terça-feira, 20 de julho de 2010

Moacyr, o Matador

De O matador

Ele tem por nome de batismo Moacyr de Tal, mas, a depender da pessoa e do momento, também atende por Chupa-Cabra, Jurubeba e seu Madruga, o pitoresco personagem do soup ópera Chaves, pai da Chiquinha e que, invariavelmente, apanha de dona Florinda.

Seu Madruga, digo, Moacyr não é cearense dos olhos amarelos, mas se orgulha de já ter matado seis pessoas, seis “desinfelizes” que tiveram a audácia de duvidar de sua macheza, na sua cidade natal, Paulo Jacinto, a oitenta quilômetros de Maceió. Se bem que, dos seis, três morreram de susto, dois de raiva e um, cujo relato farei adiante, teve uma originalidade burlesca e ele foi obrigado a fugir de sua cidade para não morrer nas mãos dos irmãos e parentes do desencarnado, que queriam beber o morto com o sangue do seu carrasco.

O seu pai foi morto em uma briga de faca nos primeiros anos de sua existência e a sua mãe, sem ter como arranjar trabalho, fora obrigada a enrolar fumo em Arapiraca, posteriormente se mudando para lá em uma camionete paga por um político local. Moacyr viveu brincando em uma plantação de fumo até os dez anos, quando a sua mãe arranjou um amante e o mandou de volta para acabar de ser criado por um irmão do seu pai. Instalado na casa do tio, em Paulo Jacinto, desconjurou a mãe, brigou com o tio e foi morar com um fazendeiro, o antigo patrão do seu pai. Cuidava das tarefas domésticas e, nas folgas, treinava para ser vaqueiro ou ia para o centro urbano brincar de mocinho e bandido com uns amigos. Como já havia matado cinco, e a sua fama de mal corria cidade afora, ele só fazia papel de bandido.

Ele, e mais todo o pessoal que descia da roça, eram os bandidos contumazes nas brincadeiras, pois o roceiro, em qualquer situação, é discriminado pelos moradores da urbe.

Um dia Moacyr resolveu montar o seu acampamento de bandido na mata circundante da periferia. Na primeira laçada que jogou, prendeu um “mocinho”, arrastou para o seu acampamento, amarrou o moço em uma árvore, colocou uma mordaça nele para que não alertasse os outros e saiu à procura de mais “mocinhos” para fazer prisioneiro e assim ganhar a parada. Andou cauteloso pela periferia, se escondendo nos postes ou atrás dos muros, até que avistou a turma animada em uma rodada etílica em um cacete armado. Moacyr chegou de surpresa, rendendo todos, mas foi informado de que a brincadeira acabara e que a nova modalidade era o jogo de porrinha e ele estava convidado a participar. Uma rodada valia cachaça, outra cerveja, e a outra, qualquer tira-gosto da visgueira: sardinha ou salsicha em lata.

Lá para as tantas, sem atinar coisa com coisa, Moacyr montou em sua jumenta e pegou o rumo da roça. Quinze dias depois picou esporas para a cidade e procurou a turma para uma nova brincadeira. Os amigos não quiseram brincar. Estavam preocupados, pois um deles havia desaparecido desde o dia da última brincadeira. E ninguém tinha a menor pista. Moacyr levou a mão à testa, preocupado. Entretido na cachaça e no jogo da porrinha, esquecera o colega amarrado em seu acampamento. Foram todos ao local e encontraram o corpo do amigo em adiantado estado de putrefação.

Antes da chegada da polícia, saiu de fininho, sorrateiro, sonso, pegou um ônibus para Maceió e nunca mais ninguém soube de Moacyr, o Matador.

2 comentários:

Elton Sipião O Anjo das Letras. disse...

Boa crônica, nossa ele matou sem ter a intenção de matar!É esse tipo de brincadeira e bebida realmente juntos não dão certo. Como sempre Tom um texto muito bem escrito. Abraços poéticos.

Anônimo disse...

Muuuuito bom,esse conto!A prosa de Torres me lembra a boa narrativa do João Ubaldo Ribeiro.Dizer que a semelhança se faz pelo humor,inventividade é redundante.Tom ,sua escrita é uma feita para ler e reler.Obrigada.

Edimaura Santama