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De Pescador de piaba |

Diariamente, armado dos apetrechos necessários, eu me dirigia ao velho tanque e, sem maiores sacrifícios, pescava uma enfiada de piabas. A pior parte – limpá-las e tratá-las – ficava por conta da Bia, minha irmã querida. Postas para secar numa folha-de-flandres, estavam prontas para serem fritas na gordura quente. Comê-las era sempre a melhor parte. Entre os comensais das minhas piabas, figurava seu Pojucã Aragão, com seu narigão de árabe e o cheiro de nicotina que o denunciava a distância. Seu Pojucã degustava as piabinhas fritas com cachaça Claudionor Carneiro. Só pagava a bebida: o tira-gosto era uma “cortesia” da tia Purcina. Todos os dias, antes do almoço, o ritual se repetia como se fosse uma devoção.
Vai que um dia, por um motivo qualquer, não fui pescar. No horário de sempre, o cidadão chegou, pediu uma talagada de cana e ficou à espera das piabas. Ao saber que não as teria, ficou bastante desapontado. Com ar de inquisidor, perguntou-me: - Você não foi pescar por quê? Como, desde pequeno, não gosto de dar satisfações a ninguém, mesmo correndo o risco de pegar uns cocorotes de dona Purcina, nem titubeei: Porque não quis! O cidadão percebeu que no grito nada conseguiria. Cordato, me fez a seguinte proposta: - Amanhã, se você pescar cem piabas, lhe dou uma camisa. Para encurtar a arenga, no dia seguinte, ao meio-dia, 102 piabas, salgadas e sequinhas, estavam à sua disposição. Homem de palavra, cumpriu o combinado. Foi assim que, aos nove anos de idade, comprei minha primeira camisa. Ganha um doce quem adivinhar a cor...
Por que me lembrei disso agora? Bem: na semana passada, fui a São Raimundo Nonato na companhia do violonista Josué Costa. Por falta de coisa melhor, levei-o ao velho açude para pescar piabas. Josué, que nunca pescara nada na vida, ao fisgar a primeira piaba, fez tamanho alarido que escorraçou as demais. Pediu-me que o fotografasse, exibindo a piabinha que, como uma pequena placa de cristal, debatia-se no ar. Aos olhos dos passantes, a cena poderia parecer patética. Aos meus, não. Sei, por experiência própria, que a primeira piaba ninguém esquece.
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