sexta-feira, 5 de março de 2010

HOMENS, UNÍ-VOS!

De Dia internacional da mulher


O meu amigo Chuchu agia em consonância com o nome, sem se importar com o que pensavam os seus vizinhos, inclusive eu que, vez ou outra, cogitava lhe chamar a atenção para o fato, porém o mesmo fazia questão de viver sob a coleira da mulher. Uma simples decisão, como a de parar um instante no boteco ao lado de casa para molhar a garganta com os amigos, havia de passar pela permissão da cara-metade, mesmo estando ele morrendo de vontade de entrar. Ela era o fator determinante de sua personalidade e assim ele viveu (ou pensou que viveu) até o dia que ela, cansada de tanta submissão do marido e querendo ser dominada por um homem de verdade, arrumou as malas e fugiu com o pé de pano, deixando Chuchu com o ônus da desonra, além de ser objeto principal dos comentários jocosos da vizinhança por longo tempo, pois, soube-se depois, que o tinhoso ricardão era uma amiga do casal.


Ele não era mole só nas atitudes. Ser corno de mulher é a pior coisa que pode acontecer a um homem – diziam as más e também boas línguas quando ele passava, cabisbaixo, soturno, como a carregar todo o peso do mundo nas costas.


Essa ocorrência data de trinta anos atrás e Chuchu morreu no ano passado sem se aventurar em novo casamento. A decepção fora tanta que seria compreensível se tivesse virado a casaca também, mas como já estava cheio de cabelos brancos, ia precisar de muita grana para poder arranjar um bofe de bons bofes.


O que aconteceu com ele foi só um exemplo dentre milhares, e por isso todo dia coloco minha barba de molho. Nenhuma relação se sustenta na dominação, seja de que lado for, embora minha cara-metade reclame, vez ou outra, do chip que coloquei na sua perna para mantê-la sob controle vinte e quatro horas por dia, via GPS. Que se há de fazer? Malandro que é malandro não dorme de touca. Canja de galinha e precaução não fazem mal a ninguém. Ou, como cantava o refrão daquele samba dos anos setenta: “A nega é minha, ninguém tasca, eu vi primeiro”.


Mulher bonita, boa e liberal faz o homem gemer sem sentir dor e, por causa desse axioma irrefutável, é a preferida nas cantadas e investidas de umas e outros nos bailes e bares da vida, independente de serem solteiras, viúvas, casadas ou que costuram para fora. Ficam na espreita feito caçador à espera da caça, aguardando o momento oportuno para darem o bote. São atenciosos, doces, melosos, e dizem ter a solução para todos os problemas da vida.


Nós, homens, precisamos reivindicar a criação de vários dias do homem ma-cho-cho, com direito a feriado nacional, divulgação na imprensa internacional e caminhada mais barulhenta e concorrida do que a parada gay. Lutemos pelo orgasmo múltiplo, livre, e distribuição gratuita de Viagra nos postos de saúde para que as mulheres se sintam incentivadas a escrever loas ao nosso dia, listando e enaltecendo nossas qualidades. O Governo deverá criar cotas para o Homem com agá maiúsculo nas universidades federais. E, finalmente, quando um casal hétero for barrado numa boate GLS, a casa deve ser fechada e os responsáveis processados por discriminar a minoria.


Fiquemos antenados porque a concorrência é acirrada e desleal, principalmente das mulheres com excesso de testosterona. Além de elas conhecerem melhor a alma feminina, pois, querendo ou não nasceram com uma, frequentam o mesmo banheiro do boteco, onde se desnudam sem o menor pudor e falam de suas intimidades em cumplicidade de amantes, embora a candidata a sandaliazinha não tenha malícia em suas ações e atenções, até então, inocentes, tal qual Chapeuzinho Vermelho sendo conduzida (e induzida) pelo lobo mau.


Portanto, tratemo-las com deferência, não só no dia internacional da mulher, mas nos trezentos e sessenta e quatro dias, seis horas e cinquenta segundos seguintes, sem esmorecer, porém. Como dizia o camarada Che: “Hay que endurecer sin perder la ternura jamás”. Quando sua mulher o chamar para lavar os pratos, grite bem abusado para que seus amigos e a vizinhança saibam quem é que fala mais alto na sua casa:


Já vou, meu bem!




quinta-feira, 4 de março de 2010

DAS COISAS QUE NÃO PRETENDO VER

Por Cineas Santos

De Superinteressante Fev. 2010


Não faz muito tempo, abri a revista ISTOÉ e, na seção de entrevistas, deparei-me com a foto de um cidadão com barba de Rasputin. A barba me pareceu postiça; o nome do barbudo, não. O entrevistado era ninguém menos que o geneticista Aubrey de Grey, da Universidade de Cambridge. Entre outras atividades, Aubrey preside a Fundação Matusalém cujo foco de pesquisa é o combate ao envelhecimento dos seres humanos. Sem medo de comprometer sua reputação, o cientista afirma que “Em cinquenta anos não vai mais haver definição para expectativa de vida. Teremos um controle tão completo do envelhecimento que as pessoas viverão indefinidamente”. Para o sábio inglês, num futuro próximo, qualquer ser humano poderá, sem problema algum, chegar a mil anos de existência. A explicação: a exemplo do que acontece com um automóvel, basta fazer a manutenção correta, usar o combustível adequado, trocar as peças danificadas no momento certo e o carro estará sempre novo. Mais didático, impossível. O neurocientista Anders Sandberg, de Oxford, está disposto a cooperar: propõe-se a fazer uma espécie de download do pensamento humano. Assim sendo, o cérebro se comportaria como um software, com todas as funções originais. O futurologista americano, Ray Kurzweil, com sua autoridade de guru dos letrados, garante que, “em duas décadas, os nanorobôs vão fazer as mesmas funções que as nossas células ou tecidos, mas com precisão infinitamente maior”. Sintetizando: no futuro, só morrerá quem quiser. Nessa altura do campeonato, meus três leitores estarão se perguntando: “O ancião endoidou?”. Eu vos asseguro que não: tudo isso e mais coisas encorpam as páginas da Superinteressante de fevereiro. É só consultar.

