Há quem diga que nunca existiu.Que era conversa de tropeiro errante a caminho de um sonho.Mas eu fui lá, me debrucei sobre o caldeirão dos mitos, bebi da mistura genética, sorvi dos relatos que a memória ainda conservava, e me emocionei com a história que fiquei sabendo. Afinal, era a minha própria história. Mas, como sabemos que nenhuma história é definitiva, por enquanto, esta foi a que pude resgatar.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
domingo, 21 de julho de 2013
Cineas Santos - a culpa é do cachimbo
Diz
o dito popular que o uso do cachimbo
entorta a boca. Falta-me autoridade para confirmar ou negar. De qualquer
forma, tomemos, metaforicamente, a palavra cachimbo como sinônimo de vício ou
vícios, para ser mais preciso, e tudo se esclarecerá.
As coisas estavam assim: lá fora, o mundo se contorcia em
convulsões de toda ordem, e nós aqui, deitados
em berço esplêndido. Empresários faturando aos tubos; empreiteiras
superfaturando construções, a toque de
caixa, de arenas esportivas enquanto os
políticos de todas as plumagens costuravam acordos espúrios. A molecada, por
seu turno, curtia o som das baladas e kakarejava
no face. Apesar do desempenho pífio na economia e da volta indesejada da inflação,
dona Dilma flanava em céu de brigadeiro com a popularidade nas nuvens... Mudar
o quê? Mudar para quê?
Mas estava tudo muito quieto, sinal de que alguma coisa poderia
acontecer. Quem tem filho pequeno sabe: quando criança fica muito calada, está
tramando alguma traquinagem. Não deu outra: bastou uma mão (des)atenta enfiar
um dedo na tomada para que uma descarga de altíssima voltagem eletrizasse
a juventude. De repente, não mais que de repente, com as caras pintadas de
todas as cores e tons imagináveis, e meninada saiu às ruas com um leque tão
amplo de reivindicações que seria impossível enumerá-las aqui. Do passe livre ao
rateio democrático dos prêmios da loteca
, tudo foi exigido. O pretexto para a deflagração das manifestações foi o
aumento de alguns centavos no preço das passagens de ônibus. Curiosamente,
foram as redes sociais, tidas como “o reduto dos alienados”, a principal arma
da moçada. Sem a necessidade de partidos políticos, da mídia tradicional, de
líderes, de organizações ou comando, numa rapidez inimaginável, a meninada pôs
o país de pernas para o ar. Segundo um cronista mais afobado, “os jovens estão
querendo refundar a República”. A primeira reação dos governantes foi de
incredulidade; a segunda, de espanto; a terceira, de assombro. Há quase vinte
anos não se via nada parecido nas ruas do Brasil. Uma revista semanal estampou
na capa: “O poder se mexeu” e acrescentou: ”Despertados pelo ruído das ruas,
governos, Congresso e até o judiciário se movem em um verdadeiro mutirão para
apresentar propostas, votar medidas e atender às demandas populares”. E o fecho
retumbante: “Uma nova ordem política começa a funcionar no Brasil”.
De forma atabalhoada, dona Dilma, depois de ouvir o seu
marqueteiro de plantão, propôs a única coisa que a molecada não reivindicou: um
plebiscito para aprovar uma “reforma política”. Os manifestantes, de muitas
maneiras, pediam apenas: respeito, dignidade e decência por parte dos políticos
brasileiros. Mal baixou a poeira, a grande imprensa nos informa que, enquanto
as ruas ardiam em chamas, representantes dos três poderes usavam jatinhos da
FAB ou dinheiro do erário para convescotes com parentes e aderentes ou
deslocamentos para o Maracanã.
