sábado, 25 de julho de 2009

Antônio Torres escreve tratados de delicadeza





Eu nem vou me atrever a dizer que esse texto é uma resenha, porque não é. Ou que é uma biografia porque também não é. É só meu jeito arrevesado de partilhar achares e pensares, partilhar sabores e saberes. Só meu jeito de dizer o quanto gostei de ler e o quanto gosto de reler SOBRE PESSOAS, última publicação escrita de Antônio Torres.


Escrever sobre pessoas, sejam elas do meu afeto, das relações de trabalho ou sobre quem simplesmente admiro e respeito em determinado campo de atuação, embora goste de fazê-lo não é tarefa das mais simples. Causa-me certo acanhamento, certo temor, pois me exige um conhecer, uma capacidade de observação e perspicácia que estou longe de ter. Daí o meu encanto com o livro, por ser esse mergulho na alma humana, por ser esse tratado de gentileza e amorosidade ao ser humano. Encanto-me tanto que, volta e meia, venho re-visitar um ou outro personagem tão bem retratado pela alma generosa e carinhosa do autor.


Na primeira leitura que fiz em 2007, me emocionei muito com vários textos. Todos impecáveis, poéticos, sensíveis, mas como não chorar com a lembrança do querido João Saldanha após sua maravilhosa FOI BOM TE OUVIR, JOÃO? Confesso minha predileção pelo texto sobre Alexandre O' Neill e por A MÃE, AS PROFESSORAS E OS DIAS DE UM ESCRITOR, por motivos óbvios: Um é poesia da melhor qualidade e o outro é um memorial impecável sobre o ato de ler.


Totinho - É assim o tratamento carinhoso de sua mãe e irmãos e de tantos que lhe são caros - não disse antes, mas digo agora: SOBRE PESSOAS é o tipo do livro para se carregar pela vida afora. Digo também que lembro com carinho do primeiro livro seu que li, em 1978. ESSA TERRA, além da beleza poética, é também um tratado de delicadeza e humanidade. Seus personagens são tão humanos que reconheci neles pessoas caras, do meu mundo de menina da roça. Quando li, pensei no Mestre Graça e compreendi ainda mais a angústia e o fascínio desse universo tão presente em minha constituição de ser.


Minha admiração por sua escrita inteligente e intensa permaneceu ao longo de tantas coisas boas que li e quando, muitos anos depois a vida nos juntou, autor/leitora, cunhado/cunhada já éramos amigos. Aprendi e aprendo muito com o jeito humano com que trata seus personagens. Não os julga, não os demoniza, apenas expõe suas emoções com o filtro de sua sensibilidade e isso me encanta.


Tenho, confessadamente, o vicio das releituras. Mas não releio qualquer livro. Os que escolho para reler são os especiais, os raros, os que me tocaram o coração e alma por motivos dos mais diversos. Portanto meu caro, sempre que volto a SOBRE PESSOAS ou a qualquer dos seus livros, ou mesmo quando te leio na rede, reafirmo o quanto aprendo, o quanto gosto da escrita de Antônio Torres.


Abraço afetuoso extensivo a Sônia.



Saiba mais


Antônio Torres (Sátiro Dias, 13 de setembro de 1940) é um escritor brasileiro. Nasceu em 1940, num povoado chamado Junco (hoje a cidade de Sátiro Dias), no sertão da Bahia. Descobriu a vocação literária na escola rural de sua terra, incentivado pela professora. Logo começou a escrever as cartas dos moradores da cidade, a recitar poemas de Castro Alves na pracinha da cidade, a ajudar o padre a rezar missa em Latim. Estudou em Alagoinhas e Salvador, onde se tornou repórter do Jornal da Bahia. Foi jornalista e publicitário em São Paulo e em Portugal. Depois de muitas andanças pelo país e pelo mundo, radicou-se no Rio de janeiro onde reside em Itaipava (Petrópolis). Hoje é um dos escritores mais conhecidos de sua geração, com livros traduzidos na Itália, Argentina, México, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Bélgica, Holanda, Israel, Bulgária, entre outros.


Prêmios

Romance do Ano - 1996

Concedido pelo Pen Clube do Brasil.

Prêmio Hors Concours - 1998

União Brasileira dos Escritores

Chevalier des Arts et des Lettres - 1998

Condecorado pelo governo francês.

Prêmio Machado de Assis - 2000

Concedido pela Academia Brasileira de Letras.

Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura - 2001

Na 9ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo - RS.

Publicações

Um Cão Uivando para a Lua (romance). Rio de Janeiro, Edições Gernasa, 1972; 3a ed., São Paulo, Ática, 1979.

Os Homens dos Pés Redondos (romance). Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1973; 3a ed., Rio de Janeiro, Record, 1999.

Essa Terra (romance) São Paulo, Ática, 1976; 15a ed., Rio de Janeiro, Record, 2001.

Carta ao Bispo (romance). São Paulo, Ática, 1979; 2a ed., São Paulo, Ática, 1983.

