segunda-feira, 15 de julho de 2013

De como enganamos a Ditadura e fundamos um sindicato

O setor petroquímico da Bahia já nasceu fervendo em pleno reinado da ditadura. Em 1975, depois que os militares decidiram pela criação do polo petroquímico de Camaçari, o braço da opressão desceu fundo na Aspetro, uma associação criada pelos petroleiros em 1963 e que representava o braço químico-petroquímico da Petrobrás de Mataripe. De uma só penada, a diretoria da Associação foi desfeita, seus diretores e familiares foram presos e torturados, inclusive filhos menores de idade, e posto em seu lugar homens fieis aos ditames ideológicos do governo militar. Assim, quando as empresas do polo de Camaçari começaram a contratar trabalhadores, foram esses pelegos que se diziam seus representantes.

Em 1978 o pessoal da área operacional retornou de seus estágios para a pré-operação das indústrias e então começou a se pensar na criação de um sindicato que verdadeiramente representasse a classe trabalhadora. Após dois anos de curso e estágio, os jovens operários da área técnica mantinham um forte sentimento de união e coleguismo. Mesmo porque, dentro da área de produção das empresas do porte das instaladas no polo de Camaçari, todo mundo tinha consciência de que a vida de um dependia da confiança que se tinha no outro.  

Mas como desafiar a Ditadura e fazer isso sem sofrer as retaliações dos escrotos? Matava-se, torturava-se em nome do Estado. Dois anos antes, quando eu servia o Exército, depois de um extenso treinamento de combate à guerrilha urbana, rastejando sobre um asfalto fervente, um colega não resistiu e desmaiou. Por azar, na queda, o fuzil quebrou a coronha. No outro dia já não o vimos mais. Dizia-se, amiúde e à boca pequena, que havia sido torturado até a morte para dizer quem era “o contato cubano que o mandou destruir as armas do quartel”.

Este era o xis do problema. Sabíamos que dentro da Petrobrás havia uma divisão de espionagem instalada, chamada de “Divin”, sob a gerência do Exército. As empresas formigavam de arapongas, gente conversadora, ladina, envolvente. Para azar deles, a gente também havia recebido treinamento de contraespionagem no “glorioso” Exército Brasileiro. Confie, desconfiando, era o lema. Camaçari era considerada “área de segurança nacional” e todo cuidado era pouco. Qualquer vacilo terminaria em prisão. Ou morte.

Havia umas vinte empresas de porte grande e, por necessidade de ofício, os operadores das empresas se comunicavam entre si. E foi assim que começou a troca de ideias ao pé da cerca (ninguém ousava usar rádio ou telefone para tal fim) com o conglomerado industrial.
Não me lembro de quem foi a ideia da primeira reunião para se criar o estatuto do sindicato, numa sala de um prédio comercial na Avenida Carlos Gomes, em Salvador, mas me lembro do colega que me chamou, da Pronor, cujo curso de operações fizemos juntos. Foi ele quem me pôs a par da estratégia de se chegar até o local da reunião sem que fôssemos surpreendidos pela polícia política.

A reunião aconteceu numa velha sala do terceiro andar, mas não podíamos chegar em grupos. Em frente do prédio era um ponto de ônibus e a gente tinha que parar nele, se comportar como se tivesse esperando um ônibus até que alguém fizesse um sinal discreto de que podia entrar. Assim, gradativamente, um a um adentrava o prédio. Uma vez dentro, subíamos pela escada até o primeiro andar e pegávamos o elevador; descíamos no quinto e pegávamos a escada até o terceiro andar. No terceiro andar, parávamos em frente ao elevador e aguardávamos uns minutos para vermos se não fomos seguido. E assim foi até que se fez o estatuto e se fundou o Síndiquímica.

Depois veio a pergunta crucial: como filiar sem que o filiado sofresse penalidade? Decidiu-se então pela filiação em massa, por debaixo dos panos, e as fichas só seriam mandadas às empresas quando não houvesse o risco de demissão, pois, em fase de pré-operação, elas não iriam sofrer baixa que pusesse em risco a segurança da planta. E, graças a essa iniciativa, o sindicato foi criado com milhares de filiados e a ditadura teve que engolir aquele que, em menos de cinco anos, se tornou o terceiro maior sindicato do Brasil, só perdendo mesmo para o dos petroleiros e o sindicato dos metalúrgicos, em São Paulo.

A diferença era que os filiados do sindicato dos petroleiros eram trabalhadores estatais, com estabilidade garantida em lei, e os do ABC paulista eram velhos marinheiros, macacos velhos, tarimbados na luta trabalhista do getulismo, enquanto nós, petroquímicos, éramos só uns garotos cheios de sonhos e que amavam os Beatles e os Rolling Stones.

Assim, como os garotos de Liverpool revolucionaram o mundo musical, os garotos de Camaçari revolucionaram a relação capital-trabalho da petroquímica mundial.
E, com muito orgulho, eu era um desses revolucionários.

Abaixo, vídeo-documentário apresentado à Comissão de Anistia.



Nenhum comentário: