O sol da tarde dourava a poeira que subia devagar sobre a terra batida. Sentado em uma pedra sem encosto, olhar profundo para o céu sem nuvem, o Grande Chefe Touro Sentado parecia um monumento esculpido pela própria natureza — impassível, solene, imune à pressa do tempo e o calor do sol.
Um sujeito aflito, daqueles que carregam nas costas o peso do absurdo contemporâneo, limpou o suor da testa e mandou a pergunta entalada na garganta de tantos seres pensantes:
— Grande Chefe Touro Sentado, me explica uma coisa: como é que pode? Se o mundo é assim, redondo, perfeito, por que cargas d'água o Brasil insiste em produzir tanta besta quadrada? Como entender essa gente que acredita que o Flávio, além do remédio de graça, vai dar também um celular para cada doente para poder avisar que está na hora de tomar o remédio?
O silêncio que se seguiu foi denso e sagrado. Ouvia-se apenas o canto da maritaca a léguas de distância.
O Grande Chefe Touro Sentado não piscou. Nem se levantou. Respirou fundo, o peito subindo e descendo em um ritmo antigo, e voltou os olhos para o horizonte distante. Lá longe, onde o céu encontrava o nada, parecia flutuar a miragem fantasma de um velho navio pirata, sacudindo no vento uma bandeira negra com o número 22 que ninguém mais conseguia ver.
Com a ponta de um graveto, o cacique curvou-se e começou a riscar o chão. Desenhou com precisão os continentes, os oceanos, as curvas de um planeta redondo e finito. Olhou para o mapa-múndi gravado na terra, mirou o visitante perplexo com o conhecimento do índio, reuniu toda a sabedoria ancestral acumulada nas eras e soltou a sua grande e definitiva revelação:
— Muuuuuuuuuuuuuuuuuu!
O visitante piscou treze vezes encabulado com a descoberta. O vento soprou leve. E, no fundo, no silêncio daquela tarde, a resposta não poderia ter sido mais perfeita.

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