Adeus, Velho (romance). São Paulo, Ática, 1981; 4a ed., São Paulo, Ática, 1994.

Balada da Infância Perdida (romance). Prêmio em 1987, Pen Clube do Brasil, categoria "Romance". Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986; 2a ed., Rio de Janeiro, Record, 1999.

m Táxi para Viena D’Áustria por ter este livro e Essa Terra traduzidos na França, recebe, do governo francês, o título de "Cavaleiro das Artes e das Letras" em 1999. São Paulo, Companhia das Letras, 1991; 4a ed., Rio de Janeiro, Altaya/Record - Coleção Mestres da Literatura Portuguesa e Brasileira, 1999; 5a ed., Record, 2001.

Centro das Nossas Desatenções (crônica). Rio de Janeiro, RioArte/Relume-Dumará, 1996.

O Cachorro e o Lobo em 1999 ganha o Prêmio "Hors-concours de Romance" (para obra publicada) da União Brasileira de Escritores. Rio de Janeiro, Record, 1997; 2a ed., Rio de Janeiro, Record, 1998.

O Circo no Brasil (crônica). Rio de Janeiro/São Paulo, Funarte/Atração, 1998.

Meninos, Eu Conto (literatura para jovens). Rio de Janeiro, Record, 1999; 3a ed., Record, 2001.

Meu Querido Canibal (crônica). Rio de Janeiro, Record, 2000; 2a ed., Record, 2001.

O Nobre Sequestrador (romance). Rio de Janeiro, Record, 2003.

Pelo Fundo da Agulha (Romance). 2006, Rio de Janeiro, Record.

Minu, O Gato Azul (infantil) Rio de Janeiro, 2007.

Sobre Pessoas (Crônicas), Editora Leitura, Belo Horizonte, 2007.


Sobre o autor, fonte: Wikipédia




quinta-feira, 16 de julho de 2009

A CHEGADA DO HOMEM À LUA

De A chegada do homem a Lua


Quarenta anos atrás fiquei com o meu pescoço doendo de tanto olhar para o céu, tentando ver a Apolo XI pousar na Lua. A Rede Tupy de Televisão transmitia a façanha via Intelsat e o ato heróico dos três astronautas americanos causou uma revolução em nossas vidas. No dia seguinte, e nos outros que se seguiram por mais de um mês, só se falava nisso e nas escolas era obrigatório saber o nome dos três heróis espaciais e dizer as palavras históricas do comandante Armstrong no momento em que ele pisou o solo lunar na noite de 20 de julho de 1969: “É um pequeno passo para o homem, mas um gigantesco para a humanidade”. Tinha apenas treze anos e, de repente, palavras como “órbita”, “módulo lunar”, “estágio” e “reentrada na atmosfera terrestre” passaram a ter uso corrente e obrigatório.


Eu era apaixonado por Sandra, que era apaixonada por Gilberto, que era apaixonado por Maria. Para chamar a sua atenção comecei a fumar um cigarro de marca Continental, que depois troquei por Capri, com filtro, por Minister e depois Hollywood, porém o tiro saiu pela culatra, pois ela não gostava de cigarro, muito menos de pirralho fumante.


Comprei brilhantina Glostora, sapato cavalo de aço, perfume Príncipe Negro, bicicleta Monareta, um relógio de pulso banhado a ouro de marca Seiko e um disco de Roberto Carlos que tinha a música que dizia assim: “Ana / Estou tão triste/ Vieram me dizer / Que posso até morrer / Pra você...” Aprendi a letra, treinei a voz, fiz uma serenata em uma noite de lua cheia, e ela, depois de me jogar um balde d’água, quebrou o disco de Roberto Carlos na minha cabeça, desmanchando o penteado brilhantinado, e fui obrigado a fugir na Monareta o mais rápido que pude. Cego de vergonha pela fuga desonrosa, bati a bicicleta no meio fio da calçada, caí desajeitado, quebrei o braço e, de lambuja, espatifou o relógio que me custara o preço de uma vaquinha, presente de minha madrinha. Depois entendi a violência da minha Julieta: seu nome era Sandra, e não, Ana. Lastimável engano!


Sem a bicicleta, a vaquinha e o relógio, tratei de esquecer a desalmada Sandra. Apaixonei-me pela professora estagiária da escola, que também me chamou de pirralho e não quis nada comigo. E ainda me deu zero em redação, só porque lhe escrevi uma carta de amor. Assim, de paixão em paixão, algumas correspondidas, outras não, consegui chegar até aqui para contar estes dois dedos de prosa. No entanto, mesmo largando a Sandra ao seu próprio destino, não consegui largar o maldito vício do cigarro e ele me acompanhou por mais de vinte anos como meu único e verdadeiro amigo do peito.