Irmãos e irmãzinhas, não quero ser pessimista, mas vai ser preciso
muito mais para desentortar as bocas dos
políticos brasileiros. Bocas deformadas pelo uso reiterado dos cachimbos...
segunda-feira, 15 de julho de 2013
De como enganamos a Ditadura e fundamos um sindicato
O setor petroquímico da Bahia já nasceu fervendo em pleno reinado da ditadura. Em 1975, depois que os militares decidiram pela criação do polo petroquímico de Camaçari, o braço da opressão desceu fundo na Aspetro, uma associação criada pelos petroleiros em 1963 e que representava o braço químico-petroquímico da Petrobrás de Mataripe. De uma só penada a diretoria da Associação foi desfeita, seus diretores e familiares foram presos e torturados, inclusive filhos menores de idade, e posto em seu lugar homens fieis aos ditames ideológicos do governo militar. Assim, quando as empresas do polo de Camaçari começaram a contratar trabalhadores, foram esses pelegos que se diziam seus representantes.
Em 1978 o pessoal da área operacional retornou de seus estágios para a pré-operação das indústrias e então começou a se pensar na criação de um sindicato que verdadeiramente representasse a classe trabalhadora. Após dois anos de curso e estágio, os jovens operários da área técnica mantinham um forte sentimento de união e coleguismo. Mesmo porque, dentro da área de produção das empresas do porte das instaladas no polo de Camaçari, todo mundo tinha consciência de que a vida de um dependia da confiança que se tinha no outro.
Mas como desafiar a ditadura e fazer isso sem sofrer as retaliações dos escrotos? Matava-se, torturava-se em nome do Estado. Dois anos antes, quando eu servia o Exército, depois de um extenso treinamento de combate à guerrilha urbana, rastejando sobre um asfalto fervente, um colega não resistiu e desmaiou. Por azar, na queda, o fuzil quebrou a coronha. No outro dia já não o vimos mais. Dizia-se, amiúde, que havia sido torturado até a morte para confessar quem era “o contato cubano que o mandou destruir as armas do quartel”.
Este era o xis do problema. Sabíamos que dentro da Petrobrás havia uma divisão de espionagem instalada, chamada de “Divin”, sob a gerência do Exército. As empresas formigavam de arapongas, gente conversadora, ladina, envolvente. Para azar deles, a gente também havia recebido treinamento de contraespionagem no “glorioso” Exército Brasileiro. Confie, desconfiando, era o lema. Camaçari era considerada “área de segurança nacional” e todo cuidado era pouco. Qualquer vacilo terminaria em prisão. Ou morte.
Havia umas vinte empresas de porte grande e, por necessidade de ofício, os operadores das empresas se comunicavam entre si. E foi assim que começou a troca de ideias ao pé da cerca do conglomerado industrial. Por motivo de segurança, ninguém usava rádio ou telefone para tal fim.
Não me lembro de quem foi a ideia da primeira reunião para se criar o estatuto do sindicato, numa sala de um prédio comercial na Avenida Carlos Gomes, em Salvador, mas me lembro do colega que me chamou, da Pronor, cujo curso de operações fizemos juntos. Foi ele quem me pôs a par da estratégia de se chegar até o local da reunião sem que fôssemos surpreendidos pela polícia política.
A reunião aconteceu numa velha sala do terceiro andar, mas não podíamos chegar em grupos. Em frente do prédio era um ponto de ônibus e a gente tinha que parar nele, se comportar como se tivesse esperando um ônibus até que alguém fizesse um sinal discreto de que podia entrar. Assim, gradativamente, um a um adentrava o prédio. Uma vez dentro, subíamos pela escada até o primeiro andar e pegávamos o elevador; descíamos no quinto e pegávamos a escada até o terceiro andar. No terceiro andar, parávamos em frente ao elevador e aguardávamos uns minutos para vermos se não fomos seguido. E assim foi até que se fez o estatuto e se fundou o Síndiquímica.
Depois veio a pergunta crucial: como filiar sem que o filiado sofresse penalidade? Decidiu-se então pela filiação em massa, por debaixo dos panos, e as fichas só seriam mandadas às empresas quando não houvesse o risco de demissão, pois, em fase de pré-operação, elas não iriam sofrer baixa que pusesse em risco a segurança da planta. E, graças a essa iniciativa, o sindicato foi criado com milhares de filiados e a ditadura teve que engolir aquele que, em menos de cinco anos, se tornou o terceiro maior sindicato do Brasil, só perdendo mesmo para o dos petroleiros e o sindicato dos metalúrgicos, em São Paulo.