Enquanto lia a reportagem de capa da Super, ocorreu-me a lembrança de um poema de Drummond - “O sobrevivente” – publicado em 1930. Lá pelas tantas, afirma o poeta: “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples./Se quer fumar um charuto aperte um botão./Paletós abotoam-se por eletricidade./O amor se faz pelo sem-fio./Não precisa estômago para a digestão”. A ideia desse admirável mundo novo não parece fascinar o Gauche de Itabira, que afirma: “Mas até lá, felizmente, estarei morto”. Drummond comporta-se como um verdadeiro vate e conclui, pessimista: “Os homens não melhoraram/ e matam-se como percevejos./Os percevejos heróicos renascem./Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado/ E se os olhos reaprendessem a chorar, seria um segundo dilúvio”.

Drummond pôs o dedo na ferida: “inabitável, o mundo é cada vez mais habitado”. As estatísticas indicam que, em menos de 50 anos, o exaurido planeta Terra terá nada menos de dez bilhões de bocas para alimentar. Diante de desafio de tal monta, os sociólogos já pensam em exumar as teorias do velho Malthus: a humanidade morrerá de fome. O cientista James Lovelock, autor de A Vingança de Gaia, garante que, nesse ritmo, antes do final do século 21, 80% da população do Planeta terá desaparecido. “A vida, como a concebemos hoje, será praticamente impossível”, afirma. Não é preciso ser muito inteligente para perceber que essa equação não fecha. Há uma pergunta que não quer calar: em que planeta viverão os terráqueos imortais?

Como não sou egoísta, prometo ceder meu lugar, no momento oportuno, a quem se habilitar a ocupá-lo. E fecho esta arenga com outro poeta mineiro, Murilo Mendes: “Tenho pena dos que vão nascer”.

terça-feira, 2 de março de 2010

O PRETO NO BRANCO

De Cabocla


Recentemente fui tachado de preconceituoso por afirmar, em meu livro, que não havia o elemento negro na miscigenação do Arraial do Junco, como se isso fosse uma afirmação leviana do autor, e não um legado genuinamente histórico.

Quem parar um instante para estudar a etnia brasileira, verá que a presença do negro no povoamento do sertão nordestino é pouca ou quase nenhuma, devido a vários fatores, sendo que o principal deles é o fator econômico. Era mais fácil e mais barato escravizar o índio nativo, acostumado à agressividade sertaneja, do que trazer o negro para dentro do mato e mantê-lo a ferro e a fogo em uma vasta extensão territorial de mata inóspita e desconhecida, sem nenhum cercado que pudesse impedir a sua fuga.

O negro era escravo quase exclusivo dos senhores de engenho na costa brasileira, custava caro e tinha outro custo adicional para mantê-lo sob o jugo: a vigilância. Mesmo assim, em engenhos fortemente vigiados, havia fugas e mais fugas de negros para os quilombos ou mesmo para viver a esmo, aprendendo capoeira com os índios.

Negros e índios eram litisconsorte na sanha assassina dos capitães-do-mato e dos bandeirantes, também chamados de sertanistas, e, por causa dessa desdita, uniam forças em auto-defesa. O que se acreditava ser uma luta de senzala, vinda da África negra, a capoeira é um esporte (ou luta) genuinamente brasileiro, levado para os quilombos através da recaptura dos negros fujões que tiveram contato com os índios e aprenderam a ginga de ataque e defesa.

A palavra capoeira é de origem Tupi, que significa “pequeno mato”, ou arbusto, local em que os índios e negros quilombolas se escondiam da caçada humana e, quando eram descobertos, desarmavam os sertanistas dando golpes de pernas e de mãos. Nas senzalas, para disfarçar a prática da luta – ou os exercícios diários –, usavam instrumentos de percussão e, quando o senhor de engenho chegava, transformavam a luta em uma dança chamada de barrigada, que depois se transformou em batuque e daí nasceu o samba.

Mas voltemos ao Arraial do Junco, cidade nascida nos estertores da escravidão negra e índia, fundada por um descendente de português e índio, o famoso mestiço, e mais por sua parentada; tios, primos, irmãos, cunhados, chegados ou não de Portugal, todos devidamente casados com índias, solamente com índias ou com seus parentes próximos, ou seja, mestiço com mestiço, gerando o curiboca, ou, em outras palavras, o caboclo, que também quer dizer “originário do branco”.

O bisavô de minha mãe veio em uma expedição financiada pelo Império. Era um nobre da Corte portuguesa, falido, fodido e mal pago e as suas esperanças de renascer financeiramente estavam em terras brasilis, mais propriamente nos inexplorados sertões. Chegando aqui, se casou com uma índia e teve vários filhos, sendo que um deles se casou com a neta do fundador da cidade e se tornou genro de um caboclo que era casado com uma índia. Desse casamento, nasceram muitos filhos, dos quais um é o meu avô, que era casado com uma cabocla, descendente de português com índio. O meu avô teve muitos filhos, entre eles, a minha mãe, claro.

O meu escanchavô paterno, ou seja, o avô do meu avô, o fundador da cidade, era filho de português com índia. Como naquelas terras rudes não havia mulher branca nem negra, se casou, claro, com uma índia, e teve vários filhos, que também se casaram com índias ou com as próprias primas e na descendência um pouco mais para cá para baixo, nasceu o meu pai, filho de caboclo com cabocla. O meu pai se casou com a minha mãe e tiveram onze filhos, entre eles, eu. Ou alguém tem alguma dúvida?!

