, com Olindina e Inhambupe e a oeste com Biritinga e Araci. Seu principal acesso se dá pela BA-233, que liga a sede do município à BR-110, ao norte de Inhambupe.

Possui uma população aproximada de 20.000 habitantes. Sua economia é baseada em agricultura de subsistência, com pequeno destaque para a produção de maracujá, mandioca, feijão, milho, abóbora, laranja e melancia. Seu comércio é local, excetuando-se as segundas-feiras, quando acontece a feira-livre e há uma grande afluência de consumidores e negociantes das cidades circunvizinhas, resultando em considerável movimentação econômica e financeira.

Há exploração de floresta renovável, com exportação de madeira para outros estados e exportação de objetos de cerâmica para cidades próximas. O povoamento do sertão no nordeste da Bahia, de Inhambupe a Paulo Afonso, deveu-se, em primeiro lugar, aos jesuítas que adentraram o interior em sua missão catequética; depois, aos bandeirantes, principalmente os oriundos da Casa da Torre, como era conhecida a morada dos Garcia d’Ávila.

Inhambupe e Itapicuru são as duas cidades mais antigas da região e foram fundadas pelos jesuítas e franciscanos nos anos de 1572/82 e 1639, respectivamente.

Inhambupe nasceu de uma taba indígena à margem esquerda do rio Inhambupe, descoberta pelo Padre José de Anchieta e transformada numa colonização catequética. O português Alexandre Vaz Gouveia expulsou os índios, construiu habitações e a capela de Nossa Senhora da Conceição. Em 1624, fugindo da invasão holandesa à Bahia, o coronel Guilherme Dias d’Ávila, um dos herdeiros da Casa da Torre, armou acampamento na outra margem do rio Inhambupe e, com a desculpa de ter encontrado minas de salitre, obteve a posse das terras descobertas, uma sesmaria de seis léguas, compreendida entre os rios Inhambupe e Itapicuru.

Fazia parte dessas terras o território da hoje Sátiro Dias. Construiu uma igreja, com o nome de Divino Espírito Santo de Inhambupe, em torno da qual surgiram outras construções.

A Lagoa das Pombas

No início era uma lagoa. Um paraíso tropical no meio do caminho dos vaqueiros que se dirigiam de Bom Conselho (hoje Cícero Dantas) ao mercado emergente de Feira de Santana. Recebeu o nome de Lagoa das Pombas por ser um santuário dos columbídeos e ponto de encontro de outros animais. Os vaqueiros, passantes, errantes itinerantes tinham-na como um oásis no meio da aridez hostil da caatinga. Fazia parte da Fazenda Junco de Fora, uma sesmaria vinculada à Casa da Torre. Em meados do século XIX o Visconde da Torre doou suas terras ao Conselheiro Dantas, de Inhambupe, que, com seu tempo todo tomado pelo Engenho Itapororocas, contratou o vaqueiro João José da Cruz, um migrante de Bom Conselho, como administrador da fazenda.

João José da Cruz era filho do português Roque Gonçalves com uma índia, e, além de vaqueiro, administrava uma das fazendas do seu pai, a Fazenda Cruz, na região de Nossa Senhora do Bom Conselho dos Montes do Boqueirão. Por volta de 1850, talvez por morte do seu pai, a Fazenda Cruz foi vendida, o que gerou a migração da família Cruz para Inhambupe. Anos depois, com a decadência do Engenho Itapororocas e ascendência política, o Conselheiro Dantas vendeu uma parte de suas terras para João da Cruz e seus parentes.

Manoel José da Cruz, filho de João da Cruz, se casou com a filha de um português abastardo, recebeu um bom dote de casamento conforme costume da época, e empregou o dinheiro do dote na compra das terras da Fazenda Junco de Fora, ficando com o maior quinhão. Eram terras devolutas, ainda a serem exploradas, com pouco ou nenhum beneficiamento, sem meios de escoamento da produção e por isso não tinham o valor de mercado que têm hoje. As sedes das fazendas eram casebres de taipa, cobertura de pindoba e piso de chão batido.