A diferença era que os filiados do sindicato dos petroleiros eram trabalhadores estatais, com estabilidade garantida em lei, e os do ABC paulista eram velhos marinheiros, macacos velhos, tarimbados na luta trabalhista do getulismo, enquanto nós, petroquímicos, éramos só uns garotos cheios de sonhos e que amavam os Beatles e os Rolling Stones.
Assim, como os garotos de Liverpool revolucionaram o mundo musical, os garotos de Camaçari revolucionaram a relação capital-trabalho da petroquímica mundial.
E, com muito orgulho, eu era um deles.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Maria Helena Bandeira - Rir do rei de Roma
As
caricaturas de Maomé se transformaram num rastilho de pólvora através do mundo.
Porque
o riso é a face mais subversiva da
humanidade. O único animal que ri é o
único que encara sua mortalidade. Faz sentido.
O homem inventou passado, futuro e descobriu a morte. Vendeu o paraíso
pelas lentilhas do conhecimento, Adão de terno e gravata, o rei nu de Roma, o
rato roeu sua roupa.
Em nome de deuses ele mata e morre, se leva tão a
sério, pobre poeira de estrelas perdido num estúpido dodecaedro entre mil
galáxias indiferentes. Somos o que mesmo? Muçulmanos, cristãos, budistas, nossa
religião é a intolerância. Só o riso nos salva, reduz tudo ao ridículo
necessário, nos livra da importância - é por aqui, ali ou sei lá onde, tem algum
lugar sempre melhor do que onde estamos.
O paraíso perdido?
Celebremos Dionísio, carpediemos porque amanhã não
existe, ontem foi ilusão e não somos o animal mais perfeito da criação.
O riso nos redime, o bobo da corte salva o rei, diz
a verdade escondida, olha de frente o dragão e ele é drag queen. A princesa tem
calos, pé chato e chulé. O rei é Momo, é Baco, viva a uva que Ivo nem viu
porque estava ocupado ouvindo a vovó. Como nossos pais.
Viva o jogral, o andarilho, o que não tem
compromisso com verdades, o alegre destruidor de mitos, o iconoclasta. O que
nunca matará por uma ilusão.
Abaixo as damas, os reis, os valetes e os paus.
Abaixo as copas (exceto de árvores) os ouros e as espadas.
E viva o coringa que não tem morada fixa, castelo
ou religião.
Na mesma máscara negra, hoje é carnaval.
terça-feira, 9 de julho de 2013
O Protesto
Um político perguntou a um povo que voltava da rua:
- O que vocês estavam fazendo na rua?
- Protestando, ora!
- E já protestaram?
- Já.
- E agora?
- Agora a gente vai pra casa se ver na TV Globo.
- O que vocês estavam fazendo na rua?
- Protestando, ora!
- E já protestaram?
- Já.
- E agora?
- Agora a gente vai pra casa se ver na TV Globo.
domingo, 7 de julho de 2013
Anos de Chumbo: Brasil - 1964 a 1985 - Vídeoclip-documentário
Somente quem viveu é que conhece o sabor amargo do chumbo. Hoje, convive-se com planejamentos de golpes abertamente, na internet ou outros meios eletrônicos de comunicação. Para quem não sabe ou finge que se esqueceu, naqueles anos de chumbo até para se ser rádio-amador tinha que ser amigo de general ou de político importante.
Este vídeo é um clip-documentário produzido para o professor Gerson Guimarães para ser usado em sala de aula. As imagens usadas são registros da realidade da época, sem retoques, montagens ou edições que comprometam a veracidade dos documentos.
Casamento da Rosinha 2013
Há 34 anos que o povo sobe e desce nessa procissão de fé etílica que acontece todo dia 24 de junho. Romaria só comparada à de Padre Cícero Romão Batista. Abaixo, uma amostra do que foi este ano.