Quisera eu ter descendência africana. Ao contrário dos portugueses que povoaram estas terras – nobreza falida, perseguidos ou condenados da justiça, proxenetas, cáftens, ladrões, assassinos, etc. – os africanos traficados para o Brasil eram, em sua maioria, perseguidos políticos, reis e rainhas destronados, príncipes usurpados da herança real e guerreiros capturados em combate ou traídos por seus comandantes. Mas, infelizmente, as minhas origens não dependem de mim e, em vez de ter a altivez personalizada de um príncipe negro, fico aqui lamentando a minha condição de nobre marginal, sem eira nem beira e sem lugar garantido nos Campos Elíseos para descansar a minha alma aristocrática de araque.

E ainda me chamam de racista por escancarar a minha vergonha.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pré-Conferencia Nacional de Cultura Afro-Brasileira

Por Edna Lopes

De Pré-conferência nacional de cultura afro-brasileira



Se pudesse traduzir um sentimento, numa frase, para descrever este evento, diria: A ÁFRICA ESTÁ EM NÓS, frase que dá título ao livro do professor pernambucano Roberto Benjamim, publicação que tem fundamentado o trabalho das escolas no atendimento à Lei 10.639/2003, especialmente em relação à contribuição dos povos africanos na formação do povo brasileiro.

E se alguém estiver se perguntando o que alguém como eu, uma mulher de pele e olhos claros tem a ver com isso, certamente que minha resposta irá na mesma direção da tradução do sentimento: a África está em nós, brasileiras e brasileiros, em qualquer rincão deste país, mesmo que a neguemos, mesmo que não a reconheçamos nos nossos traços, no nosso jeito de viver, nas nossas manifestações e expressões mais recheadas de brasilidade.

A África está em nós na culinária, na Religião, na Língua, nos folguedos e danças, na música e seus instrumentos. Está em nós, na raiz da formação do nosso povo e em nossa identidade cultural, quer admitamos ou não.Qualquer que seja o tom da nossa pele, a herança de centenas de povos africanos está inserida em nosso cotidiano, mesclada com a cultura indígena e outras tantas heranças dos colonizadores europeus.

Nos dias 24 e 25 de fevereiro, a Fundação Cultural Palmares realizou, em Brasília, a Pré-Conferência Nacional da Cultura Afro-Brasileira. O evento reuniu artistas, lideranças do movimento negro e religioso de matriz africana, quilombolas, capoeiristas e convidados, representantes de todos os estados brasileiros para discutir políticas públicas em torno da cultura afro no Brasil.

A iniciativa garantiu aos participantes a contribuição na formulação de propostas para um plano nacional de cultura afro-brasileira, além da escolha de delegados para representar a cultura negra na plenária geral da II Conferência Nacional de Cultura que se realizará entre os dias 11 e 14 de março também em Brasília.

Não é difícil de imaginar, se se considerar todas as diversidades e expressões de cultura que há num país como o nosso, a tapeçaria multifacetada e multicolor que se desenhará. A cultura dos povos africanos, incontestavelmente, compõe a historia do povo brasileiro. A questão é que a desinformação e o preconceito tratam esta herança como ou algo exótico ou folclórico, quando não a desqualificam e desrespeitam-na.

As diversas expressões da cultura afro-brasileira são fundamentais para o processo de desenvolvimento e consolidação da cultura como identidade de um povo. Como educadora, representando a coordenação estadual da UNCME-AL (União dos conselhos Municipais de Educação) e agora a presidência do Conselho Municipal de Educação de Maceió, tenho convicção de que é também pela educação que virá a contribuição para que todas as formas de cultura sejam reconhecidas e respeitadas.

Minha expectativa é de que cada vez mais a formulação das políticas, o cumprimento dos marcos regulatórios, o incentivo e a difusão de práticas que ratifiquem a cultura afro-brasileira e a cultura indígena como as verdadeiras expressões do nosso povo e que sejam dadas as condições para que em cada escola, em cada bairro e cidade, em cada comunidade, o Brasil reconheça o BRASIL.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sobre Pessoas - 9

A bela Susana do vice-rei

Crônica do livro "Sobre Pessoas", do escritor Antonio Torres


De Luís Vasconcelos de Sousa


Devo-a a outra bela, Vera Barroso, a apresentadora dos Cadernos de cinema, da TVE, com quem partilho o fascínio pelas estórias da história do Rio. Esta aqui, contada por ela nos bastidores do seu programa, encantou o maestro João Guilherme Ripper, a ponto de ele prometer transformá-la numa ópera. Trata-se de uma lenda romântica, que pode ser conferida à página 97 do livro Rio de Janeiro em seus quatrocentos anos, publicado pela Record em 1965, no capítulo Século XVIII, escrito por Cláudio Bardy.

Começa com a chegada aqui – vindo de Lisboa -, do vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza, no ano de 1779, para dar início ao governo mais celebrado pelos historiadores, antes de D. João VI elevar a capital da colônia à do reino unido do Brasil, Portugal e Algarves, tornando-a o centro do poder imperial lusitano. Logo de cara, ele se deslumbrou com o quadro maravilhoso da natureza, a lhe oferecer um painel de sonho.

Mas se horrorizou com “a mancha brutal na paisagem radiosa”, no dizer de outro Luís, o Edmundo. As casas eram feias. As ruas, sujas. As águas, fétidas. O conjunto exasperava. Para piorar, Luís de Vasconcelos constatou que os colonos portugueses não tinham vindo para fazer um país, mas para se enriquecerem rapidamente, nem que para isso tivessem de arrasar a terra.

A situação deplorável do Rio não o levou a tapar o nariz e dar-lhe as costas. Pôs-se a andar, já com planos de embelezamento do espaço urbano, abertura de avenidas e saneamento de suas condições insalubres. Jovem, galante, dinâmico e humanitário, condoeu-se com a sorte dos escravos, que eram castigados pelos seus senhores, com exagerado rigor. Ele proibiu a aplicação da justiça a domicílio, passando-a à alçada do Estado.