Nasce um Arraial


De 1877 a 1879 houve uma terrível seca que assolou o Nordeste e causou grande destruição e a morte de 500 mil pessoas. Uma imensa massa de retirantes nordestinos, por contingência imperativa das necessidades, migrou para as lavouras de café, em São Paulo. A chegada ao eldorado sulista coincidiu com a multidão de italianos, imigrantes da Europa para as lavouras paulistas. Os fazendeiros daquela região deram preferência aos italianos, por terem mais conhecimento e técnica agrícola. À medida que o tempo passava, piorava a situação dos retirantes, que chegavam aos montes. A alternativa encontrada foi a de mudar o rumo da imigração para as selvas amazônicas, e lá se transformaram em seringueiros, invadiram terras bolivianas e fundaram o estado do Acre.


Manoel José da Cruz, filho de João José da Cruz, conhecido como Manezinho dos Pilões, foi o primeiro a sentir os efeitos da seca de 77. Quando o sol esquentou e a água rareou na Fazenda Pilões, teve a ideia de procurar abrigo às margens da Lagoa das Pombas. Capinou o lajedo existente onde hoje é a praça Juracy Magalhães Júnior e construiu sua casa, um pouco distante das enchentes, mas perto da água lagunar. O seu filho Manoel da Cruz, conhecido como Mané Moço, seguiu o seu exemplo e construiu ao lado. Com o prolongamento da estiagem, outros filhos foram obrigados a buscar abrigo à sombra das árvores que margeavam a lagoa, formando um aglomerado de três a quatro casas.


Era costume do povo de antigamente fincar uma cruz no ponto mais alto de suas terras, geralmente o topo de um morro. A cruz era o símbolo cristão por excelência, marco da fé e, ao mesmo tempo, guardiã da propriedade. Acreditava-se serem os morros o caminho mais curto para o Céu. Quanto mais alto, mais perto de Deus se estava e, por isso, a cruz era usada como ponto de penitência e orações. Sua proteção se estendia até a curva da linha do horizonte, onde fosse possível enxergá-la.

No ano de 1884, Manoel José da Cruz subiu no morro mais próximo do povoado, olhou para as quatro casas erguidas na planície e fincou uma cruz, invocando a guarda e a proteção divina para o seu povo.


Em 1887 a igreja de Inhambupe desmoronou e as missas passaram a ser celebradas em casas de orações. Manoel José da Cruz construiu uma ao lado do cruzeiro e o local ficou conhecido como Alto da Cruz da Boa Vista e era lá que o Cônego Maximiano Febrônio Esmeraldo, da paróquia de Inhambupe, ministrava o Sacramento Eucarístico para os moradores da região. Com a construção de uma capela em 1905, a casa de oração foi destruída, o cruzeiro substituído, e o local passou a se chamar conforme o conhecemos hoje, ou seja, Cruzeiro dos Montes.


Entre a lagoa e a casa de oração havia uma planície. Os fazendeiros locais foram construindo casas para descanso em dia de missa e assim surgiu um pequeno aglomerado de casas que foi batizado arraial do Junco, em alusão à Fazenda Junco de Fora.


Em 23 de junho de 1927 o arraial foi elevado à categoria de 4º distrito de Inhambupe, mudando seu nome para Sátyro Dias e assim permaneceu até o dia 14 de agosto de 1958, quando foi desmembrado de Inhambupe, tornando-se no município de Sátiro Dias.


O desmatamento provocado pela explosão demográfica dos novos assentados fez a lagoa minguar, definhar, secar, até a sua extinção total, deixando, em seu lugar, um vasto campo de lama. Aterrado, hoje se transformou num empreendimento imobiliário popular.