Cineas Santos - Para preservar o azul
No Brasil,quando se quer dizer que as coisas andam bem,
diz-se simplesmente: “tudo azul”. Para mim, mais que uma cor, o azul é a cor; os mais são nuances. Como se sabe,
visto de longe, tudo é efetivamente azul. Yuri Gagarin confirmou essa verdade ao
contemplar a Terra do espaço, em 1961. Segundo o pintor Antônio Amaral, essa
minha fixação no azul se deve ao fato de, durante algum tempo, ter vivido no
sertão do Caracol onde só havia o cinza
do chão e o azul do céu. A tese não é destituída de fundamento. Mas vamos ao
que interessa.
A escritora Suzana Vargas tinha conferência agendada em
Caxias (MA) no dia primeiro do mês em curso. Os organizadores do evento,por
razões que desconheço, compraram a passagem
na Azul, companhia aérea
relativamente nova no Brasil. Para não maçar meus três leitores além da conta,
vou resumir tudo numa única expressão: uma via-crúcis, para dizer o mínimo.
Suzana deveria ter vindo na sexta, a passagem foi remarcada para o sábado e,
depois de um dia inteiro no aeroporto, chegou a Teresina no domingo às 17
horas. Até aí, apenas “um transtorno normal” num país que não tem maior apreço
pelo consumidor. O pior ainda estava por vir, ou melhor, por acontecer: a mala
da escritora não saiu do Rio de Janeiro. Suzana chegou; a bagagem, não. Imagine o constrangimento de chegar a uma
cidade estranha sem em lenço de cabeça. Na mesma situação da conferencista,
duas humildes cidadãs de Capitão de Campos. Uma delas, não cansava de repetir:
“Meu Deus, minha blusa nova que comprei ontem e o meu perfume que nunca
usei...” Pode-se argumentar que, no Brasil, extravio de bagagens não chega a
ser algo insólito ou inusual,como diria o poeta Salgado Maranhão.
Inusual, pelo menos para o meu gosto, foi a forma como um funcionário
da empresa, rapaz implume, mas com a arrogância de um sultão, tratou as três
cidadãs. Lá pelas tantas, levantou a voz e disse: “Extravio ou perda de
bagagens é a coisa mais comum em todas as empresas aéreas do Brasil”. Aí, não
me contive: Se é assim, meu caro mancebo,
o passageiro deveria ser informado, antes de comprar a passagem, de que a
empresa que o transporta não se responsabiliza pela bagagem de ninguém. O
moço levantou a voz. Tive de enquadrá-lo com um punhado de “gentilezas”.
Suzana e as duas cidadãs preencheram fichas quilométricas,
descreveram as características e os conteúdos das malas, deixaram telefones e
endereços para serem avisadas caso as
bagagens resolvessem aparecer. Pediram também o meu telefone. Por volta
do meio-dia da segunda-feira, Suzana foi ao aeroporto de Teresina e a mala já
estava lá. Ninguém teve a delicadeza de nos avisar.
Por essas e outras viajo pouco, muito pouco. Na Azul, nem com a passagem de graça. Não
quero passar a odiar o azul por causa de uma empresa que desrespeita os
direitos elementares de quem a mantém no ar.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Jesus de Enoc se chamava Enoc Jesus
Jesus de Enoc, que só no seu último suspiro fiquei sabendo que era Enoc Jesus, só perdia para o meu primo Arizio Cabaú nas arrelias, porque, nas demais estripulias, era como a seleção brasileira de ontem: show de bola. Impecável em tudo que um menino dito “moleque de rua” tem que ser.
Para a minha sorte, não estudamos na mesma sala. Aliás, nem me lembro de qual sala ele era. O seu pai, o velho Enoc, vestido da importância de ser pai de uma professora e de possuir o único rádio de pilha do lugar, passava a mão na cabeça das traquinagens do filho. “Se ele era o capeta que diziam, como era que ajudava o padre nas missas, hein?”, perguntava ao reclamante.