No dia 20 de julho de 1969, e nos outros dias que se sucederam até nove anos atrás, o meu pai dizia que a Lua era coisa de Deus e que jamais o homem poria os pés por lá. A audácia humana não chegaria a tanto, dizia, entre uma filosofada e outra, para uma platéia de ouvintes atentos, homens rudes, acostumados a dormir no pôr-do-sol e a acordar no raiar do dia. Irineu de Lolô de Febrônio tinha filho professor, filho jornalista, filho escritor, e o que ele dizia devia ter um embasamento técnico, devidamente assessorado pelos filhos, que cedo ganharam o mundo para divulgar as coisas do arraial do Junco e também mandar notícias das terras civilizadas.


De nada adiantava explicar os avanços da ciência para o velho, que tinha lá os seus próprios conceitos a respeito das coisas e do mundo. Como o desmentir diante de uma legião de seguidores que o chamava de “compadre” e lhe devotava o maior respeito? Uma vez ele ousou contar, um a um, e se assustou com o resultado: chegava perto de mil o numero de afilhados. Ninguém batizaria tantos se não fosse considerada uma pessoa importante. Já nós, filhos desorbitados, debitávamos seus argumentos à força do atraso cultural a que estava relegada a terra em que ele teimava em não abandonar, isolada de Deus e do mundo, cujas notícias da civilização chegavam em lombo de animal.


Em 1999, por ocasião da comemoração dos trinta anos da chegada do homem à Lua, foi divulgada uma pesquisa em que dizia que boa parcela dos americanos também não acreditava que o homem tinha chegado lá e que tinha sido pura invenção do Governo e da NASA para engabelar os eleitores, desviar a atenção da guerra do Vietnã e se impor na corrida espacial contra os russos.


Foi uma pena que nesse dia o meu pai, chegando perto dos seus noventa anos, não mais ligasse as notícias aos fatos e, dois anos depois dessa pesquisa, tivesse partido em sua viagem intergaláctica para hastear, ele próprio, a sua bandeira em todas as luas do universo, sob o testemunho espectral dos amigos que formavam a platéia para ouvir as suas ponderações sobre a impossibilidade do homem encarnado pisar nas invenções divinas ou fazer xixi nas estrelas.

A Chegada do Homem à Lua



Em 1974 o Globo Repórter exibiu reportagem sobre o dia 20 de julho de 1969. Vale a pena rever esse momento histórico.



ATENÇÃO:

Antes de clicar no play do vídeo, dar pausa no player do blog, que fica abaixo da mensagem de boas vindas, canto direito superior.


sábado, 11 de julho de 2009

Arte Culinária É Com Minha Nêga



Quando conheci a minha cara-metade, vinte anos atrás, poder-se-ia dizer que ela não fora treinada nas prendas domésticas como são as mulheres do interior, cuja principal preocupação é a de arranjar marido. Sendo assim, se eu não tivesse atravessado o seu caminho, talvez ela continuasse solteira até hoje, haja vista o machismo brasileiro preferir a mulher que melhor serve petisco àquela com um bom papo-cabeça.


Para quem não goza da intimidade com a cozinha, fritar um ovo pode ser mais perigoso do que dar murro em ponta de faca. A verdade é que, nos primórdios dos tempos, quando ela voluntariamente se tornou aprendiz de cozinheira, levou um corte profundo no dedo, provocado por uma casca de ovo. Para a nossa felicidade, havia uma farmácia em frente de casa com um farmacêutico competente, que lhe costurou seis pontos e estancou a hemorragia.


Durante longos anos gozei a doce vida de solteiro, morando sozinho, e um curso intensivo de arte-culinária foi o caminho mais curto que encontrei para não passar fome. Rapidamente aprendi a interpretar o manual de sobrevivência na solidão da selva de pedra e em pouco tempo me tornei um expert em comida de baixo teor calórico, como feijoada, buchada, rabada, mocotó, sarapatel, dobradinha e todas as iguarias que um biriteiro precisa quando a ressaca aperta logo cedo da manhã.


Essas comidas, exceção apenas para o sarapatel, se guardadas devidamente na geladeira, duram sete dias sem alterar o sabor ou causar um estrago maior ao aparelho digestivo. Deste modo, seguindo na contramão da Criação do Mundo, mas honrando a saudável preguiça do baiano, cozinhava apenas um dia, e descansava os outros seis.


Dizem que o paulista vive para trabalhar, o carioca trabalha para viver e o baiano simplesmente vive. Não ousaria jamais contrariar essa máxima, vez que o cavalo, que trabalha pra burro, vive menos, bem menos, que uma tartaruga . O principal lema de um bom baiano é: não faça hoje o que pode ser feito amanhã. Baseado nessa premissa, nós levamos quinze dias para morrer de morte súbita. Por isso, a obrigação de cozinhar um dia na semana estava afetando meu estado mental. Consultado um analista, ele me sugeriu arranjar uma mulher de forno e fogão e aposentar meus manuais de culinária.