Suas andanças o levaram à pestilenta lagoa do Boqueirão da Ajuda, uma verdadeira chaga encravada na cidade, tendo nas cercanias apenas casebres miseráveis. Para espanto geral, o vice-rei era freqüentemente visto caminhando a pé pelas margens infectas da lagoa, acompanhado de Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim.

No imaginário popular, a assiduidade de Luís de Vasconcelos e Souza àquelas bandas tinha razões que só o seu coração podia explicar. Ele estava perdido de amor por uma moça bonita chamada Susana, que vivia na mais pobre choupana à beira do Boqueirão, com um coqueiro solitário à porta.

Escondendo-se por trás de uma moita, o vice-rei a contemplava à distância, adorando-a platonicamente. Esse amor secreto o teria levado à decisão de aterrar a lagoa.

O aterro foi confiado ao Mestre Valentim, que arborizou toda a área. Também fez um jardim, no qual colocou pavilhões fechados, com murais e muitas obras de arte, entre elas a Fonte dos Amores. Para esta, ele fundiu dois jacarés de bronze entrelaçados. Por ordens do apaixonado vice-rei, Valentim pôs nessa fonte um coqueiro de ferro. Era uma reprodução daquele que havia à porta da bela Susana, a musa inspiradora da construção do Passeio Público, que em tempos menos perigosos deve ter sido um lugar tranqüilo para os namorados.

Resta-nos imaginar se a história da beldade plebéia teve ou não um final de um conto de fadas.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Camarote


Em terra de olho quem tem um cego é guia de cego. E o meu primo Marcelo, cujos olhos se acostumaram com a cegueira política da capital federal, pisou no arraial do Junco pensando que estava em terra de cego e entrou sumariamente pelo cano: era terra de olho.

Fez trato com o prefeito seis meses antes:

- Na festa da padroeira vou colocar um camarote pra modernizar a cidade. Um camarote apartidário, para celebrarmos a amizade de outrora.

Daí então passou a maturar a ideia. Chegou à conclusão que um espaço para cem pessoas seria o ideal. Pegou régua e compasso, pesquisou bufê, uniformizou garçom, contratou carpinteiro, pedreiro, eletricista, DJ e, depois de tudo milimetricamente calculado, colocou preço nos ingressos.

- É a festa das elites! – gritou a oposição ressabiada.

- É o apartheid! – protestou a situação ao ver o preço dos ingressos.

- É o meu fim político! – gritou mais alto o prefeito ao saber que a maioria dos ingressos havia sido comprada pela oposição.

- Meu show! Meu show! O show que contratei sendo visto pela oposição! E de camarote! – choramingou alguém no meio da multidão, pelo visto, personagem de grande importância porque o tal show era de uma dupla famosa cujo cachê subia às alturas. Nessa hora o arraial do Junco capitulou ao coronelismo e passou a ser uma terra de cego, pois havia gente com olho se dizendo dona do pedaço. Ou do show. E as contratações foram todas bancadas pelo erário. Era o dinheiro do povo, do contribuinte, servindo de cabedal político partidário.

- Abaixo o camarote! Morte à oposição! – gritaram os bajuladores cegos, solidários com o rei que só tinha um olho.

Longe dali, alheio ao facciosismo político, Marcelo preparava as malas para comparecer ao evento. Sua terra, seu torrão natal, seus sonhos de longas noites, suas orgias noturnas e os bacanais nos barrancos da vida, onde as jegas ficavam de quatro. Outrora, ele, Marcelo, era a voz da oposição, o cavaleiro da esperança, o espinho no pé dos políticos carreiristas. Bancou até um jornalzinho, mas foi fechado pela censura religiosa, sob a acusação de promover heresias.

No Junco é assim: manda quem pode e obedece quem tem juízo. Ainda se pratica a política arcaica, a perseguição inquisitória, e o lado que elege o prefeito torna-se dono da cidade. O Ministério Público é inoperante, a Justiça é literalmente cega e a coisa pública se confunde com o privado. É uma terra de donos. Donos do poder.

Tardiamente Marcelo compreendeu que não se pode confiar em político, principalmente quando a terra é de olho. Antes tivesse sido cego, para não enxergar seu camarote destruído no meio da Praça e seus detratores cinicamente urrando no meio dos escombros:

- Reconstrói! Reconstrói, Marcelo! Agora nós deixamos!



N.B. - Meu primo Marcelo não pode colocar seu camarote na festa da Padroeira do arraial do Junco pelo simples fato de ele não partidarizar os ingressos e algumas pessoas que votaram contra o atual prefeito democraticamente participariam da festa que, a princípio, deveria ser pluripartidária, vez que estava sendo bancada com o dinheiro público. Mas não faltou camarote. Havia um, bancado pela Prefeitura, onde rolou comes e bebes à vontade (festa paga com dinheiro público é assim mesmo) e alguns vexames, como mandar esconder os salgados para os convidados irem embora. E o frisson tresloucado de alguém querendo aparecer nas câmaras da TVE.



O dia em que Machado salvou uma borboleta

Por Cineas Santos

De Borboleta negra




Mesmo na penumbra, percebi que o banheiro estava limpo: o cheiro de eucalipto o confirmava. De repente, levanto a vista e descubro, na parede frontal, uma mancha escura, feia, disforme. Dir-se-ia um pequeno trapo sujo grudado no azulejo. Acesa a lâmpada, a mancha ganhou vida: era uma borboleta preta, uma autêntica escalapha odorata, se não me trai o São Google. Além de pouco decorativas, as borboletas pretas sofrem de uma enfermidade rara e mortal: desorientação congênita. Explico: são capazes de adentrar qualquer espaço por frinchas minúsculas, mas incapazes de sair, mesmo que portas e janelas estejam escancaradas. Uma vez dentro do espaço, tonteiam pelo ar como anjos bêbados, debatem-se às cegas e se esfacelam, liberando as minúsculas escamas que lhes recobrem as asas: sujam tudo. Não bastasse isso, são vulgarmente conhecidas como “bruxas”. Reza a crendice popular que anunciam maus presságios. Decididamente, não são bem-vindas, razão por que, mal se mostram, transformam-se em repasto de formigas.