Jesus se fez coroinha, não por vocação religiosa, mas para ganhar uns trocados e ter livre acesso ao vinho do padre, que a gente detonava escondido. Era o quinteto: ele, meus primos Paulo e Arizio, meu irmão Décio e eu. Uma vez, não tendo o que fazer, entrou no confessionário e nos botou em fila de confissão. As beatas, sem saber que era só molecagem, também entraram na fila e Jesus ficou sabendo dos mais recônditos segredos das mocinhas do lugar. E só nos contou por que o ameaçamos dizer tudo ao padre. Mas como eram segredos de confissão, não pudemos tirar proveito sem nos denunciarmos e levarmos uma surra exemplar.
Como coroinha, ele sabia o endereço das festas de batizado ou casamento, e depois da cerimônia a gente seguia o cortejo até a comilança, regada a refresco de mangaba ou refrigerante quente, que o povo chamava de “gasosa”. Uma vez ele fez uma intriga tão da gota serena entre mim e Paulo que fomos às vias de fato no meio da rua. Separados pelo meu tio Adauto, o pai de Paulo, depois de ouvirmos um sermão sem fim, ficamos sabendo que Jesus havia vendido a nossa briga para os outros moleques de rua.
Assim era o Jesus, não o nosso salvador, mas o nosso mentor em se quebrar regras e o maior responsável pelas inesquecíveis surras que levei de minha mãe. Isso durou enquanto fomos moleques de rua pelo velho Junco, correndo livre, leve e solto até que a distância nos separou. E agora, separa-nos a eternidade.
Boa viagem, companheiro! Espero que aí no Céu tenha acampamento da Petrobrás para a gente ir buscar rolimã para fazermos patinete e deitarmos e rolarmos pelas nuvens cósmicas.
Para a minha sorte, não estudamos na mesma sala. Aliás, nem me lembro de qual sala ele era. O seu pai, o velho Enoc, vestido da importância de ser pai de uma professora e de possuir o único rádio de pilha do lugar, passava a mão na cabeça das traquinagens do filho. “Se ele era o capeta que diziam, como era que ajudava o padre nas missas, hein?”, perguntava ao reclamante.
Jesus se fez coroinha, não por vocação religiosa, mas para ganhar uns trocados e ter livre acesso ao vinho do padre, que a gente detonava escondido. Era o quinteto: ele, meus primos Paulo e Arizio, meu irmão Décio e eu. Uma vez, não tendo o que fazer, entrou no confessionário e nos botou em fila de confissão. As beatas, sem saber que era só molecagem, também entraram na fila e Jesus ficou sabendo dos mais recônditos segredos das mocinhas do lugar. E só nos contou por que o ameaçamos dizer tudo ao padre. Mas como eram segredos de confissão, não pudemos tirar proveito sem nos denunciarmos e levarmos uma surra exemplar.
Como coroinha, ele sabia o endereço das festas de batizado ou casamento, e depois da cerimônia a gente seguia o cortejo até a comilança, regada a refresco de mangaba ou refrigerante quente, que o povo chamava de “gasosa”. Uma vez ele fez uma intriga tão da gota serena entre mim e Paulo que fomos às vias de fato no meio da rua. Separados pelo meu tio Adauto, o pai de Paulo, depois de ouvirmos um sermão sem fim, ficamos sabendo que Jesus havia vendido a nossa briga para os outros moleques de rua.
Assim era o Jesus, não o nosso salvador, mas o nosso mentor em se quebrar regras e o maior responsável pelas inesquecíveis surras que levei de minha mãe. Isso durou enquanto fomos moleques de rua pelo velho Junco, correndo livre, leve e solto até que a distância nos separou. E agora, separa-nos a eternidade.
Boa viagem, companheiro! Espero que aí no Céu tenha acampamento da Petrobrás para a gente ir buscar rolimã para fazermos patinete e deitarmos e rolarmos pelas nuvens cósmicas.
domingo, 30 de junho de 2013
ONDE CANTA A ACAUÃ: O Acampamento da Petrobrás
ONDE CANTA A ACAUÃ: O Acampamento da Petrobrás: De caatinga No arraial do Junco arcaico a Sexta-Feira da Paixão era só penitência. Do raiar do dia, ao cair do sol, todos os prazeres ...