Obediente, saí à caça de uma fêmea à altura do meu paladar exigente e que pudesse chamar a minha mãe de sogra. Como a maioria das mulheres baianas só quer saber de festa de largo, pular de pipoca no bloco da Ivete Sangalo, soltar gritinhos histéricos no rebolado do Xande e esvaziar lata de cerveja na lavagem do Bonfim, embora vinte anos atrás ninguém soubesse quem era Ivete ou Xande, fui à caça em outros cantos, incluindo Maceió no roteiro. Em uma bela manhã de fevereiro, encontrava-me encostado no balcão de uma barraca na praia da Pajuçara, e achei engraçado o fato de duas banhistas fugirem da chuva que caiu de repente. Aproximei-me, ladino, e puxei conversa:


– Que interessante! Vocês duas estavam dentro d’água e saíram correndo para não se molhar na chuva! Que tal molhar a garganta agora?


Riram simpáticas e se declararam abstêmias. Após duas horas de conversa, descobri que nenhuma das duas sabia nada de fogão, eram apenas duas universitárias relaxando no fim das férias. Não perdi o rebolado por tão pouco, pois na minha terra também existe outro ditado dizendo que “quem não tem tu, vai tu mesmo” e não deixaria passar em brancas nuvens a minha estada em Maceió só porque as meninas não eram prendadas na arte do cozinhar. Nesta cidade deve existir bons restaurantes, pensei com os meus botões, apesar de trajar apenas uma sunga.


Não me senti no dilema “shakespeariano” e a minha escolha seguiu os preceitos da arte do melhor amar, apesar de ela trapacear a colega no jogo da porrinha. No amor e na guerra, vale tudo, se justificou inocentemente. Meses depois, por amor, ela se submeteu ao meu intensivo de culinária e hoje cozinha divinamente bem, a ponto de, incentivada por um compadre especialista em cozinha internacional, rascunhar um livro de receitas da comida alagoana, devidamente prefaciado pelo farmacêutico que costurou seu dedo quando se cortou na casca de ovo e mais outros pontos em suas mãos devido a cortes agudos no cabo da colher de pau.


Graças a esse seu gosto adquirido pelas prendas da cozinha, aprendemos a conjugar o verbo envelhecer juntos em sua plenitude: ela, tonalizando os cabelos de vez em quando; eu, deixando-os embranquecer naturalmente, pois, se é de agrado à vaidade feminina e do prazer masculino a mulher disfarçar a ação do tempo em produtos afins, ridículo se faz um homem renegar sua maturidade física manifesta nos cabelos brancos e sair por aí pingando tinta sobre os ombros, embora o Viagra possa negar a senilidade latente e nos tornar competentes amantes tais quais adolescentes que fomos um dia.





sexta-feira, 10 de julho de 2009

FAÇA O QUE DIGO, MAS NÃO FAÇA O QUE FAÇO

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Conta o imaginário popular que em uma cidade do interior havia uma motorista de táxi imperita no volante e um padre de discurso desarticulado e enfadonho. Coincidentemente ambos morreram no mesmo dia e horário e, juntos, bateram à porta do Céu. São Pedro, cavalheiro, atendeu primeiro a mulher. Depois de examinar a sua folha corrida, deu-lhe permissão para entrar no Paraíso e desfrutar das benesses exclusivas dos beatos e santos. O padre entendeu ter o mesmo privilégio, ou mais até, porém o santo porteiro barrou a sua entrada e indicou-lhe o caminho do Purgatório. Inconformado com sua sentença, interpelou São Pedro, alegando ter sido um salvador de almas na terra, enquanto a moça fora uma ameaça pública, fazendo barbeiragem a torto e a direito, sem a menor noção de direção. São Pedro ouviu pacientemente o desabafo do sacerdote e explicou:

- A sua indignação é justa, padre, mas aqui no Céu vemos as ações humanas sob outra ótica: quando a moça dirigia, o povo todo rezava; quando o senhor pregava, o povo todo dormia. Entendeu a diferença dos atos? Ou nunca lhe disseram que Deus escreve certo por linhas tortas?

O caso seguinte aconteceu de verdade. No arraial do Junco havia uma prostituta chamada Ana de Camilo, única nas redondezas, e trabalhava dia e noite para atender a longa fila formada em sua porta. Era uma batalhadora consciente e incansável. Nunca transmitiu doença, apesar de ninguém usar camisinha. Cobrava conforme as posses de cada um, sem remexer menos por isso. Jamais reclamou da desdita nem fazia cara feia para o último cliente. A demanda era tanta que muitas vezes não se sabia quem era o último ou o primeiro da fila.

