sábado, 16 de janeiro de 2010

O BEIJO DA MULHER-ARANHA

De



Acordou sobressaltada com a insistência do telefone. Era domingo e seus amigos e parentes sabiam que ela gostava de acordar tarde, perto do meio-dia, e acordá-la assim, mal o sol raiou, só podia ser uma emergência. As notícias ruins têm pernas de Hermes. Viajam com o vento. Atendeu, bocejando e esfregando as pálpebras para manter os olhos abertos:


– Alô!

– Oi, querida! Te acordei?

“Não. Não acordou não. É que sou sonâmbula.”

– Se acordou ou não, já não tem mais importância. Que é que houve?

– Oh! Desculpas se te acordei! É que eu queria lhe agradecer pelas dicas sobre gênero literário. Foram muito boas. Graças a você, agora já sei a diferença entre a quadra e a trova. Pensava que só o fato de ter quatro versos já era uma trova.

– Pois é. Nem três versos é poetrix ou haicai. Nem só mulher tem regras, minha amiga!

– Agora eu sei. E o soneto então! Tascava duas quadras e dois tercetos e... pimba! Estava o soneto pronto! Mas a métrica é fundamental, né?

– Métrica e melodia.

– Pois é. Suas explicações foram de grande ajuda. Obrigada, amiga. É de gente como você que o mundo precisa. Tchau e tenha um beijo de bom dia!


Desligou o telefone e olhou janela afora. O sol estava a pino, sinal de que não era tão cedo assim. Sentiu um gosto de sabão na boca. Todo domingo era a mesma coisa: acordava sentindo o peso da ressaca nas costas. Ressaca de fumo e álcool. De segunda a sexta-feira trabalhava feito uma condenada dando aula em escola pública. Um suplício. A noite do sábado era só relax com os amigos nos bares da vida. Às vezes virava a noite. No domingo, a rotina sagrada: pernas para o ar que ninguém é de ferro!


Conhecera essa sua amiga em um site de relacionamento literário. Era uma boa pessoa, bem intencionada, mas, coitadinha, como faltava técnica! Confundia o livre pensar com o livre escrever, metia os pés pelas mãos e os leitores tinham que adivinhar o que queria dizer. Se é que queria dizer alguma coisa. Quando alguém reclamava, ela recorria à licença poética para se justificar. Aprendera isso com alguém e a exceção passou a ser regra. Até para os erros gramaticais mais crassos, justificava com a tal da licença poética.


Fizeram-se amigas, trocavam telefonemas diariamente e participaram de algumas baladas nas noites de sábado. Em uma dessas baladas a amiga lhe sugeriu dividir seus conhecimentos literários com os amigos, vez que dominava bem a técnica. Pedido feito, pedido aceito e, na noite anterior, antes de cair na farra, enviara mensagem aos amigos contendo aula detalhada e ilustrada sobre gênero literário.


O estômago roncou, reclamando alimento. Dirigiu-se à cozinha, abriu a geladeira para o café da manhã. Enquanto comia, remoia algumas considerações a respeito da amizade. Como era bom ter e ser amigo! Como era gratificante acordar ouvindo a voz de uma amiga em agradecimento por um favor de pequena relevância! Quantos dariam retorno agradecendo pelo seu tutorial?


Resolveu verificar seus e-mails. Enquanto o micro iniciava, listava mentalmente os amigos virtuais. E os reais. Parou no Troglodita, de Salvador. Seu correio eletrônico estava cheio, a maioria, dos amigos respondendo sua mensagem sobre a pequena aula de Literatura. O último recebido era justamente da amiga, cujo assunto era “Quanta pretensão!” Achou estranho ela não ter comentado nada ao telefone sobre o e-mail e por isso foi o primeiro que abriu. Tratava-se de uma mensagem coletiva, aos amigos. À medida que lia, faltava sangue nas veias. Não podia ser! Não a sua amiga. Alguma coisa estava errada naquela mensagem. Era muita sacanagem, muita crueldade. Como pôde se enganar tanto com uma pessoa? Que mundo é esse, meu Deus! Quanta falsidade! Enquanto se falavam ao telefone, a amiga enviava mensagem aos amigos, chamando-a de pretensiosa e metida a saber mais que os outros. Tecia comentários nada elogiosos, em total deselegância e desvio de caráter. Tentou responder, mas não conseguiu de tão nervosa que estava. As mãos tremiam e o corpo estremecia em espasmos nervosos. Uma dor no peito a sufocou. Levantou-se apressada em busca de remédio, tropeçou na cadeira e bateu a cabeça na quina da mesa.


Seu corpo fora achado no dia seguinte. O porteiro estranhou o fato de ela não descer para trabalhar nem atender o interfone e chamou a polícia. O micro continuava ligado e o perito criminal copiou a mensagem aberta, sem transparecer o menor sinal de emoção. Desligou o computador e deu por encerrada sua missão.

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