Luís Pimentel - Jesus de Nazaré
Reencontrei Jesus dia desses, num
barzinho. O conheci criança pequena e provinciana, no interior da Bahia. Nascera de sete meses, em um dia 25 de
dezembro, e foi um sufoco para escapar das mazelas de uma infância pobre – diarreias
constantes e falta absoluta de leite nos peitos mirrados da mãe. O nome sagrado
veio da promessa que os pais fizeram, nas preces pela salvação do filho. Como o
homônimo famoso, o nosso Jesus também viera ao mundo em um lugar chamado
Nazaré. No caso, Nazaré das Farinhas.
Jesus era um menino atormentado.
Pequenino, tinha o hábito de bater com a testa na parede, até sangrar. A quem
perguntasse o porquê do autoflagelo, respondia: “Porque quando para é bom
demais, é divino”. A mãe do menino também se chamava Maria, que nem a mãe do
outro. E o pai era José. Mas não era nenhum carpinteiro pacato, capaz de puxar
um burrico na travessia do deserto. O José de Nazaré das Farinhas era motorista
de caminhão, gostava muito de uma cachaça e volta e meia dava uns sopapos na
mulher. Jesus tomava o partido da mãe, e volta e meia também sobravam uns catiripapos
para ele também.
Jesus era um menino malcriado. Ao
contrário do homônimo bíblico, jamais perdoou, só conseguia amar a comida e o
dinheiro (que subtraía do pai) e afrontava os 10 Mandamentos também roubando
bolas de gudes, desrespeitando pai e mãe e matando passarinho.
Jesus era um menino surpreendente. A cena
que ficou para sempre nas escrituras mundanas da cidade aconteceu numa véspera
de Natal. Portanto, véspera do seu aniversário. Jogava bola com os amigos no
campinho que tinha nos fundos de sua casa, quando a voz estridente de dona
Maria, que não era nenhuma santa, ecoou nos dois travessões:
– Jesus, capeta! Venha cá!
Jesus odiava ser chamado de capeta. Também
odiava que interrompessem a pelada:
– Quiquié?! – berrou de volta.
– Preciso que você vá até a padaria,
comprar pão para as rabanadas do Natal e do seu aniversário!
O capetinha pegou pesado:
– Vou não! Não está vendo que estou
ocupado com o jogo da bola? Por que a senhora mesmo não vai?
Maria apelou, o que todo mãe faz nessa
hora:
– Ah,
ingrato! Ah, mal-agradecido! Maldita
hora que te carreguei nove meses no meu bucho.
A resposta ficou no Alcorão de Nazaré,
repetida por professores de história e guias turísticos:
– Está alegando, minha mãe?! Está
alegando?! Entre no meu bucho, que lhe carrego um ano!
domingo, 16 de junho de 2013
Cala a boca já morreu
O título acima era um axioma
muito empregado nos meus tempos de criança-adolescente e que, de certo modo,
revelava o direito de se falar o que se queria, principalmente pelas bocas
desaforadas, e que depois foi traduzido para “liberdade de expressão”. Em
verdade, a expressão completa é “cala a boca já morreu, quem manda na minha boca
sou eu” e muitos dos meus dez leitores já devem ter ouvido ou feito uso dela.
Mas esse “cala a boca já
morreu” acima, é o título de uma carta da Editora Abril, endereçada a este
escriba, relembrando meus áureos tempos de assinante da Revista Veja quando ela
se incluía como uma revista de resistência nos angustiantes anos de chumbo, sob
a batuta do destemido Mino Carta. Agora, abraçada a causas menos nobres, ou melhor,
espúrias, que já teve até um Carlos Cachoeira opinando sobre a linha editorial
da revista, ela quer que eu volte a ser assinante e acompanhe as mudanças que
se seguem nesse país pós-traumático. Para isso, me ofereceram até desconto de
setenta por cento. Mesmo assim liguei para a Editora para pechinchar mais ainda:
- Vocês me mandam a revisa
de graça e me pagam quinhentos pilas para ler!