Na última viagem do Papa João Paulo II ao Brasil, escrevi uma crônica ao jornal local pedindo e justificando a canonização dessa mulher guerreira e relegada ao esquecimento. Que se faça justiça, conclamei aos quatro ventos para que fosse ouvido pelos cidadãos de bem que usaram e abusaram da única prostituta na história do arraial do Junco. Porém não contava com uma pedra no meio do caminho: o padre, que não conheceu Ana de Camilo nem enfrentou fila para molhar o pavio. Em pleno sermão da missa solene no dia da Padroeira, igreja vazando gente pelo ladrão, ele me excomungou com todos os efes e erres, me condenando à danação eterna. E como se não bastasse a sua ênfase de paladino da moral e dos bons costumes, colocou a minha cabeça a prêmio. A cidade se dividiu ao meio. Metade apoiou o padre em sua insanidade; metade queria justiça e achou que eu estava certo. O padre e a outra metade chamaram estes de hereges. Os de cá chamaram a outra metade de ingratos e proxenetas. Os ânimos se acirraram. O padre queria ressuscitar a Santa Inquisição, porém, no calor da contenda, alguém o flagrou praticando sexo com uma beata. Botou a boca no trombone e o povo se revoltou contra seu santo confessor. Para complicar mais ainda a vida do sacripanta, a beata era filha de um cidadão influente e o tarado foi expulso da cidade e, posteriormente, da Igreja.

Esses falsos moralistas destroem mais que erva daninha. São uma praga, no bem dizer. Uma vez me convidaram a fazer parte de um grupo de Literatura, desses em que tem um tema e a gente é obrigado a escrever e a comentar o escrito dos outros. Movido pela curiosidade, aceitei o convite, pois nunca havia participado de nenhum grupo antes. Chegando lá, o cara que se dizia o dono do pedaço esfregou as regras na minha cara. Não pode isso, não pode aquilo nem aquilo outro. Falar não podia. Calar também não. Fiquei sem saber que atitude tomar, achando tudo aquilo muito estranho, mas o pessoal que lá encontrei tinha necessidade de aparecer e dizia amém a tudo. O tal grupo tinha o estranho nome de “Oficina de Literatura Avançada”. Será que a minha incompreensão era porque minha literatura era abaixo da média dos deuses que lá habitavam?

Seu nome: Beato Salu, o Falso Profeta, cheio de códigos morais e espirituais. Expulsou um membro pelo simples fato de escrever a palavra “bunda”. Só podia ser um desbundado. Nada que fosse relacionado a sexo podia ser dito ou pensado. O Beato Salu era a personificação da intolerância sexual. E os meus eminentes colegas achavam tudo normal, era preciso frear a libido, pois havia muitas virgens no pedaço e elas não sabiam o que era “bunda”, justificavam.

Gente assim não existe, a menos que se ache uma explicação. Um dia resolvi investigar o cidadão, através de outras pessoas que o conheciam fora do grupo. Descobri que ele era viciado em revista de sacanagem e filme pornô. Ficava até altas horas visitando site pornográfico. Compreendi, então, que a couraça do recato e da virtude a qual ele se escondia era fruto do medo que se revelasse em público o que andava fazendo na calada da noite. Caiu o véu do sacrossanto e o Beato Salu sumiu, escafedeu-se do mundo virtual, sem deixar saudades do seu falso moralismo.

Mas essa aberração, que nem Freud explica, deixou cria nesse mundão cibernético, com os paladinos da moralidade e dos bons costumes cada vez mais ativos. Dia desses, noutro grupo ciber-literário, fui chamado de medíocre por um gaulês só porque falei que gostava de entornar uma cachacinha pelos botecos da vida. Mas ele pode entornar quantas garrafas de vinho quiser do alto da Torre Eiffel que isso é chique. Chiquérrimo. De onde eu vim tem isso não, seu moço! Vinho só de Jurubeba Leão de Norte, assim mesmo para queimar a “mardita”, antes que ela queime o estômago.

Por trás desses sites de literatura há sempre um grupo de bate-papo. Conversa de notáveis. Aqueles que têm um rei na barriga e vivem a dizer “eu só me basto”. É lá que reina o império das vaidades. Triste do infeliz que ousar discordar de algum deles. É guerra declarada. Como não tenho papas na língua, não precisa dizer que já fui expulso de um bocado, principalmente por discordar das regras ditatoriais que eles impõem. O último foi um desses grandes onde pairam milhares de beldades literárias que trocam figurinhas entre si. Caí na besteira de chamar o moderador de ditador e ele, para mostrar que não era ditador, me expulsou sumariamente.

Alegou que o moderador era um Onipotente, Onipresente, Onisciente e não poderia ser contestado. Ele estava acima do bem e do mal.

E assim são todos os moderadores desses grupos e sites de Literatura. Exceção dos sites argentinos. Como não falo Espanhol, nem eles Português, conversamos numa boa e já teve até uma moderadora argentina que deu guarida para o meu irmão Décio quando ele esteve em Buenos Aires. Por isso posso gritar aos quatro ventos com todo ufanismo literário: viva a Argentina!




quinta-feira, 9 de julho de 2009

Anotações sobre o romance



Por Antônio Torres


Introdução às oficinas literárias Para gostar de ler (e escrever) romance, realizadas na Casa do Saber do Rio de Janeiro, às terças-feiras de julho de 2009.