Instintivamente, peguei uma toalha molhada e decidi eliminá-la com um golpe certeiro antes que ela sujasse o banheiro recém-lavado. A bem da verdade, cheguei a levantar o braço. Mas me contive: de repente, ocorreu-me a lembrança de um dos capítulos mais belos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra-prima de Machado de Assis. O título é justamente “A borboleta preta”. Não resisto à tentação de transcrever um fragmento: “...Dei de ombros, saí do quarto; mas retornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

- Também por que diabos não era ela azul? disse comigo.

Brás Cubas, personagem que dá título ao romance, era um pequeno-burguês cínico, inútil e dado a filosofices. Depois de matar a borboleta preta, tenta justificar o gesto engendrando uma teoria que efetivamente não se sustenta. Quanto ao texto em si, apenas demonstra o já sabido: Machado, como um verdadeiro alquimista, transformava episódios banais em excelente literatura.

Enquanto “desbebia” sossegadamente, contemplei a borboleta e fiz uma reflexão pueril, digna do Brás Cubas. Os latinos tinham razão: “a arte serve à vida”, mesmo que seja a vidinha errante e efêmera de um inseto repulsivo. Assim, graças à excelência da prosa do Bruxo do Cosme Velho, uma borboleta preta ganhou o direito de continuar em sua vadiice pelos céus de Teresina.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Quaresma - Sara Rafael

Aproveitando meu penúltimo dia na esbórnia (o último só no suspiro final) para publicar a gentil colaboração da minha amiga d'além-mar.


Sara Rafael


Enterra-se o Carnaval. Hoje é quarta-feira de cinzas. Começa a Quaresma.


Quarta-feira de cinzas é qualquer dia para mim. São as cinzas da minha vida. Todos os dias, quando acordo, se apaga a minha alegria de viver. Não há “Carne vale”. Queimo o valor da carne, porque há carência de dinheiro para comer.


É vida sem fulgor. É cinza sem calor; é fogo apagado sem arder. È sempre Quaresma.


Os 40 dias bíblicos até a Páscoa representam 40 anos, a esperança média de vida na época.


Com a média de vida actual, reescrevendo hoje, seriam 80 dias. Vida que se arrasta em jejum, isolamento, negação de desejos, recusa de ambições, em penitencia no deserto.


A minha vida é um deserto de 60 dias. Solidão sem esperança de ressurreição. Todos os dias faço jejum. Só tenho uma refeição depois do pôr-do-sol. Não posso pagar duas refeições, jantando não vou dormir de barriga vazia.


Vou vivendo resistindo às tentações, da facilidade de morrer... meditando no vazio... na realidade sócio-económico-política deste país, marcada pela injustiça, pela exclusão, por índices sempre mais altos de miséria, por medidas sempre mais elevadas de prepotência.


Não tenho mais temas para escrever. Há carência de essência por aqui. Sem causas nem conquistas. Gente que vai sendo anestesiada com cérebro que vai sendo lavado. Povo que vai perdendo a visão no marasmo. A vida neste país vai sendo Quaresma sem Páscoa.


Vou escrevendo no gerúndio, prolongando o que é breve: Nem D. Sebastião volta, nem Jesus ressuscita.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

UM CARNAVAL COM ZORBA & CIA

Por Cineas Santos





Decididamente, não gosto de carnaval. Por amor a verdade, melhor seria dizer: tenho trauma de carnaval. Explico: na remota década de 60 do milênio passado, numa segunda-feira aziaga, perdi uma fulaninha por quem andava encegueirado para um garoto sarará, que dançava frevo como uma carrapeta, tinha uma bicicleta Monark novinha e um reluzente relógio Lanco. A zinha era louca por carnaval e me convenceu a fantasiar-me de otário (a única fantasia que me cai bem) para acompanhá-la no corso. Enquanto a bandinha limitou-se a tocar marchinhas manjadas, eu me segurei; quando atacou de frevo, perdi o passo, a sirigaita e, para sempre, o tesão por carnaval. Por conta daquele vexame, quase me tornei padre. Mas Deus, sabedoria em estado puro, escolhe os seus por outros critérios que não a “vocação” provocada por dor-de-cotovelo...

Este ano, para fugir do carnaval, programei-me para ir a Guaramiranga, cidadezinha simpática encravada na Serra do Baturité, no Ceará. O problema é que, nesse período do ano, a cidade promove um concorrido festival de jazz, que atrai aficionados turistas e farofeiros de todas as procedências. Fiz as contas e concluí que, entre malucos por sambas e tarados por jazz, a diferença é mínima. Fiquei no meu canto: “boa romaria faz...”

Feriado prolongado é sinônimo de perda de tempo: você planeja arrumar os papéis, limpar as gavetas, responder às cartas dos amigos (sou do tempo em que se escreviam cartas), iniciar aquele romance que revolucionará a literatura ocidental, e acaba mesmo é dormindo mais do que seria recomendável. Segundo Victor Hugo, que sofria de insônia, “O sono imerecido embrutece o espírito”.

Cansado de não fazer nada, passei numa locadora de vídeos para garimpar algum filme antigo, digno de ser revisto. Levei sorte: encontrei nada menos que Zorba – o grego, um filme de tirar o fôlego. Lançado em 64, só agora chega às locadoras em DVD. Anthony Quinn, como Zorba, simplesmente arrebenta. Não bastasse a competência do velho ator e a direção firme de Michael Cacoynnis, o filme conta com a beleza quase pecaminosa de Irene Papas, no papel de uma viúva cobiçada por todos os homens da ilha de Creta. O mais é loucura e magia. Zorba, uma tempestade de homem, ministra lições de vida a um aprendiz de escritor sem inspiração. Lá pelas tantas, afirma: “Só há um pecado que Deus não perdoa: uma mulher bonita: chamar um homem para a cama e ele não atendê-la”. Filmado em preto e branco, o filme não envelheceu: faz jus ao título de clássico do cinema ocidental.