Até que era uma proposta
razoável. Meus advogados disseram que eu devia pedir dez mil, mas, depois de
pagar os honorários devidos, iria ficar com menos de quinhentos paus. Por isso
a negociação direta, sem intermediário.
Claro, a Editora não aceitou,
mas na semana passada me ofereceram a revista Veja pelo preço de dez por cento do valor da
assinatura. Mais dia, menos dia, vão terminar aceitando e aí quem não vai
querer sou eu. Só se me pagarem os dez mil reais que os advogados sugeriram.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Charô Nunes - Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata!
Elogio racista é toda demonstração de admiração,
afetividade ou carinho que se concretiza por meio de ideias ou expressões
próprias ao racismo. Com ou sem a intenção de, que fique bem claro. Um dos mais
conhecidos é o famoso "negro de alma branca” que nossos antepassados tanto
ouviram. Mas não são apenas nossos homens que conhecem muito bem os elogios
racistas. Nós mulheres negras também somos agraciadas com esses pequenos
monstrinhos, usados inadvertidamente por amigos, familiares. Muitas vezes até
por nossos parceiros.
Decidi fazer uma lista com cinco elogios racistas
(e sexistas, diga-se de passagem) que muitas de nós escutamos quase que
diariamente. Alguns são consenso, acredito. Outros nem tanto. Fico aguardando
ansiosa para que você, mulher negra, deixe seu comentário dizendo se também
acontece com você. Se concorda, se discorda. E, sobretudo, o que você faz para
deixar bem claro que esse tipo de comentário pode ser tudo, menos bem-vindo e
apreciado.
01. "Você é uma morena muito bonita”
Esse é o elogio racista que mais escutei em toda
minha vida. Minhas primeiras lembranças são do tempo da escolinha. Mesmo
mulheres como Adriana Alves ainda são chamadas de morenas, pois se acredita que
chamar alguém de negra é uma ofensa racial. Se você precisa se expressar, tente
um simples "você é bonita ou atraente”. Ou ainda "você é uma negra linda”,
o que, dependendo do contexto pode ser tão ruim quanto.
Mas em hipótese alguma diga que uma negra é morena,
moreninha, morena escura. Que não é negra. Isto sim é racismo dos graúdos, pura
e simplesmente. Quando acontece comigo, digo que não sou morena e nem
moreninha, sou n.e.g.r.a. O bom é que, dependendo de como essa resposta é dada,
a pessoa já se toca que ela não deveria ter começado o conversê, que
simplesmente não estou disponível para esse tipo de diálogo. Nem com
conhecidos, muito menos com estranhos.
02. "Seu cabelo é muito bonito, posso pegar?”
Há alguns anos atrás, uma senhora ultrapassou todos
os limites de uma convivência pacífica ao se aproximar de mim, cheia de dedos,
me tocando sem permissão e dizendo que eu tinha uma "peruca muito bonita”.
Não retruquei de caso pensado, antecipando seu constrangimento por jamais ter
cogitado que uma mulher negra pudesse ter um cabelo comprido, ao natural. Minha
vingancinha, e sou dessas, foi olhar aquela expressão de arrependimento por ter
percebido o que fez.
Entendo que simples visão de uma negra com cabelo
natural pode ser inebriante. Que persiste a completa desinformação sobre o
nosso cabelo. Porém, isso não justifica o toque sem permissão. Não importa se é
cabelo natural ou não. A menos que você conheça muito bem a pessoa, não toque
em seu cabelo sem consentimento. Eu iria mais longe. Para mim a boa etiqueta
simplesmente reza que não se deve nem mesmo pedir para tocar o cabelo de uma
pessoa desconhecida.