1.


Segundo o mestre Aurélio, o romance é a “transposição artística da vida em longa narrativa dos atos e sentimentos de personagens imaginárias”.


2.


Mestre Houaiss: “Obra narrativa escrita em língua românica, em prosa ou em verso”.

Prosa, mais ou menos longa, na qual se narram fatos imaginários, às vezes inspirados em fatos reais, cujo centro de interesse pode estar no relato de aventuras, no estudo de costumes ou tipos psicológicos, na crítica social etc.”


3.


Outras definições:

“Composição poética narrativa do romanceiro popular, em particular a de tema amoroso”.

“Descrição marcada pelo exagero e pela fantasia (vai fazer um romance para contar um simples incidente...)”.

“Fato real que, por ser muito complicado, parece inacreditável.”

Etc.


4.


Grande Enciclopédia Larousse Cultural: “Gênero literário em prosa relativamente longa, caracterizado pela narração de acontecimentos fictícios, mas geralmente verossímeis, relacionados a uma ação centrada num enredo, na análise de personagens, ou no exame de uma situação”.

Portanto, o romance requer narrador/narradora, personagem central/ protagonista (ou narrador/personagem), personagens secundários, cenário, trama, subtramas, fabulação, começo, meio e fim, não necessariamente nesta ordem.


5.


De Honoré de Balzac: “É preciso desfolhar toda a vida social para ser um verdadeiro romancista, porque o romance é a história secreta das nações”.


6.


Roland Barthes: “Ato de sociabilidade, o romance institui a literatura”.


7.


Alain Robbe-Grillet: “Só a escrita romanesca constitui a realidade”.


8.


Antes de sabermos que o romance é tudo isso e mais alguma coisa (por exemplo: que em parte é um legado da Antiguidade, e sucedâneo do poema épico, mas que na Europa medieval considerava-se romance um fenômeno de língua, ou seja, tudo o que não era escrito em latim), pois antes que fôssemos informados de tudo isso, a palavra já descia melodiosamente em nossos ouvidos, por significar namoro, caso amoroso etc., deixando-nos a imaginar enredos que incluíam encontros fortuitos e lenços perfumados. Nas tertúlias ancestrais aos pés dos fogões, para espantar o medo da noite num remoto sertão, romance era uma história de amor e aventura cantada ao som de uma viola, como a do Pavão misterioso, ou de bravura, como A chegada de Lampião ao inferno. Não é por acaso que a poesia de cordel, forte legado ibérico ao Nordeste brasileiro, popularizou-se como rimance, significando isto romance com rima.


9.


“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Assim começa o Evangelho Segundo São João. Para nos dizer que o dom da palavra é uma graça divina. Ao dar fala ao homem, Deus o teria distinguido no reino animal. Afinal, Ele o criara à sua imagem e semelhança. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito Pai, cheio de graça e de verdade”.


Recorro a este memorável texto bíblico por dois motivos. Primeiro, pela sua beleza literária. Segundo: considerada o livro dos livros, o mais lido de todos os tempos, no mundo ocidental, a Bíblia é um caso exemplar de fabulação, a começar pelo Primeiro livro de Moisés chamado Gênesis, o mito dos mitos, que verdade científica alguma conseguiria suplantar no imaginário humano. Revisitemos o seu início, ainda que tão somente pelo prazer de reler o mais admirável de todos os textos:


No princípio criou Deus os céus e a terra.

E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sob a face do abismo; e o espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

E disse Deus: Haja luz. E houve luz.

E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre luz e as trevas.

E Deus chamou a luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã o dia primeiro.


Etc.


Tão conhecida quanto essa história é a da própria Bíblia.


Nascida no deserto com Moisés, no século 13 antes de Cristo, ela reúne uma coletânea de livros escritos por diferentes autores ao longo de vários séculos. Os que se relacionam à aliança de Deus com o povo judeu estão no Antigo Testamento. Já o Novo Testamento apresenta os relatos concernentes à aliança de Jesus Cristo com todos os povos. O conjunto dessa obra sagrada tem exercido uma poderosa influência na literatura. Nem é preciso um grande esforço de memória para lembrar alguns títulos de romances e de contos de inspiração bíblica. Cinco casos exemplares: “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis, “Absalom, Absalom” e “Desça, Moisés”, de William Faulkner, “O hóspede de Job”, do português José Cardoso Pires, e o recentíssimo “Caim”, da nossa contemporânea Márcia Denser.


Esse poder de sedução da Bíblia, para os escritores, se explica. Além de suas revelações, que fundamentam as crenças cristãs, nela encontram-se todas as matrizes literárias: a mítica, a trágica, a épica, a lírica, a dramática. E tudo com fabulação, estilo, uso estético da linguagem, no que se inclui a qualidade poética, sem a qual não se chega à literariedade.