Sátyro de Oliveira Dias
Quem foi o bacana

Sátyro de Oliveira Dias foi um misto de médico-militar, abolicionista e político. Nasceu em 12 de janeiro de 1844, na cidade de Inhambupe, e, aos 22 anos, ingressou na vida pública ao se alistar no Exército, voluntariamente, como médico-estudante, para participar da Guerra do Paraguai. Retornou à Pátria 3 anos depois, em 1869, nos estertores finais da guerra, trazendo no peito o Hábito da Rosa e os galões de primeiro-cirurgião. Retornou aos estudos, na Faculdade de Medicina, e, no ano seguinte, concluiu o curso, sendo o orador da turma.


Casou-se em 1874. Participou da Assembléia Provincial em 1882. Foi presidente da Província do Ceará, em 1884, e aboliu simbolicamente a escravidão naquela província. Como a seca que assolou o Nordeste nos anos 1877 a 1879 obrigou os senhores de escravo do Ceará a libertá-los por não ter como alimentá-los, Sátyro Dias comprou quatro escravos em Pernambuco e, em seguida, os libertou, decretando o fim da escravidão naquela província. Em 1885 se elegeu deputado geral pela província do Amazonas.


Em 1889, participou do governo, na Bahia, como diretor-geral da Instrução Pública, sendo eleito, posteriormente, deputado-constituinte, onde foi o vice-presidente da primeira Assembleia Constituinte pós-República.


Em 1895, participou do Governo Rodrigues Alves como Inspetor Geral do Ensino, renunciando, posteriormente, para integrar o governo baiano de Luiz Viana como Secretário do Interior.

Em 1899, se aposentou da vida pública, mas não da política: foi eleito deputado em duas sucessivas eleições.


No dia 3 de maio de 1913, fez seu último discurso, em homenagem ao Descobrimento do Brasil, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, do qual era Vice-Presidente, vindo a morrer três meses depois, em 18 de agosto de 1913, em Salvador.


Em 13 de julho de 1927 o povoado do arraial do Junco foi elevado à categoria de distrito e, em sua homenagem, foi posto o seu nome, sabe Deus o porquê dessa honraria aos junqueses, vez que até hoje o povo de Inhambupe ignora a biografia de tão ilustre conterrâneo. A prova disso é que em 1941 os inhambupenses deram o seu nome às Escolas Reunidas, porém no currículo da Escola consta uma biografia totalmente equivocada.

Na cidade de Natal, RN, além de ser nome de rua, é também homenageado em três travessas e uma vila. Outras cidades também lhe renderam homenagens em forma de nome de rua. São elas: Alagoinhas e Guanambi (BA); Manaus (AM); Fortaleza (CE); Recife (PE) e Guarulhos (SP).



Do livro “Arraial do Junco: Crônica de Sua Existência”, desse escriba que vos fala.

6 comentários:

Topeiraas disse...

eu acho q deveria ter mais coisas falando da cidade "como agora mesmo eu tou precisando fazer um trabalho e ñ tem o q eu quero.

Tom Torres disse...

Joice, na Biblioteca Antonio Torres você encontra o livro arraial do Junco, onde você deve encontrar o que precisa.

Anônimo disse...

Fiquei muito feliz, sobre as informações sobre o municipio. Alguns meses atras não tinha nada.
as fotos me deram uma imagem de como é a cidade, pois vou morar lá.A primeira vista gostei. Já conheci algumas pessoas que moram na cidade e são bem simpáticas.
Alem do mais, esse sotaque que vcs têm acho tão bonitinho. Espero gostar muito do povo e da cidade.

Unknown disse...

Muito interessante o histórico do "O arrail do junco ou Sátiro Dias". Nasci e cresci neste pequeno torrão que amo tanto e não conhecia como foi dundada esta cidade. Parabéns.

Pauliinha disse...

Interessante, ouvi muito falar desse local, meu nasceu, acredito, em Sátiro Dias, pelos idos de 1905 onde viveu a mocidade...

arlete disse...

Olá Tom , olha tem muito interesse nesse livro Arraial do Junco, para poder aprofundar melhor a história da cidade,de onde pretendo organizar assim as fontes para o projeto de mestrado. Não sou filha da cidade mas a minha família toda é daí. Deixo meu email para contato. lete20780@hotmail.com.