03. "Você tem os traços delicados”
Dizer que uma negra tem traços "delicados”
muitas vezes tem a ver com a ideia de que será bonita se tiver uma expressão
"fina”, leia-se semelhante a de uma pessoa branca. Como se determinado
tipo de nariz (ou bochechas) fosse exclusivamente dessa ou daquela etnia. Uma
de suas variantes é outra expressão igualmente racista – "você é uma
mulher negra bonita” – algo que ao meu ver é a mesma coisa de dizer que
"você é bonita para uma negra”.
Afinal, qual a dificuldade de dizer que uma mulher
negra simplesmente é… Uma mulher bonita? Porque Alek Wek tem de ser descrita
como uma "mulher negra bonita” enquanto as mulheres brancas são apenas
"mulheres bonitas”? Mais uma vez, toda a sutileza do elogio racista. Ele
reconhece que você é uma pessoa admirável, mas sempre fazendo questão de te
colocar "no seu lugar”, como se algumas fronteiras jamais pudessem ser
cruzadas.
04. "Você tem a bunda linda”
Essa é uma opinião que certamente não é unânime.
Faço questão de expressá-la como uma provocação que representa o pensamento de
uma parcela significativa de mulheres negras. Para muitas de nós, esse
comentário expressa a hipersexualização a que somos historicamente submetidas
como exemplifica a triste biografia de Saartjie, denominada a Vênus Hotentote,
exposta como atração circense em função da admiração que suas nádegas causaram
na Europa do século XIX.
Apesar de todo respeito que tenho por tudo aquilo
que acontece entre duas pessoas, preciso considerar a tradição racista secular
desse tipo de discurso. Trata-se de reduzir a mulher negra a um pedacinho do
seu corpo, desconsiderar sua humanidade, transformá-la num pedaço de carne
exposto no açougue como aconteceu e acontece diariamente. Meu conselho é
pergunte antes se a mulher a quem você pretende cumprimentar tem a mesma
leitura desse tipo de elogio.
05. "Você é uma mulata tipo exportação!”
Esse elogio ainda o tratamento dispensado à mulher
negra no seio da senzala, da casa grande. O pensamento que nos reduz em
brinquedos sexuais. Dizer que uma mulher negra é uma "mulata tipo
exportação” é esquecer uma tradição escravocrata secular, que transforma a mulher
negra em "peça” que alcançará boa cotação no mercado, onde a carne mais
barata é a nossa. O nome desse mercado é exotificação. Em alguns casos, hipersexualização.
Infelizmente também estamos falando sobre o modo
racista com que as mulatas de escola de samba, mulheres que respeito e admiro,
são mostradas e consumidas. Mulheres que levam o samba no pé, no sorriso, na
raça. Que, ao invés de ser uma referência de beleza, são vendidas como frutas
exóticas na temporada do carnaval. Mulheres que recentemente têm sido
preteridas por "personalidades da mídia” em nome de uma pretensa
"democracia racial” e muitas vezes com as anuências de algumas
agremiações.
Qual é a sua opinião?
Porém, preciso dizer que os elogios racistas podem
(e devem) ser subvertidos. Quando o assunto são as mulatas de quem já falei
aqui, isso é bastante evidente. Ser uma mulata exportação também atesta um
padrão de excelência e traduz qualidades como perseverança, força. Minha
professora de dança adora dizer que a graça de uma bailarina é diretamente
proporcional à sua força. Mulatas são as expressões mais concreta desse
enunciado.
Por isso fiz questão de usar como título desse
post, um trecho do poema de Elisa Lucinda, Mulata Exportação, que resume tudo o que tentei
dizer até aqui: "deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata”
como muita gente gosta de pensar. E acrescento, "opressão, barbaridade,
genocídio, nada disso se cura trepando com uma escura!”. Muito menos tecendo
elogios racistas, diga-se de passagem. Quem o diz é a mulata exportação do
poema. Sou eu, somos todas nós que já ouvimos essas porcarias.
Nota do blog: Siga Charô Nunes no twitter
e no facebook. Também pode ser encontrada no Indigestivos
Oneirophanta, onde escreve sobre arte, cultura e
sociedade . Ela é a responsável pelo Um Brasil de Cor, blog de colagens e notícias
sobre a não-representação da mulher negra.
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