Portanto, se no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, o Verbo se fez literatura, já como uma criação do homem, a quem Deus deu a fala. E ele, o bicho-homem, fabulista, fabulador, fabuloso por natureza, da palavra falada chegou à escrita. E ela, a literatura, se desenvolveu com o próprio desenvolvimento da espécie, pela sua necessidade de contar histórias e de preservar a sua memória. Mas a literatura só ganharia existência concreta, ou seja, corpo, forma, difusão e perenidade, a partir do advento da imprensa, no século 15 depois de Cristo.


Povos primitivos já desenvolviam uma rica produção de lendas, mitos e histórias, por vezes associada à música, à dança e à dramatização, em espetáculos religiosos e profanos. E assim se formou a tradição da literatura oral, que gerou grandes poemas épicos, os textos sacros e as representações dramáticas das civilizações antigas da Europa e da Ásia. Na Idade Média, baladas, poemas, contos, gestas, adágios e adivinhações da cultura popular passaram à forma escrita, através de mãos eruditas. O avanço seguinte viria com a palavra impressa. E aqui cabe um tributo ao alemão Johannes Gensfleisch Gutenberg, o inventor dos caracteres móveis que dariam origem à tipografia, e daí às artes gráficas, à imprensa, sem as quais a indústria editorial não viria a existir.


Resultaram desse processo obras como o “Mahabharata” e o “Ramayana”, da Índia, a “Odisséia” e a “Ilíada”, de Homero, o “Edda” escandinavo, e a própria Bíblia.


10.


O primeiro verdadeiro romance da literatura universal foi o “Dom Quixote”, que teve a sua primeira parte publicada em 1605, sendo que a segunda sairia em 16l5. E com ele Cervantes pôs em xeque as ilusões e princípios estéticos de toda a literatura anterior à sua. O tempo agora era outro. A Espanha deixara de ser um conquistador do mundo para tornar-se o país da burocracia. Todo o seu heroísmo de conquistador havia se degradado. Dom Miguel de Cervantes fez mais: expandiu as fronteiras do romance, tornando um espaço entre o real e a imaginação, levando o leitor ao terreno da dúvida. “O engenhoso fidalgo da Mancha” viria a fazer o mais patético dos empedernidos a rir-se de si mesmo. E a partir dele, o romance passou a ser um desestabilizador das certezas humanas. Além disso, Cervantes inaugurou a figura triangular herói-mediador-objeto do desejo, e com isso compôs a estrutura profunda do romance ocidental.


A sinopse do “Dom Quixote”:


Um fidalgo provinciano que passava o tempo todo a ler romances de cavalaria, acabou por se identificar com os heróis de suas histórias preferidas. Um dia, vestiu uma velha armadura, armou-se de espada e lança, e partiu para uma louca aventura. Ao encontrar um bando de tropeiros de bestas, parou para conversar com eles. E tentou persuadi-los de que ali pelos arredores havia uma camponesa chamada Dulcinéia, que era a mulher mais bonita do mundo e a senhora de seus sonhos. Os tropeiros deram-lhe uma surra e o levaram de volta para casa, onde o padre do lugar, ajudado por um barbeiro, queimou solenemente todos os seus livros. Sua loucura, porém, era incurável. Ele voltou a montar em seu cavalo, o Rocinante, e partiu de novo, desta vez na companhia de um fiel escudeiro chamado Sancho Pança, que tudo faria para remediar as consequências dos desatinos que a desvairada imaginação do amo acarretavam. Vencido em combate, foi forçado, por juramento, a abandonar a sua aventura, quando, então, percebeu a fatuidade da sua quimera, e morreu, deixando a Sancho Pança a realidade de uma existência desprovida de heroísmo e fantasia.


11.


Certo, o romance moderno nasceu na Espanha, no século 17, mas cresceu na Inglaterra do século 18, com a revolução industrial, quando o campo marchava para a cidade e Londres se tornava a maior capital do mundo, enchendo-se de bordéis, criando o cartão de ponto e o comportamento padronizado da vida operária. Expandiu-se no século 19, quando chegou ao apogeu, pelo conjunto da obra de um elenco de gigantes: Tolstoi e Dostoievski, Eça de Queirós e Machado de Assis, e Flaubert, Sthendal, Balzac, Dickens...


12.


No século 20, um irlandês pede a palavra. Ora muito bem, estava tudo muito bom, mas chegara o momento de dar uma sacolejada nessas histórias com começo, meio e fim. Afinal, a mente humana não funciona de forma tão linear, mas por fluxos de consciência. O mundo já estava em plena era da psicanálise, que tanto se valeu da literatura. Pois agora a literatura iria se valer da psicanálise. Ao tempo cronológico interpõe-se o tempo psicológico e os monólogos interiores. E esse tempo não era mais o do grego Odysseus, o homérico Ulisses, rei de Ítaca, e sim o de um outro Ulisses, representado pelo anônimo corretor Leopold Bloom, que não tinha nenhuma Tróia para conquistar epicamente, montado num cavalo de pau. A aventura desse outro Ulisses resumia-se a gastar as solas dos seus sapatos, perambulando pela cidade de Dublin, por todo o dia 16 de junho de 1904, cruzando pelo caminho com a mulher, Molly, e um jovem chamado Stephen Dedalus.