Como não tenho preconceito contra o novo, vi também Conversando com mamãe, (2004) de Ulisses Dumont, com China Zorrilla e Eduardo Blanco. Se me pedissem para definir o filme, eu diria apenas: humano, demasiadamente humano. O filme encanta pela simplicidade e comove pela ternura. Tendo como pano de fundo a derrocada econômica da Argentina, Conversando com mamãe nos instiga a uma reflexão mais profunda sobre o “lugar” do velho no mundo contemporâneo. Imperdível.

Os dois filmes me deixaram encharcado de poesia. Por pouco, não me esqueci de que, aos 12 anos de idade, numa segunda-feira de carnaval, perdi uma sirigaita acesa ao som de “Vassourinhas”, dos pernambucanos Matias da Rocha e Joana Batista Ramos.

Que venham as cinzas...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Os carnavais do carnaval de Salvador

"Ah, imagina só/que loucura essa mistura/alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia/de todos os santos, encantos e axé/sagrado e profano, o baiano é carnaval... ”

Por Edna Lopes

De Carlos Pitta e suas backs


De No Campo Grande, no Trio de Carlos Pitta


De Há carnaval pra todo mundo


De Na pipoca de Moraes Moreira


De Entrevista ao A Tarde


De O retorno triunfal de Moraes Moreira



De Na pipoca de Moraes Moreira


Que me perdoem os “não foliões”, os que acham que carnaval é também o ópio do povo, os “donos da verdade de plantão” e os que se acham no direito que dizer que apenas o seu jeito de "curtir" feriados é o certo, mas, quem como eu vem ao carnaval de Salvador, sente os acordes da guitarra de Armandinho, ouve André Macedo ou Moraes Moreira cantar este hino e não se emociona, não siga a “antiga” ou a “nova” fubica porque já morreu.

Que me perdoem os que não gostam do bom samba que arrasta multidões, do povo cantando a plenos pulmões desde um partido alto a um samba enredo, um samba de roda ou um samba reggae. Impossível ficar impassível diante de alguém que puxa as palmas e canta “... Tu não faz como o passarinho/Que fez o ninho e avoou/Voou, voou, voou, voou/Mas eu fiquei sozinho/Sem teu carinho/Sem teu amor...*

Que me perdoem os que não aprenderam a cantar “... Tenha a fé no azul que tá no frevo/Que azul é a cor da alegria/Um cavalo mambembe sem relevo/No galope de Olinda pra Bahia...” e não arriscam uns passos de frevo. Quem desce as ladeiras do Pelô ao som do impagável “Vassourinhas” ou cantando “Bandeira Branca” e não se sente também em Olinda e no Recife antigo.

Que me perdoem os que nunca viram o tapete branco dos Filhos de Gandhi descendo a Castro Alves, os que nunca viram o Ilê aiê passar, pois não precisaram cantar “Ilê aiê, como você é bonito de se ver...” não viram o Araketu, o Olodum e tantos, tantos outros maravilhosos afoxés e cortejos que enchem meus olhos de cores, o coração e alma de ritmos afros, garantindo o reencontro com a minha ancestralidade.

Que me perdoem os que nunca provaram do prato quente da diversidade do bloco “Mudança do Garcia”... A alma das instituições e comunidades soteropolitanas em estado de pura alegria e bom humor, fazendo troça de situações do cotidiano do povo brasileiro, que verga , mas não quebra.

Que me perdoem os que fazem opção para ver e ouvir o carnaval de um único bloco, da varanda de um camarote ou ainda os que se contentam com o que a mídia seleciona e divulga. Definitivamente, não é o meu tipo de carnaval.

Que me perdoem os que acham que o carnaval de Salvador se faz apenas de axezeiros e pagodeiros, de letras tatibitates que depreciam a mulher, de lobos maus e mal fadadas chapeuzinhos, de beijo na boca em bocas qualquer, de musas fabricadas por canais de TV ou gravadoras, de camarotes para “Vips” que recebem cachês.

Ó, quer saber? Não me perdoe, “Não me pegue não me toque, por favor, não me provoque eu só quero ver o Ilê passar"... e outras - muito outras - cositas más. Os bons carnavais do carnaval de Salvador já deu seus primeiros (e tantos!) acordes! E eu, graças a Deus, ainda estou de férias.

Nos veremos por aí?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A Noiva - Cláudia Magalhães





Saltou da cama, temendo chegar atrasada. Era o dia do seu casamento! Ah, esse dia jamais será esquecido! A felicidade, assim como a tristeza, tem cheiro de fruta doce, pensou inspirando o suave odor do ar. Correu até o velho baú e retirou, com cuidado, seu velho vestido de noiva. Vestiu-se com dificuldade. O seu corpo agitava-se num vai e vem frenético. Estava, sempre, num balanço, tentando entrar em harmonia com o tempo. E nesse balanço, atingia vôos cada vez mais distantes. A porta do quarto foi aberta por um rapaz de rosto duro e frio, como todos naquele lugar. Não se importaria com ele, estava feliz demais para isso. Poderia, finalmente, reencontrar seu grande amor!

Em busca do seu coração, seguiu em direção ao pátio. Por que quanto mais queremos chegar a um determinado lugar, mais ele se torna longe?, pensou ao atravessar o longo e frio corredor. As pessoas, que por lá circulavam, não notaram sua chegada. Nenhuma alma. Nem grande, nem pequena. De nada adiantava expirar, com seu deslumbrante vestido branco, tanta felicidade. As pessoas não gostam do sucesso alheio. A felicidade, sempre, incomoda, pensou sentindo toda sua alegria pesar o ar.

