domingo, 20 de novembro de 2011

Você tem fome de quê?


“A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...”
(Comida - Arnaldo Antunes/Marcelo Fromer/Sérgio Britto)

O quiproquó cultural no penúltimo dia da Fliporto (Festa Literária de Porto de Galinhas), que por uma dessas razões que a razão desconhece acontece anualmente em Olinda, se deve ao embate ideológico entre os escritores Fernando Morais, Leandro Narloch e Samarone Lima, cada um no seu passionalismo agudo em defesa do seu ponto de vista na velha e batida discussão de “capital e trabalho”. Ou seja, a querela surgiu por algo que não estava previsto na programação da mesa: as benesses do socialismo cubano versus as mazelas do capitalismo brasileiro. Ou o contrário. 

Morais, um castrista de carteirinha, usou o argumento da negação da liberdade em troca da comida e do assistencialismo estatal; Narloch, direitista enrustido, e Samarone, um anticastrista juramentado, entraram em rota de colisão com o autor de “Olga” e a plateia, segundo os jornais, ora torcia por um, ora torcia por outro, como se estivesse numa peleja de embolada, tão comum nas ruas de Recife e Olinda.

Devido ao nome dos envolvidos, esse embate repercutiu na imprensa no dia seguinte, e a Fliporto, que até então acontecia discretamente, quase anônima, de repente ganhou divulgação extra, página inteira nos principais jornais do Nordeste. Essas divergências, desde que não sejam pessoais, engrandecem o debate nessas mesas de notáveis em que todos concordam com todos, e a plateia fica apática, na dúvida entre ouvir e dormir.

Ou acontece como na Flimar deste ano, em que colocaram Ignácio de Loyola dividindo a mesa com um ilustre desconhecido do mundo literário e os dois não conseguiram falar a mesma língua ou sintonizar o tema proposto. Ou com o academismo excessivo dos temas e a invencionice vocabular, em que os palestrantes não conseguem entender o significado e mandam ver qualquer coisa.

Se verdadeiro o que se noticiou, essa argumentação de que quem tem fome não precisa de liberdade está um tanto além da minha compreensão de leitor. Partindo desta premissa, devemos achar que os engaiolados nas cadeias e presídios da vida não são apenados, mas apenas sobreviventes do socialismo judiciário. Ou seja, quando a polícia tira um meliante de circulação, não está efetuando uma prisão, mas promovendo uma revolução socialista.

Ufana-se Fernando Morais com a segunda colocação da “Ilha” nos jogos pan-americanos. Mas nos jogos paraolímpicos que estão sendo disputados este mês, em Guadalajara, Cuba está uma decepção, um pífio quarto lugar. No ranking mundial de medalhas paraolímpicas, a situação é mais decepcionante: 43º lugar, abaixo de países como Zimbábue, Irã, Nova Zelândia e Jamaica. Seria isso um sinal de que ao socialismo castrista só interessa a teoria darwiniana da perseverança do mais capaz, que descamba para a famosa seleção natural?

Você tem fome de quê? Os socialistas tupiniquins socializam a miséria e capitalizam a riqueza. Moram em mansões, em bairros nobres, se hospedam em hotéis cinco estrelas e frequentam os restaurantes mais caros. A confraria do PC do B das Alagoas se reúne em um dos restaurantes mais caros do Nordeste para justificar a falta de liberdade de imprensa e do direito individual em Cuba e, apesar de se servir nababescamente de camarões, ostras, lagostas e whisky importado, ainda encontra boa vontade para falar da fome do povo de todo o mundo, menos de Cuba, porque lá a fome é de outra coisa. Como eles se acham acima do bem e do mal, pensam que podem tudo. Fumam até em ambiente público e fechado, sem se incomodarem com o mal que fazem aos outros. É o típico caso do faça o que digo, mas não faça o que eu faço. Ou, como dizia a minha avó, pimenta no fiofó dos outros é refresco.

A fome já matou a fome de muitos comunistas e socialistas, porém o povo continua na indigência. Como a fome não tem raça, cor, credo, muito menos ideologia, vem junto a sede de liberdade. Satisfazer-se só com comida feito boi no pasto não é muito digno do ser humano, por mais que discursem os intelectuais de esquerda. 

Ademais, se a comida é tudo, não vejo os famélicos indigentes capitalistas pedindo asilo político a Cuba. Mas o contrário...

7 comentários:

Anônimo disse...

É difícil pensar em propostas socialistas em meio aos embates capitalistas que vivemos. Pensar em ações socialistas nos dias atuais e num mecanismo de reparação das exclusões sociais é um desafio. Nesse sentido leia sobre a Feira de Arte Solidária promovida pelo Pós-Crítica no Campus II da UNEB, dias 08 e 09 de novembro. Será um ato estético cultural que visibiliza e disculte os males do capitalismo selvagem.

Toninhobira disse...

É muito facil filosofar sobre a fome diante um banquete.Sistemas falidos onde os dirigentes apenas se preocuparam com o proprio umbigo exibindo pircing de ouro.O povo passa fome e quer comida.O resto é papo de intelectuais.E o que mais me dói é saber que a corrupção fica escondida sob o tapete, onde se filosofa sobre a fome.Boa cronica relato amigo.
Meu abraço.

Miriam de Sales Oliveira disse...

Meu amigo ,eu estava lá vi tudo,participei de tudo e aplaudi o Fernando.O Narloch saiu vaiado,com o rabo entre as pernas,como merece um prostituto q/ confessou que escreve "para ganhar uma graninha".
N/ sei se o autor estava lá ou ouviu dizer,no estilo da Revista Veja.
Mas,a fala do Fernando,apesar de esquerdista,não foi "trocar pão por liberdade".Ele falou sobre a dignidade hu
Um fato e mil versões,querido;cada um escolhe a roupa q/ melhor lhe veste.
Comentarei sobre as mesas no blog do dia 28.
Bjs

Miriam de Sales Oliveira disse...

Retificando:dignidade humana.

Cacá - José Cláudio disse...

Apesar de não termos mais paradigmas na prática mundial (pois acho que os sistemas socialistas degeneram-se onde se instalaram e o capitalismo ainda não triunfou a ponto de extirpar a fome, a desigualdade e a destruição ambiental), acho que o debate é sempre bem vindo, já que está havendo uma prevalência de ideiais como se esse sistema em que estamos vivendo fosse a salvação do mundo e ainda temos mais de 2/3 dos 7 bilhões de habitantes na terra passando fome ou vivendo em codições muito pouco dignas. Nem o passado como foi, nem o presente como está. Um abraço fraterno e ótima semana.

PS: no mês passado, o banco Credit Suisse divulgou dados estarrecedores: 1% da população detém 40% de toda a riqueza do planeta. Fiz uma continha estimativa e cheguei a um dado surreal: o restante, dividido igualmente entres os demais habitantes daria um montante equivalente a um carro popular para cada um.

Tom do Junco (Ronaldo Torres) disse...

Não, Miriam, o Fernando não falou em trocar pão pela liberdade. Foi o contrário. Mas me responda a uma pergunta: que escritor não escreve pensando em ganhar uma graninha?
Falar em dignidade humana quando não se tem liberdade é como se falar de corda em casa de enforcado.
Um beijo.

Tom do Junco (Ronaldo Torres) disse...

Não sou capitalista nem americanista, mas no dia que me mostrarem um esfomeado pedindo asilo político a Cuba, nesse dia me convencerei de que Cuba é o paraíso. o mal nosso de cada dia é que os nossos solialistas só fazem reforma agrária em terra alheia.