Paródia da “Odisséia”, o “Ulisses” de James Joyce quebra a estrutura tradicional do romance, e, ao combinar características de lenda, reportagem, farsa, drama, sinfonia, tratado escolástico, referências simbólicas emprestadas da mitologia, da história e da literatura, ele faz da experimentação de linguagem, invenção de palavras e inovações estilísticas a sua grande novidade. Foi um escândalo.


13.


O século 20 foi também o de Marcel Proust, Virgínia Woolf – que a crítica situa entre Joyce e Proust -, Franz Kafka, Thomas Mann, Ítalo Calvino, Cesare Pavese, Sartre, Simone e Camus, Marguerite Duras e Boris Vian, e da tropa de choque norte-americana, comandada por William Faulkner, John dos Passos, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, os antecessores de William Styron, Norman Mailer, Truman Capote, Carson McCullers, Saul Bellow, Flanery O’Connor, Salinger, Phillip Roth. Sem esquecermos a Beat Generation de Jack Kerouac, que botou o pé na estrada em ritmo de jazz, muita birita e marijuana, ouvindo Allen Ginsberg recitar: “Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa...”


E, de lá para cá, Paul Auster, Don Delillo.


14.


América hispânica: ninguém escrevia ao coronel. E aí o coronel escreveu “Cem anos de solidão”. E a utópica “pátria grande” sonhada pelo cubano José Marti entrou no mapa do mundo, no qual García Márquez, Borges, Cortazar, Vargas Llosa, Juan Rulfo, Juan Carlos Onetti, Cabrera Infante e etc. se tornaram nomes familiares.


15.


No Brasil, os modernistas de 1922 (Mário e Oswald de Andrade à frente), propugnavam por um rompimento com a norma lusitana, e que viéssemos a escrever de acordo com a nossa fala. Mas foram os romancistas de 30 – Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego -, que o realizaram com um grande poder de fogo. Os traços dessa geração: Rachel – o depoimento vigoroso e solidário, contra um quadro social deplorável. Jorge Amado – a extraordinária capacidade de criar personagens, de contar histórias; a linguagem desabusada. Zé Lins – a fabulação. Graciliano – o estilo.


16.


Vida que segue: João Guimarães Rosa – o grande rio que nasce em Cordisburgo, Minas Gerais, e deságua no Mississipi, onde William Faulkner fundou um território mítico e nele inscreveu a sua legenda. Os dois eram primos. E aparentados de James Joyce, mas, em relação a este, tiveram a vantagem das vastidões continentais, dos espantos de um continente que, se já não era mais o Novo Mundo, mundo ainda novo era.


E que mistérios tem Clarice?


Os dos rios que correm para dentro de si mesmos.


E era nesses rios que ela mergulhava, até as profundezas de outras audazes mergulhadoras, chamadas Virgínia Woolf e Katherine Mansfield.


17.


Quando Clarice chegou, cá estava Lygia Fagundes Telles, assentada no seu trono de rainha paulistana das Letras. Autora de um best-seller, “As meninas”, é no conto, porém, que ele se torna ainda mais admirável, como podemos conferir em “Antes do baile verde” e “A estrutura da bolha de sabão”. Lygia pertence à geração de Fernando Sabino, Autran Dourado, José J. Veiga, Antonio Callado, José Cândido de Carvalho, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Murilo Rubião, Carlos Heitor Cony, os cirurgiões plásticos que fizeram as costuras finais nas extirpações, iniciadas pelo Modernismo de 22, às adiposidades da última flor do Lácio, ou seja, os barroquismos, a verborragia e o empolamento de linguagem que herdamos dos colonizadores portugueses.


18.


Minha geração encontrou a estrada da modernidade asfaltada. Da Manaus de Márcio Souza à Porto Alegre de Moacyr Scliar, e, um pouquinho depois dele, João Gilberto Noll. E todas as veredas levavam às Minas Gerais de Oswaldo França Júnior, Ivan Ângelo, Wander Piroli, Roberto Drummond, Carlos Herculano Lopes. Ao Rio de Nélida Piñon, Sérgio Sant’Anna, e do gaúcho-carioca Flávio Moreira da Costa. À Bahia de João Ubaldo Ribeiro, Marcos Santarrita e Sônia Coutinho. À São Paulo de Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio, Raduan Nassar. Ao Paraná de Domingos Pellegrini Júnior, ao Pernambuco de Raimundo Carrero etc., etc., etc.


19.


Agora, temos mais escritores por metro quadrado do que leitores. Tanto que ficou difícil saber quem é quem. Mas todos, ou quase todos, podem ser vistos nos cadernos culturais da imprensa, nas livrarias e em mais de um milhão de blogs de tudo quanto é canto deste imenso país.