Correu em direção ao que chamava de “pequeno jardim”. Nesse lugar, todos os dias, na mesma hora, o esperava sentada num banco, branco, de ferro, que ficava sob uma enorme mangueira. A vida é uma enorme repetição, pensou observando uma manga rosa, tão doce quanto seu coração, pendurada na frondosa árvore. Era a fruta mais bela que já vira. Precisava pegá-la, ela seria seu buquê e quando terminasse a cerimônia, a ofertaria ao homem amado. Ela representaria seu amor! Teria presente mais doce? Não, definitivamente, não! Ah, como o amava! Esse amor tomou conta do seu corpo e tornou-se seu universo. Não entendia o real motivo de ter sido abandonada por ele naquele lugar frio e autoritário, dependendo da bondade, indiferente, daquelas pessoas que entendiam, somente, de bulas de remédio. É certo que estivera completamente no escuro por algum tempo e que andara com as mãos no lugar dos pés, mas, agora, estava “recuperada”. Lutaria pelo homem amado. Subiria na árvore, mesmo que se machucasse. Seus arranhões seriam como uma carta de amor. Era necessário mutilar-se com algumas farpas para provar a grandeza do seu sentimento. Toda carta de amor deveria ser escrita na carne, com sangue, dessa forma, todas as promessas de amor virariam cicatrizes, acompanhariam todos nossos passos e jamais seriam esquecidas com o tempo, pensou ao subir na árvore. Alcançou a manga e colocou-a, com cuidado, no banco. Limpou o vestido. Arrumou os cabelos, jogando-os para o alto e, dando-lhes um nó, improvisou um rabo de cavalo. Estaria impecável quando ele chegasse. Depois de alguns segundos de silêncio, retomaria o fôlego e lhe daria um longo e caloroso beijo. Diria que o amava com loucura e sairiam, de mãos dadas, daquele inferno. Escreveriam uma linda história de amor no tempo e mostrariam as pessoas que o amor necessita de perdão. Pensou em como seria bom tê-lo de volta. Preparar com carinho suas comidinhas preferidas, fazer amor e adormecer em seus braços com a certeza da existência de coisas que nunca se acabam e que nos voltam mais fortes quando a esperamos com paciência e determinação. Limpou, novamente, o vestido. Desmanchou o rabo de cavalo e o refez com agilidade. Nunca estava bom o suficiente. O amor, também, é assim. Nunca é bom o suficiente. Por essa razão fora abandonada. Essa sua mania imbecil de querer tudo no seu devido lugar, de arrumar, incansavelmente, a louça, a casa, era uma prova do seu amor. Ao ter a certeza disso, ele a abandonou. Ele passou a odiá-la pelo simples fato dela o amar. Pegou a manga e observou-a com atenção. Nunca vira uma manga tão bela! Cheirou-a e, novamente, colocou-a sobre o banco. Tinha absoluta certeza de que, em algum momento, ela a faria sofrer. Todas as coisas boas nos fazem sofrer. Elas moram na esquina do amor com o ódio, concluiu com tristeza. Limpou o vestido, refez o rabo de cavalo, pegou a manga, cheirou-a e pensou com uma estranha surpresa: Nunca vi uma manga tão bela! Por duas horas, repetiu esse ritual, incansavelmente. Quando ele chegar, direi que o amo com loucura até a exaustão. Repetirei inúmeras vezes. A vida é uma grande repetição e usarei isso a meu favor, repetindo, somente, as coisas boas, concluiu com satisfação refazendo o penteado.

Faltavam poucos minutos para o pôr-do-sol, quando escutou o som de passos firmes. Eram eles. Malditos! Sanguessugas do inferno!, pensou sentindo um medo quase insuportável. Nesse instante, o céu fechou as pernas arrastando nuvens pesadas e cinzentas, e escondeu o seu azul mais profundo. Tudo ficou plano, reto, uniforme. Não havia estrelas, nem firmamento. Sumiram as cores e do arco-íris, somente o nada. Estava tudo acabado. Fechou os olhos e deixou-se molhar pela água que derramava em seu peito. Sem o seu amor, tudo seria somente chuva. Uma chuva que traria seu passado em relâmpagos, queimaria suas lembranças, reduziria tudo a cinzas, fazendo seu futuro fugir pela boca feito fumaça. Cantou em silêncio, vendo-o morrer arrastado pelo tempo. Olhou a manga e constatou que, em breve, ela seria apenas uma fruta podre ou, então, seria devorada por algum estranho. Soltou um terrível grito de dor. Não! Não deixaria ninguém meter as mãos no que tinha de mais doce. Aquela fruta era seu amor. Se alguém tinha que provar sua doçura, esse alguém seria ela! Devorou a manga e sentiu sua felicidade escorrer pelos dedos. Os dois homens observaram com uma estúpida frieza, por alguns segundos, aquela mulher de rosto inquieto, dando as costas à razão em nome do amor. Não entendiam que não existe nenhuma arma contra ele, somente uma defesa: a loucura. Essa fuga dos perigos da vida. É nesse repouso dentro de nós, que ela nos desmonta e nos torna vítima e algoz.

