terça-feira, 10 de novembro de 2009

Aos Mestres Com Carinho






Dentre os motivos que se deve ir a uma bienal do livro, destaco as palestras. Mesmo as ruins, são boas.

Numa bienal do livro há palestras e oficinas para todos os gostos, credos e ideologias. Pode-se encontrar padre falando de Padim Ciço Romão Batista, o Padre Cícero de Juazeiro, ou a Maitê Proença negando sua vocação a atriz, decerto, decepcionada com sua performance no vídeo feito em Portugal e que quase gera uma crise diplomática.

Alguns palestrantes decepcionam, principalmente os de autoajuda (essas palavras compostas que perderam o hífen é um saco!), pois geralmente o ouvinte que adentra a esse tipo de palestra vai em busca de aconselhamentos para vencer na vida sem fazer muito esforço. Sai desnorteado com a enxurrada de propaganda do livro do palestrante. Quem quiser saber como ficar rico, primeiro terá que empobrecer na banca do vendedor de livro.

Os palestrantes globais são os mais concorridos. A prova disso foi o que aconteceu na palestra da Maitê Proença: o público quase põe abaixo o auditório onde ela ia conversar abobrinha com o povão. E tiveram que arranjar um espaço maior. Pra variar, ela atrasou quarenta minutos e o zé-povim não reclamou. Só o meu exército revolucionário de dois soldados e eu, perfilado no fundo do auditório, protestamos a favor da igualdade de direitos: se os outros palestrantes tinham que obedecer horário, a Maitê também tinha. Como nossas palavras de ordem passaram a ter ressonância no auditório, uma moça simpática e gentil nos arranjou onde sentar, bem à frente da mesa. E, por causa de três míseras cadeiras, deixamos calar a nossa voz. Mas a Maitê entrou em seguida, de saia justa, quebrando o protocolo, antecipando sua fala à apresentação protocolar de praxe.

Assim, reconsiderei os argumentos dos portugueses quando a chamaram de burra: ela não é burra; é grossa mesmo. Em protesto, fomos para a palestra do Salgado Maranhão (mas nós íamos de qualquer jeito. Estávamos lá só fazendo hora).

Os escritores midiáticos só perdem mesmo numa bienal nordestina para o ícone paraibano da poesia matuta Jessier Quirino. Esse é demais. Na palestra-show do mesmo havia gente vazando pelo ladrão. Em seguida à palestra, formou-se uma fila imensa no stand da Editora Bagaço para comprar (e autografar) seu livro, que vem com um cd de brinde.

Os organizadores da bienal insistem em manter palestras paralelas quando há determinadas atrações populares, como foi o caso do Jessier e da Maitê. Com gente subindo pelas paredes no auditório no dia da apresentação desses dois, sobrou espaço na sala de palestras, que, coincidentemente, eram os meus amigos Maurício Melo Júnior e Salgado Maranhão. É uma pena, pois eles foram ótimos. E no dia do Salgado Maranhão havia também outros poetas não menos competentes: Geraldo Carneiro e esposa.

A do Ignácio de Loyola foi antológica. Vinícius, meu filho de doze anos, saiu maravilhado. Se o Ignácio, que ao longo de sua vida só escreveu para adulto, consegue encantar uma criança numa palestra para gente grande, então está explicado o sucesso do seu livro infantil.



Um agradecimento. Aliás, quatro.
A Maurício Melo Júnior e aos professores Gerson Guimarães e Gorete Amorim e ao meu vizinho Ivânio Cunha por servirem de motorista por conta de minha habilitação estar vencida.

2 comentários:

tela disse...

Essas bienais e festas literárias, modelos atuais de encontros para socializar publicações e debater outras é repetido em todo Brasil.
Corre o povão atrás dos famosos, muitas vezes de livros mais ou menos, atropelando mestres da literatura. Muito divertido seu texto, embora tem horas que você pega pesado, mas se o tema e sério o que fazer? Rogério Dias

Luiz Andrioli disse...

Opa! Visitando!

O seu site tb está linkado no meu humilde cafofo! E sigo acompanhando as atualizações pelo feed.

Abraços!!!!!