quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

QUANDO ACABAR O MALUCO SOU EU

“Olha, toda boa, toda boa... 
Agora eu quero ouvir: ai, ai... eu sou toda boa 
Olha toda boa, toda boa... Ai, ai... 
Eu sou toda boa!!! 
Quando falar ai, ai... Passa a mão no corpinho assim ó... 
Ai, aí... Eu sou toda boa...”
(refrão da música campeã do carnaval baiano)
Ontem, ao meio-dia, enquanto esperava o ônibus no centro da cidade, um carrinho de cd pirata tocava uma música dessas bandas de pagode baiano. O bater do tambor imprimia um ritmo difícil de ser identificado: tanto poderia ser um samba, um pagode, um reggae, um rap, um technobrega ou tudo isso junto. Meus parcos conhecimentos eruditos não me permitiram separar o joio do trigo daquela preciosidade musical, cuja letra ainda massageia minha persistência timpânica: 
“Ela tá toda molhadinha
já sinto cheiro da calcinha
vou cheirar sua bundinha”
Uma vez, conversando com Edna sobre a péssima influência da axé music sobre os jovens brasileiros, assim ela me explicou a razão do sucesso instantâneo de alguns e de sua transitoriedade midiática:
– Acontece que essas músicas têm um ritmo forte, quente, e atraem a garotada justamente por não precisar forçar os neurônios para decorar letras complexas. Eles querem dançar, e não cantar, e nisso a melodia é muito boa. Quem oferecer melhor opção de se dançar sem precisar pensar, este será a bola da vez.
Para quem não sabe, Edna é a minha cara consorte (ou sem sorte mesmo) e é educadora (ou sofredora) e por isso falou com a sabedoria de um sábio chinês. Se é que realmente existe algum sábio chinês. 
Nunca havia pensando nas razões dessa juventude atarantada que chega a pagar mais de dois mil reais por um pedaço de pano que dá direito a se desgastar atrás do trio elétrico do Chiclete com Banana, apesar de ter acompanhado o nascimento, o auge e, espero um dia, a morte dessa praga que leva o nome indevido de “axé”. Cada vez mais aumenta a corrente dos contra na Soterópolis. Do Abaeté ao Farol da Barra, do Porto até o Largo dos Tamarineiros, na Ribeira, no carnaval passado, não se ouvia um elogio ao carnaval. Branco, preto, loiro e mulato, cada um a seu modo, reclamavam da “turistização” da festa que até vinte e um anos atrás tinha o sotaque genuinamente baiano. Nos jornais, colunistas famosos reclamavam; na rua, Carlinhos Brown pedia ao ministro da Cultura o fim do apartheid das cordas; no chão, Caetano Veloso brincava na pipoca de Margareth Menezes e se dizia contra os camarotes e as cordas; na tevê, Armandinho e outros desciam a ripa no mercantilismo carnavalesco; no Mudança do Garcia um artista plástico denunciava que “em todo bloco de corda há um pouco de navio negreiro” e “em todo camarote há um pouco de casa grande”. Na quarta-feira de cinzas o prefeito de Salvador anunciava nos jornais: “É preciso repensar o carnaval”.
O que se viu foi um carnaval completamente esvaziado do publico pipoca, aquela enorme multidão que deu voz ao carnaval baiano e que cada vez mais se sente alijado de sua festa. Da Castro Alves ao Campo Grande, do Farol da Barra a Ondina, podia se andar tranquilamente pelas ruas da folia, pois era pífia a presença do folião fora das cordas e o empurra-empurra, característica do carnaval de rua, este ano praticamente não existiu, exceto em alguns pontos badalados, como o em frente ao camarote de Daniela Mercury e do Expresso 2222, onde os artistas se esmeram no puxa-saquismo desenfreado.
Mas o carnaval não foi perdido de todo. Ainda sobra espaço para os foliões da velha guarda. O Centro Histórico é um deles. E se tornou o carnaval da família, com milhares de mamães corujas brincando com seus bambinos atrás de bandinhas de frevo e marchinha. A violência inexiste e quem ousar tocar axé, será sumariamente defenestrado do circuito. O contraponto é que a cada ano aumenta a afluência de público, principalmente o infantil, e brincar atrás de um bloco requer um verdadeiro teste de paciência e tolerância ao se tomar banho de spray de espuma, brincadeira preferida da garotada. Inocentemente, elas revivem os primórdios do carnaval, quando ainda se chamava “entrudo”.
Outro local aprazível é o bloco de protesto Mudança do Garcia, que sai na segunda-feira. Esse bloco é formado pelos sindicatos e arrasta uma multidão de foliões, sem corda nem segurança. Quem chegar cedo à concentração, ganha camisa dos vários blocos que acompanham o cortejo, animado por bandas e mini trios elétricos, e as músicas tocadas são as dos carnavais de antigamente: marcha, frevo, samba ou samba de roda. Uma grande parte dos participantes é constituída de jovens, o que significa que nem tudo está perdido. 
Hospedado no Farol da Barra, não poderia ir para casa sem apreciar a magnitude sublimada das estrelas da festa. Depois de curtir o carnaval de outrora, tomava uma overdose de axé musical antes de dormir e, para meu espanto, nossas divas se esmeraram em sucessos antigos, deixando para trás a fraca criação carnavalesca. Frevos e marchas podiam ser ouvidos constantemente, o que me trouxe a risonha esperança de que algo vai mudar sob o céu anil da mais velha capital do Brasil. 
Mas, voltando ao carrinho de cd pirata que repetiu a música “molhadinha” enquanto eu esperava o ônibus, a aberração musical incomodava os meus ouvidos e, quando pensei em pedir ao pirateiro para mudar a faixa do cd, notei que a maioria das pessoas presentes sacudia o corpo no ritmo do cavaquinho. Recolhi-me à minha insignificância e puxei conversa com uma senhora, acompanhada de duas adolescentes, provavelmente suas filhas. Tive a impressão de que ela também não estava gostando do que ouvia. Animei-me a falar da falta de imaginação (ou talvez excesso de intolerância de minha parte) dos compositores de tais músicas, quando ela me interrompeu para falar com as filhas:
– Olhaí a música que vocês gostam. Por que não aproveitam e dançam enquanto o ônibus não chega?
Por sorte meu buzú chegou e não precisei dar testemunho dessa decadência moral. O mundo se perdeu na indecência globalizada enquanto católicos e evangélicos preocupam-se apenas com o uso da camisinha ou com as pesquisas de célula-tronco, que podem salvar muitas vidas. Salvemos o mundo da indigência cultural e da mediocridade que a acompanha. 
Dançar é preciso, mas cantar é fundamental.



3 comentários:

Luiz Andrioli disse...

Amigo

Onde está o bom gosto deste povo? Como mudar isso??? Este tipo de música incomoda quem tem um mínimo de sensibilidade...
Eu sou esperançoso e ainda acredito na força daquele carnaval de marchinhas...

Belo relato!

janio esequiel torres santos disse...

concordo com tudo que disse tom,mas vc esqueceu de colocar ai o nosso encontro em maia a multidão na barra.lembra?rs e olha que vc tava cutindo o som do harmonia do somba rsrsr abraços

Tom do Junco disse...

Não, Jânio, não curtia o Harmonia. Nos encontramos depois que passou o Asa de Águia. E eu não fui pra Barra curtir; é que estava hospedado lá, na casa do meu irmão, conforme faço todos os anos. Quando nos encontramos eu retornava do Pelô.