Deixou-se agarrar por eles. Não se moveu, nem falou nada. Tudo poderia ser usado contra ela. Atravessaram o longo e frio corredor. Deitaram-na na cama, deram-lhe alguns comprimidos e saíram. Nenhum sorriso, nenhum carinho. Não chorou, já estava acostumada com a frieza dos homens sem coração. Enfrentaria a insignificância dos momentos em que teria que viver como se nunca tivesse experimentado um grande amor. Não tinha escolha. Tomaria todos os remédios, faria todas as refeições, como um animal domesticado. No início, quando chegou naquele maldito lugar, tentou se rebelar, mas, tal qual um amor contrariado, todas as suas tentativas de se fazer ouvir foram usadas contra ela. Esperaria a próxima oportunidade e fugiria dali. As pessoas enlouqueceram. Elas não sabem mais amar, constatou com a loucura dos que amam demais.
Ele não apareceu. Teria mais uma chance? Não sabia. Restava-lhe sonhar. Talvez, a forma mais humana, mais justa, de viver. Nos sonhos, encontraria o poder da loucura, do seu lirismo, indispensável para alcançar o amor. Somente os loucos amam. Em algum deles, o reencontraria num lugar chamado poesia. E, com uma flor na boca, ele lhe diria, somente, palavras de amor. Ela escutou o barulho de risadas debochadas, dos enfermeiros, vindas do corredor. O mundo ignorava sua tristeza. Adormeceu chorando baixinho, sentindo o gosto, agora, amargo, do que já lhe fora doce, extremamente doce.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Nocaute Técnico - Antonio Tibau

A publicação de hoje são dez mini contos do novo colaborador do blog Antonio Tibau, do Rio de Janeiro. Como estou em Salvador, sob o domínio de Momo, não há ilustração nem fotografia do autor.
Feliz carnaval aos leitores do blog

twitter.com/nocaute_tecnico

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1. Quando a queda se mostrou inevitável, a angústia dominou Tavito. Quis economizar as milhas e agora nunca saberá como é voar de executiva.

2. Entrou no banheiro com doze anos, decidido a só sair de lá adulto. Entregou os pontos depois do quarto Hollywood vermelho.

3. Estava tão boa em fingir orgasmos que começou a ficar molhadinha só de pensar na sua próxima atuação.

4. Precisava inventar um problema para a sessão de amanhã. Tinha medo que lhe dessem alta.

5. Acordou na Bahia. Decidiu parar de beber.

6. O silicone não salvou seu casamento. Mas, se serve de consolo, atrapalhou bastante o da vizinha.

7. Surtou baixinho, para não incomodar a mãe.

8. Passou a faca na galinha, mas acabou desistindo da oferenda. Jogou o bicho na panela que assim teria mais chance de arrumar marido.

9. Poderia ter a coelhinha do mês, de qualquer mês, se quisesse. Mas ainda não conhecera o amor de verdade. Diabos! Tragam a de agosto.

10. O clube de suíngue não resolveu nada. Foram expulsos para não contaminar os outros casamentos presentes.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

AS REINAÇÕES DE PEDRO MACAQUINHO

Por Cineas Santos



De Pedro Macaquinho


Constatei, com uma pontinha de alívio, que a figura mais “notável” de Campo Formoso, que nem existe mais, não sou eu. Trata-se de um certo Pedro José de Sousa que, por suas reinações, ganhou a adequada alcunha de Pedro Macaquinho. Menino ainda, Pedro se deu conta de que não tinha a menor vocação para puxar cobra para os pés, preso ao rabo de uma enxada. Num descuido da família, azulou no mundo e foi cumprir sua sina. Analfabeto, sem maior qualificação, descobriu que o próprio corpo poderia ser um excelente instrumento. Simples: punha a mão esquerda na cova da axila direita e, movimentando o braço, marcava o ritmo do xote “O Cheiro de Carolina”, sucesso de Luiz Gonzaga. Foi nessa época que o agraciaram com o rótulo Macaquinho.

Excelente ritmista, tornou-se zabumbeiro do Mané Vicente, que ganhava a vida judiando de uma pé-de-bode ranheta. Sempre que o sanfoneiro parava para entornar uma talagada de cana, Macaquinho abarcava a sanfoninha e mandava ver. Acabou aprendendo o mínimo; o mais correu por conta de sua intuição. Tornou-se presença obrigatória em feiras, quermesses, leilões, desobrigas, circos e funções. Sentou praça no Canto do Buriti e se fez showman: canta, dança, improvisa e conta piadas. O público o adora. Mas sua carreira artística tem sido marcada por um problema crônico: só querem pagar ao Macaquinho com cachaça. Dinheiro, que é bom, nada. Como qualquer macaco que se preze, entre uma reinação e outra, o Macaquinho fazia um filho. Família crescendo, dinheiro curto, as coisas se complicaram. Pequeno ainda, os macaquinhos do Macaquinho passaram a ajudá-lo: tornaram-se todos sanfoneiros e ritmistas. Nascia o conjunto “Pedro e seus Macaquinhos”. Um dos garotos, o Walmir, é um sanfoneiro de grandes recursos técnicos.

A parceria com os meninos rendeu alguns frutos, mas a grana continua curta, e o tempo começa a maltratar o nosso bravo macaco. De repente, aquele novelo de encrencas, que atende pelo nome de próstata, começou a incomodá-lo. Pedro teve de diminuir o ritmo de trabalho, fazer tratamento, gastar o que não tinha. A magra aposentadoria que recebe não lhe garante a sobrevivência com um mínimo de dignidade. Foi aí que pintou a ideia de lançar um CD artesanal, mas realizado com cuidado e capricho. O CD traz o instigante título de The best of Pedro Macaquinho, com um punhado de canções, entre elas as clássicas “Delita” e “De madrugada no calor do frio”, uma versão light, já que a original , down, é imprópria para menores de 78 anos de idade. Sucesso absoluto: o CD vende mais que farinha nas feiras do Ceará. Sucesso e encrenca: segundo fui informado pelo sanfoneiro, pelo menos duas lojas de discos de Canto do Buriti clonaram o CD e passaram a vendê-lo sem autorização do Macaquinho, ou seja, furtam-lhe a única coisa que tem para sobreviver. Sem ter a quem recorrer, Pedro veio me pedir ajuda.

Denunciei o fato no programa Feito em Casa e o faço agora nas páginas de O Dia e no blog Onde Canta a Acauã. Se a pirataria continuar, irei ao Canto do Buriti, denunciar os criminosos ao promotor da cidade. Não tenho poderes para ir além. De qualquer forma, tenho o dever de tentar ajudar aquele humilde cidadão que, com sua arte feita de pura intuição, destronou-me do incômodo posto de única “celebridade” de Campo Formoso.