domingo, 4 de dezembro de 2011

Onde a saudade dói


Eu queria ter um coração duro o suficiente para não tremer de emoção quando recebo notícias de Salvador. Antigas lembranças se libertam e me envolvem numa teia nostálgica e crescente, aflorando a saudade dos velhos tempos. Foi o que aconteceu hoje, numa releitura de Sargaços, do Cunha de Leiradella.

A cidade fascinava, encantava, enlouquecia. Conheci cada canto dos seus encantos, cada centímetro de suas emoções. As ondas traiçoeiras de Stella Maris, o feitiço mortal da Lagoa do Abaeté, a solitude de Itapuã, as batidas de limão de Amaralina, a boemia do Rio Vermelho (e também as batidas do meu amigo Diolino), a prostituição da Barra, o tradicionalismo de Santo Antonio Além do Carmo e o samba-de-roda do Mercado Modelo ou da Ribeira, em triste e nostálgico entardecer da Baía de Todos os Santos. Paripe, Periperi, Lobato e a cachoeira de São Bartolomeu, perigosamente linda e desconhecida das autoridades policiais. Era preciso salvo-conduto pra se chegar até lá sem ser importunado pelos meliantes e gatunos. O nosso era Clóvis Loureiro, um amigo do bairro do Lobato, nascido e criado na floresta de São Bartolomeu e os pivetes e malandros da redondeza lhe chamavam de “Maluco”. E só podia ser maluco para adentrar a mata para tomar banho de cachoeira, ao som dos atabaques. Em Salvador, toda nascente de água é santuário sagrado para os afro-religiosos.

As noites soteropolitanas eram curtas para o tamanho das farras. Quando os bares fechavam, à meia-noite, a farra continuava no Zanzibar, no Garcia, reduto GLS, mas que, na quebrada da noite, aceitava héteros. Quando a barra pesava, o jeito era descer pro Jereré do Macedo e ver o sol nascer no mar de Amaralina. Quando o Jereré fechou, o mestre e poeta Batatinha nos abriu as portas do seu “Toalha da Saudade”, na Ladeira dos Aflitos, onde se podia amanhecer o dia em conversas interessantes, ouvindo uma boa música da nossa MPB.

A praia do Porto da Barra era – e continua sendo - o metro quadrado de mulheres mais bonitas e sensuais do Nordeste! Eram ninfas, sacerdotisas de Eros, deusas da estética. Foi ali que tive a sensação de morar em Sodoma ou em Gomorra. Não havia como conter a libido ante a exuberância sensual das mulheres do Porto. Wonderful!

Mas, infelizmente, o que é bom tem seus dias contados. A roda-de-samba do Mercado Modelo foi substituída pela exibição de capoeira, tempos depois do último incêndio. Trocaram o improviso e a espontaneidade do baiano por grupos coreografados para turista ver. Na verdade, um assalto: o inadvertido que fotografar um “rabo-de-arraia” terá que deixar o filme ou pagar uma fortuna para os chamados “mestres”. Uma simples olhadela de um passante significa ter que desembolsar o cachê. Pague e não chore. Ou passe e não olhe.

A Ribeira e toda península itapagipana entrou numa decadência sem volta. Uma tristeza só. Último reduto das famílias tradicionais soteropolitanas, vive entregue ao Deus dará, em total abandono dos gestores públicos. E dos moradores, que migram para a Cidade Alta.

Como dizia Gregório de Mattos e Guerra: triste Bahia, o quão dessemelhante e triste. Acabaram com os puteiros, acabaram com as barracas de praia, acabaram com as festas de largo, acabaram com o carnaval de frevos e marchinhas, o Elevador Lacerda funciona capenga, só vai ao Pelô quem é turista, os clubes sociais e cinemas viraram igrejas evangélicas e Caetano Veloso só vive falando besteira. Sem falar que Gal Costa não consegue nem cantar mais de tanta plástica que fez.

A Salvador de hoje perdeu o brilho e o encanto que existiam nos meus tempos de boêmio, pelos becos do Pelourinho, pelos bares do Rio Vermelho, pelas barracas atrás do Clube Português, na Pituba, que a ressaca marinha destruiu, e nos ensaios ritmados do Ilê Ayê, na antiga Casa de Detenção, no Largo de Santo Antonio. Tudo hoje funciona em função do turismo e da exploração do turista. E os nativos sobrevivem em guetos, comendo as sobras. Fora deles, tem que se pagar pedágio. Até catador de lata é obrigado a ter licença da Prefeitura, sem falar que os padres da Igreja do Bonfim estão cobrando pela água benta aspergida sobre os fieis.

- Isto é uma vergonha!, diria, revoltado, Boris Casoy. 


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